Padre Vicente Morlini

Padre Vicente Morlini, italiano, 88 anos de idade, possui uma lucidez e uma memória rara. Com 64 anos de sacerdócio, é um dos Padres que esteve em constante contato com a população de Mogi das Cruzes

Postado dia 26/03/2016 às 23:20 por Wilson Neves

Foto: Acervo Sociedade Pública - Padre Vicente Morlini

Foto: Acervo Sociedade Pública – Padre Vicente Morlini

Padre Vicente Morlini, italiano, 88 anos de idade, possui uma lucidez e uma memória rara. Com 64 anos de sacerdócio, é um dos Padres que esteve em constante contato com a população de Mogi das Cruzes, fazendo trabalhos sociais importantes, principalmente com os idosos. Nessa entrevista especial de Páscoa, ele nos conta um pouco de sua história e fala sobre os desafios da sociedade atual, sobre política e espiritualidade.

##SP: Quem é o Padre Vicente?

Para poder me colocar nessa conversa, gostaria de lembrar antes de tudo minha formação religiosa e sacerdotal, e lhe digo que me sinto um privilegiado na vida. Nasci na cidade de Reggio Emilia, uma cidade próxima a Bolonha na Itália. Meus pais eram camponeses. Fiz o estudo primário em uma escola perto de casa e frequentava a igreja que também era próxima de onde morava. Logo entrei no seminário, fiz o ginásio, e depois me mudei para Marche, onde comecei o noviciado e então os primeiros estudos de Teologia.

##SP: Como foi o despertar do senhor para a vocação sacerdotal?

Eu sempre tive. Eu disse a minha mãe que ia ao seminário, e todos pensavam que era meu irmão quem tinha a vocação. Ela ficou surpreendida e admirada, pois um padre Servo de Maria me convidou, e iniciei na vida religiosa tornando-me seminarista em 1939, início da Segunda Guerra Mundial. Me formei sacerdote em 1952 em Roma, na Faculdade “Marianum”, da Ordem dos  Servos de Maria, e fiquei 10 anos como coadjutor de uma paróquia em uma pequena cidade chamada Budrio, próxima de Bolonha. Depois, em 1957, fui feito vigário dessa mesma paróquia.

##SP: Como foi o início da vida sacerdotal ?

Naquele tempo, o prefeito do município de Budrio tinha minha idade, era de formação cristã, mas abandonou o cristianismo para tornar-se socialista. Eu e ele tínhamos os mesmos estudos e cultura, mas o prefeito e seu pai eram extremamente socialistas. Essa experiência que relato foi bem importante para minha formação sacerdotal. Eu era um dos colaboradores junto de outros 17 sacerdotes do Cardeal Giácomo Lercaro de Bolonha, uma pessoa muito boa para nós, forte no concílio ecumênico e muito aberta para as questões sociais. Ele nos chamava a cada 15 dias para realizarmos um trabalho de combate ao comunismo, pois era um comunismo ateu, declaradamente posicionado contra a Igreja. Neste grupo de padres que o cardeal preparou para combater o comunismo, minha função era de motorista, pois quando algum padre ia fazer alguma declaração, eu devia estar pronto para fugir com ele, pois era perigoso apanhar. E isso foi uma experiência sacerdotal muito bonita. Depois que fui feito superior duas vezes, na terceira vez eu resolvi ir embora, pois sentia uma grande vontade de viajar para o Brasil.

##SP: Quando decidiu viajar para o Brasil?

Meu sonho era vir para o Brasil ou África do Sul. Escolhi o Brasil. E aqui comecei a iniciar uma experiência sacerdotal muito boa, inclusive na parte cultural. Cheguei no Brasil em 1962, onde fui para Rio Branco no Acre. No segundo distrito de Rio Branco havia uma única paróquia. Ficava de Rio Branco até a Bolívia, e de Rio Branco até a Amazônia, imenso, mas foi ótimo, eu vivi minha vida missionária do jeito que eu pensei. Para realizar algumas obras religiosas em lugares mais longínquos, havia um padre que era piloto de avião, e viajava com aviãozinho teco-teco, pois era perigoso viajar de outra forma, pois na região havia índios violentos. Éramos poucos padres, mas todos bem unidos, pois queríamos mesmo viver a vida missionária. Ganhei uma lambreta, e com a lambreta pude começar a atender muitos lugares mais distantes. Minha missão era atender o povo do Acre.

