Ou cristão, ou comunista. Os dois não dá!

Vamos ser sinceros: como queremos assumir uma fé vivencial num Deus transcendente e, ao mesmo tempo, abraçar uma crença política visceralmente ateia?

Postado dia 20/06/2016 às 09:00 por Pedro Henrique

ateu

Foto: Reprodução/Internet

Se um dia eu escrevesse um livro de antropologia, meu ponto de partida seria o sentimento conciliação que jaz no homem. Acredito piamente que o ser humano possui uma qualidade inigualável, que mistura a sua natureza instintiva e sua racionalidade organizadora. Refiro-me à tendência sempre atenuante de união, onde as diferenças se completam formando um todo harmônico. Percebemos isto desde as sociedades mais tribais, organizadas em hordas, até nas estruturas magnânimas de nossa sociedade moderna.

Mas não adianta fugir dos fatos, esconder em discursos aquilo que a realidade nos mostra sem equívoco, ou seja: nem sempre há como conciliar pensamentos e crenças diferentes. Há como, através da tolerância mútua, achar um campo apaziguador e respeitável entre os diferentes. Todavia, não há como esperar que panteístas e monoteístas cheguem a uma síntese completa de suas convicções, assim como não há como ser budista e muçulmano ao mesmo tempo. Tudo isto está composto na velha lei da “não-contradição”. Como minha meta não é vos ensinar lógica argumentativa, vamos direto ao que interessa.

Muitas pessoas nos últimos meses vêm me questionando: “Pedro, por que você afirma, com tanta veemência, que o marxismo não é compatível com o cristianismo?” Pois bem, inspirado por esta pergunta me propus a escrever este artigo. Ele corre o risco de ficar um pouco técnico em algumas partes, mas eu lhes prometo que, se seguirem a linha do meu raciocínio, vocês entenderão perfeitamente a minha afirmação.

Explicar o marxismo em toda sua desenvoltura, num artigo que se pretende a ser curto, é uma tarefa dificílima. Por isto, irei explicar o sumo daquilo que o marxismo apresenta em suas bases teóricas. O marxismo está estruturalmente apoiado em dois pilares: (1) materialismo histórico e (2) materialismo dialético. Ambos são visceralmente contrários a qualquer tipo de religião transcendente[1]; apontemos o que significam tais conceitos.

O materialismo histórico crê que todo aquilo que se propõe a ser realidade tem que estar sob a “bênção” da matéria; tudo aquilo que existe está ligado ao movimento econômico e material da realidade empírica. Imaginemos o marxismo como um grande prédio, as bases deste prédio — infraestrutura— é a realidade para Marx. Na infraestrutura deste edifício estão os bens privados,  relações mercantis, trocas e as formas de trabalho, e toda sorte de gênese de opressões.

O que é real para Karl Marx, então, é: a matéria tangível (empiria) e os movimentos econômicos (mercado); tudo que fazemos e somos está ligado a esta condição natural do homem, o movimento econômico e sua condição material de existência. A função do marxismo, então, é mostrar a realidade subterrânea deste edifício, onde está toda a sujeira que é maquiada na superfície.

Na superfície — Supraestrutura — está todas as estruturas chamadas por Karl Marx de Ideologias. São estas ideologias as encarregadas de maquiar toda a realidade da infraestrutura deste prédio. A supra estrutura possui a função de alienar os homens, fazendo com que eles não conheçam suas condições reais; são como hologramas de uma realidade projetada, todavia, sem facticidade. Nesta Supraestrutura estão: religiões, moral, idealismos, costumes etc. Para Marx, toda forma de transcendentalismo, tudo que denote uma realidade que não a material, é uma maneira de iludir os oprimidos.

Sendo assim, Marx exclui todo o transcendente como sendo instrumento de engano e opressão, impossibilitando assim toda forma de crença num Deus que está além da matéria, pelo menos para aqueles que pretendem ser fiéis as diretrizes dele. O Deus Cristão é transcendente, anterior à matéria, criador de tudo e tudo está sob seu controle. É impossível ser genuinamente cristão e estar sob os ensinamentos mais basais de Karl Marx. Para ele, um ateu convicto, a religião não passa de uma droga alucinógena, feita especificamente para afastar todos da realidade que os circundam; não passa de um ópio.

No caso do materialismo dialético, é a doutrina marxista que afirma que a história é feita de oposições: natureza x trabalho, opressores x oprimidos, ideologia x materialidade, entre outros exemplos que poderíamos citar. Estes conflitos dialéticos buscam uma síntese que resolva estas oposições, isto se dará espontaneamente para Marx na sociedade comunista. Ao mesmo tempo, esta dialética opositora é o motor da realidade, diz ele, ela é a força que levará a superação da propriedade privada, consequentemente do capitalismo também. Tudo isto num plano material, o final que esta teoria se propõe é chegar na sociedade igualitária sem oposições, num centralismo irrigador de bonanças sociais. O céu na terra, o comunismo.