##SP: E quando o senhor chegou em Mogi das Cruzes?

Lá no Acre eu peguei malária, e vim para o sudeste do Brasil para me tratar. E aqui na região comecei a fazer parte de um movimento de um padre americano que atendia as paroquias, dando ajuda para que elas conseguissem um carro. O movimento chamava-se “motorização do clero”. Eu entrei nessa, e ia até as paróquias oferecendo a oportunidade de comprarem um veículo. Vim para Mogi, e aqui consegui uns 600 contribuintes, pois não se falava de dízimo naquela época, eram contribuintes. O Bispo Don Paulo Rolim Loureiro, quando viu o número de contribuintes em uma pequena paróquia, ficou bem contente e me mandou em diversas missõesLogo depois me recebeu na diocese, e fiquei por aqui. Don Paulo era um tipo bem interessante, tinha bom caráter e personalidade forte, e me queria muito bem como um padre de longa data. Me colocou na pastoral, e assim fui me inserindo bem no ambiente de Mogi. Aqui tive a oportunidade de realizar diversas atividades na diocese e na cidade. Em Mogi eu fui o vigário da catedral, coordenador diocesano da pastoral, vigário da paróquia Santo Antonio no bairro Mogi Moderno, Vigário da Paróquia São José Operário no bairro do Mogilar, fui fundador e presidente do conselho municipal do idoso,  presidente do conselho estadual do idoso e membro do conselho Nacional do idoso. Minha formação sacerdotal me acompanhou em todos os cargos que tive.

##SP: Quais os estudos que o senhor realizou?

Na parte de preparação cultural fiz licenciatura de filosofia em Bolonha, Teologia em Roma e Ciências Sociais na USP. Assim eu tive essa alegria de receber a formação em setores que sempre amei servir.

##SP: Como foi esse trabalho com os idosos?

Como presidente do conselho estadual do idoso, eu pude viajar e conhecer muitos municípios levando a mensagem a favor das políticas que deveriam ser adotadas em relação aos idosos, pois ainda não havia estatuto do idoso. O fato que me dava ânimo era ser presidente do conselho e sacerdote, e a turma gostava. Para as pessoas era curioso de ver que eu como sacerdote me dedicava ao conselho estatual. Na época o Governador era Mario Covas e ele, assim como a Dona Lila, que sempre foi como uma mãe para mim, me apoiavam em tudo que eu precisava para desenvolver dentro do conselho.

##SP: O senhor participou na formação do Estatuto do Idoso?

Sim, esse foi um período muito bonito que realmente eu penso que ajudou na formação do estatuto. Ao lado de outros membros do conselho estatual fizemos um trabalho muito profundo, nós íamos nos municípios e fazíamos encontros recolhendo testemunhos dos idosos do lugar, pois todos queríamos a formação de um estatuto, que finalmente saiu em 2003. Nosso conselho era muito ligado a outros conselhos estaduais e assim criamos uma força que tinha o apelo para criação do estatuto do idoso a exemplo do estatuto da criança que já existia.

##SP: Fale então sobre o trabalho do Instituto Pró Mais Vida,

O Instituto nasceu em 1977. Naquela época os idosos eram recolhidos em abrigos, e não tinha política alguma que os defendessem, eles ficavam no asilo, presos, em um ambiente sem expressão nenhuma na sociedade. Hoje é fácil falar de idoso porque os asilos são um reforço que o poder público dá para o idoso que não tem família. O Instituto Pró Mais Vida é para idosos que não tem bens e nem família, estão desamparados na sociedade. O Instituto foi criado por mim e mais sete pessoas que acreditávamos que era preciso dar oportunidade para que os idosos pudessem ser amparados, mas sem abandonar a vida pública, a vida comunitária, e foi realizado de uma maneira bem simples. Inicialmente nossa atividade era atender as pessoas em seus domicílios. Quando o idoso ficava sozinho e com idade avançada não tinha como ampará-lo. Existia a casa de São Vicente e mais duas, mas não eram suficientes e era um ambiente fechado. Nó pensamos no Instituto para recolher em ambiente aberto, onde a família e os benfeitores e voluntários pudessem visitar e ajudar, de modo que se criou um ambiente em torno do idoso, mas em família. A primeira casa que foi aberta foi na Rua Flaviano de Mello e depois na Rua Senador Dantas em Mogi das Cruzes, logo depois comprei um terreno na Vila São Sebastião também em Mogi das Cruzes, falei com o dono do terreno pedindo mais lotes e ampliamos as obras. Deixamos de atender somente a domicílio para dar mais atenção em locais especialmente feitos para recebê-los. Tínhamos instalações em Mogi das Cruzes, São Paulo e Caraguatatuba. Inclusive podíamos mandar os idosos de Mogi para passarem um tempo na praia em Caraguatatuba.

##SP: Estamos vivendo o período da Quaresma. Como é esse período religioso na vida das pessoas? O que isso representa?

Eu farei uma distinção entre o mundo que nos cerca e a própria igreja. A igreja é fiel à quaresma e a Páscoa dos anos passados. Quem nos orienta é a liturgia e o calendário da igreja. Sobre isso não se muda. Agora, a vida moderna é uma avalanche que está cercando o indivíduo de uma maneira que ele não sabe como se mexer dentro deste mundo moderno, e você vê que parece que as igrejas encolheram. As igrejas não mandam como antes, não tem aquela influência como antes, hoje ela tem influência para um grupo, uma categoria de pessoas. Hoje o social que está dominando o mundo, está invadindo tudo, está tomando conta de tudo, a própria imprensa é guiada e os recursos públicos são dirigidos. É uma multidão que fala de Deus, mas não se entendem, porque são divididas. São forças sadias, ótimas, mas não tem a força da União. Hoje no mundo atual existem indivíduos desequilibrados que não sabem viver em união com outras pessoas e fazem loucuras. É interessante vermos que hoje fazemos parte de um mundo que é maior que nós. Mas o social do mundo inteiro tem uma força tão grande que se alguém der um grito nos Estados Unidos, se ouve em Mogi. Muita gente não entende, mas é uma realidade que não podemos fugir.

Particularmente, o que o senhor aprendeu de mais valioso com a vida religiosa?

Um princípio que não é só religioso, é filosófico. Aprendi a aceitar as fases da vida, e vivê-las. Por exemplo, a velhice. Quem é que aceita? Quem aceita tem que transformar os anos dele em uma vida que lhe faça feliz. Mas quem é que aceita? Quando você tem 30, ou 40 anos a sua visão é tão personificada que te impede de aceitar tudo que vem de fora. Na verdade temos que acompanhar um universo que é mais forte e mais alto que nós, um universo superior. Até os grandes homens ficam pequeninos diante dele.

Qual a sua missão na Igreja atualmente?

Eu coloco em primeiro lugar minha pessoa, devo aceitar a velhice. Aceitar a velhice não é uma coisa simples, sobretudo pensando no passado que tive. Nesse momento acho maravilhoso viver essa época, porque a vida é um dom. Devo preservar minha saúde e seguir dentro do limite das minhas condições físicas para não atrapalhar minha eficácia e poder continuar servindo. Vejo que aprendo muito mais agora do que no passado. Hoje são os outros que fazem diversos trabalhos e eu fico numa situação de admiração, reconhecimento e respeito. Eu preciso cuidar da saúde e me cuidar, mas todas as vezes que me chamam para algo, eu vou.

Qual a mensagem da Igreja Católica para as pessoas que buscam a paz em tempos difíceis para esse domingo de Páscoa?