Como vimos, o transcendente e o espiritual não é algo contemplado nem sequer como possibilidade no marxismo ou no comunismo — o comunismo seria o marxismo na prática. Quando eu afirmo que não é possível ser, genuinamente, um marxista cristão, não é porque eu não quero que exista cristãos marxistas. Mas, simplesmente porque uma escolha de crença exclui automaticamente a outra. Não existe fé materialista; não existe no marxismo, por exemplo, clamor, oração, adoração, sacramentos, santidade, milagres, ressurreição, entre outras coisas vindouras de uma crença escatológica. Veja, os exemplos citados são verdades centrais do cristianismo, sem o qual sua realidade quanto existência pós-matéria se esvazia e perde todo teor metafísico.

Se o que existe é somente a matéria, como falar de milagres? Jesus, nos evangelhos, passa a maior parte do tempo a realizar milagres, milhares este que a matéria e os cálculos empíricos não dão conta de explicar; como explicar que pão e vinho tornar-se-á corpo e sangue de Jesus Cristo na eucaristia, sendo que esta própria afirmação supõe uma força transcendente a matéria que pode manejá-la? Enfim, poderíamos citar inúmeros exemplos, mas estes bastam.

O que devemos deixar claro é queo núcleo do marxismo é ateu, não há como conciliá-lo com o cristianismo. O comunismo não divide seu poder com nenhum sistema de crença que não seja o marxismo. A teologia da libertação, advinda especialmente da América Latina, tentou fazer uma síntese destas concepções conflitantes; todavia, falhou, pois sempre caía em dois erros primários: ou a teologia da libertação imanentizava o transcendente, tornando banal e corruptível tudo aquilo que é celestial; ou, por vezes, transcendia a matéria para justificar uma fé comunista escatológica, o que gerou protestos dos comunistas fieis ao ateísmo de Marx.

Um dos expoentes desta vertente da libertação, Enrique Dussel, tentou por várias vias justificar o ateísmo latente de Marx e suas críticas à religião comparando-o aos profetas do Antigo Testamento. No entanto, nem mesmo entre seus seguidores tais explicações logrou êxito. Em suma, todos aqueles que estudam com o mínimo de sinceridade entende que a união de duas concepções excludentes é tolice. Não nego que haja boa vontade, muitas vezes o desejo legítimo de conciliação pode querer sintetizar numa crença ecumênica estas duas ideias. Mas, no fim, sabem que cedo ou tarde elas entrarão em um conflito irremediável.

Podem advogar que o cristianismo não vive somente de orações, adorações e ações transcendentais, que o cristianismo é prático e, de alguma forma, lida com a materialidade mundana. De fato, é verdade. Mas, na outra via, a do marxismo, não se encontra o correspondente acesso, o marxismo em nenhuma via se encontrará com a crença escatológica cristã, com uma fé além-matéria, além-morte.

A realidade é que o comunismo sempre viu na religião cristã um sistema de crença extremamente opositora à suas convicções e esperanças. A religião é o sistema que mantém e ilude os proletários, fazendo com que eles não conheçam suas situações de oprimidos. Assim sendo, afirma Marx, a religião é um mal em si que deve ser extirpado para que o comunismo reine. Esta ideia foi largamente difundida, não é a toa que o comunismo perseguiu e matou milhares de cristãos em todo o mundo. Assassinatos, perseguições ao clero católico e protestante, além de expulsões infundadas de suas terras natais, foram atitudes recorrentes nos sistemas comunistas em relação a religião cristã. Basta uma breve pesquisa para nos depararmos com casos extremos e desumanos, onde o comunismo rechaçou abominavelmente o cristianismo. No fim, o cristianismo para os marxistas é um mal que deve ser combatido e não agregado; isto é: sendo fiel ao que Karl Marx disse em seus livros.

No fim, ou se é bom cristão assumindo toda as condições deixadas por um sistema de fé transcendente, ou se é marxista, ateu e materialista. Desculpe, os dois, não tem jeito!

 

Referências:
[1] Apesar de parecer redundante dizer: religião transcendente, há muitas seitas que se consideram “religiões” e não creem no transcendente, como a religião positivista, e algumas espécies de religiões naturalistas
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Sobre o Autor

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Pedro Henrique

Pedro Henrique, filósofo, ensaísta, crítico social, estudioso de política e palestrante

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