Fazendo uma comparação entre a nossa Páscoa e a Páscoa de antigamente, estamos vivendo a nossa Páscoa de agora. Tudo que tem a ver com a presidente e os partidos, se você for analisar bem, tem as mesmas falhas em todos nós. A vida do país está numa fase de Páscoa mesmo, um período de preparação espiritual, estamos esperando chegar a Páscoa ao som dos sinos para um tempo diferente.

Como o senhor vê a situação política do Brasil?

Essa situação no Brasil vai passar. A Dilma vai terminar o mandato dela e os partidos vão se organizando melhor. Pois tem partidos que não tem nenhuma filosofia, onde a única filosofia é brigar. Dá a impressão que estão todos assustados, mas na verdade esse período não assusta ninguém. A Dilma não vai sair de lá, e se não for legalmente ninguém tira ela. Agora os partidos estão todos de olhos abertos e ouvidos quentes vendo que estão tendo de agir com responsabilidade, mas não têm coragem de tomar uma atitude franca. Fala-se muito contra a presidente, mas fala-se somente da boca pra fora, sem convicção. Tirar uma presidente sem eleições? Onde se vê isso? Então é um verdadeiro golpe. Mas essa confusão tem um lado positivo, pois com ela os partidos adquirem mais experiências e pessoas novas vêm surgindo. Essa é minha opinião de acordo com minha experiência neste âmbito de política social, nós somos cidadãos que estamos vivendo uma fase que descontrola mesmo, deixa a gente um tanto confuso. Mas terá solução, eu tenho impressão que a Dilma está tentando achar uma outra alternativa ao impeachment, mas acredito que não vai mudar nada, e seria bom não mudar pois estão chegando as eleições. Os partidos se fortalecem, acaba a história da Dilma, e começa uma história do Brasil, Quem vai colocar no lugar da Dilma? Ninguém tem coragem de falar um nome.

E fora do Brasil, algo está lhe chamando a atenção?

Veja por exemplo o Presidente dos Estados Unidos que foi até Cuba e abriu uma nova época lá. Cuba hoje não é o mesmo país de antes, é diferente de 20 anos atrás. Hoje tem uma importância superior em relação ao seu passado. Todo mundo fala de Cuba, pois se abriram pra uma nova era. Veja uma ilha tão pequena diante de um mundo tão grande, recebendo grandes eventos com a ida do Barack Obama até lá, para abrir essa pequena ilha ao mundo. Isso é um exemplo, para vermos que o interessante é sabermos o tamanho e o poder dessa sociedade imensa.

O senhor acredita na força de novos líderes?

Os partidos estão mandando pessoas embora. O foco agora são as próximas eleições. O PT está num fracasso terrível. Nessa confusão sofre todo mundo. Ninguém fala sobre as próximas eleições, mas veremos que beleza de eleições que nós teremos em 2018, com representantes bem mais inteligentes e preparados, cansados dessa bagunça. Tudo vai a favor de uma eleição bem mais realista. Essas coisas eu vejo com muito carinho, pois tenho a impressão que não estamos perdendo tempo, o povo nessa bagunça está aprendendo muita coisa. Tudo que acontece agora é visando mais pra frente. Os lados positivos surgem para que possamos pegar uma direção.

E qual a mensagem do senhor para a população brasileira?

Ninguém nesse momento é mais que a presidente, ou a presidente é mais do que nós. Tem uma confusão de ideias, e esse momento vai passar, então devemos tirar uma lição de civismo, de vida social em grupo, e de um país. Meu modo de ver é que essa fase vai acabar, garantido. Agora, os modos com os quais devemos mudar estão meios duvidosos. Não temos partidos fortes, nem líderes fortes ou políticas claras. O que se nota é um estranho gosto pelas brigas. Se alguém não brigar nos tempos atuais não parece pertencer a ele. Havemos de ter partidos mais fortes e outros líderes com ideias melhores para o futuro.

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Sobre o Autor

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Wilson Neves

Sou publicitário e especialista em Marketing , proprietário da WCN agencia de propaganda, fundador e diretor da revista digital “Sociedade Pública”.

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