Oscar/Bola de Ouro e demais jogatinas

Novamente, a maioria de nós, como bem comportados cordeirinhos, convertidos em caricaturas tristes de Galvão Bueno

Postado dia 19/01/2016 às 00:00 por Peterson Queiroz

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Eu fui um cara que cresceu consumindo futebol e cinema. Futebol e cinema brasileiros.  Mas também, muito mais por sinal (já que a capacidade de produção deles sempre foi infinitamente maior do que a nossa em termos de volume de investimentos e business), do invariavelmente mal afamado cinema americano. Propaganda imperialista, carro-chefe da revolução cultural capitalista, etc. Nunca dei tanta bola pra isso quando vibrava com Martin Scorcese, Francis Coppola, Spielberg (esse bem garoto-propaganda mesmo), mas sobretudo, Lynch, Cassavettes, Terrence Mallick, Jim Jarmusch, entre outros bambas. De modo que, pra mim, não há dúvida de que o cinema mais vigoroso feito até hoje seja mesmo o do país que se diz o mais poderoso do planeta e capitaneado pelo Obama como grande modelo progressista de modernidade e tolerância (pouco importando que eles liderem o ranking de população carcerária – que, como aqui, é majoritariamente preta e pobre – e também que colecionem massacres de grandes proporções, grande flagrante de que há algo de muito dolorido no seio da “América” – como se fossem um continente inteiro). A Major League, no entanto, não dá sinais de que vá roubar da NFL e seu Super Bowl, da NBA ou do Baseball o posto de grande fenômeno cultural esportivo de massa por lá. Mas por que este comparativo? O que uma coisa tem a ver com a outra? Estamos falando de espetáculos de massa e de ações que movimentam as maiores cifras monetárias do planeta. Mas, mais do que isso, há a tradução de um enorme vazio: a espetacularização do fracasso em escala mundial.

puskasLonge dos holofotes, com apenas um pedido de autógrafo no tapete vermelho suíço, Wendel Lira, o David, enfrentou o Golias Messi e trinfou. Logo vieram dizer que era o triunfo do futebol de várzea, da essência perdida do futebol arte brasileiro sendo devidamente “resgatada”, “restituindo assim a nossa glória”, como bem disse Chico Buarque (no mais, outro ícone que não se deu conta ainda de seu anacronismo, à parte seu talento e sua história ou mesmo sua coragem em posicionar-se politicamente – mas que também sempre foi tão apaixonado por cinema quanto por futebol: não sei se ele ainda promove as peladas do Polytheama que, históricas, já contaram com Bob Marley e com meu brother Edvaldo Santana, entre outros). E, no entanto, acompanhei com surpresa o fato de que sequer um prêmio em dinheiro é concedido ao ganhador de qualquer um dos prêmios. Todos sabem dos escândalos em que a maior empresa de futebol do mundo, uma multinacional com chancelas de Estado, se meteu. Na verdade, muitos sempre souberam. Mesmo que milionários, como Messi, CR7 e Neymar (este prestes a ser investigado judicialmente na Espanha por envolvimento na negociata da própria transferência para o Barcelona), transferissem seus prêmios para instituições de caridade e/ou ação social espalhadas pelos seus países de origem, acho que daria sim para a FIFA separar uma parte de seus lucros biliardários e conceder estes prêmios, como contrapartida social mesmo. Mas não há qualquer dúvida de que isso não tem a mínima importância. Por essas e outras que, mais do que a Bola de Ouro de Messi ou se Neymar vai ou não ganhar isso daqui a alguns anos (e é claro que ele vai, mas não sei se conseguirei comemorar tanto quanto a derrota de Messi para o chapeiro de lanchonete de Goiás e jogador do Vila Nova da 2ª divisão do campeonato brasileiro), nunca veremos ser discutida, sim, a bola de ferro nos pés de Blatter, Valcke, Platini (que fim triste para um dos maiores jogadores de todos os tempos). Ou seja: não se trata de futebol, de arte, de transformação social e nem mesmo de entretenimento – porque trata-se simplesmente de Bu$ine$$.

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E então chegamos ao Oscar. Novamente, a maioria de nós, como bem comportados cordeirinhos, convertidos em caricaturas tristes de Galvão Bueno torcendo por o “O Menino e o Mundo” (nada a discutir sobre o filme, que certamente honra nossa vocação de um dos países mais criativos e proeminentes em termos de cinema de animação em qualquer lugar do mundo), como se pudéssemos sonhar com alguma migalha caída do grande banquete. Eu fico pensando em hipocrisia. Os EUA comandaram a devassa na FIFA apenas porque não puderam participar da festa (leia-se Copa de 2018). Imagina se fossem investigar as transações milionárias no meio do cinema mais rico do mundo. Ou se caso se atrevessem a sondar o investimento pesado que a China faz atualmente em futebol e cinema (afinal, se vem dando certo há décadas, porque não copiar, não?). Mas não o fazem porque já não têm esse poder todo. E também porque não são burros: ainda podem estabelecer parceria comercial, potencializando seu vigor no processo geopolítico de transferência de poder para os asiáticos sem deixa-los abrir tanta vantagem. E então tome mais cerimônia do Oscar como grande recado norte-americano para o mundo de que “ainda podemos sonhar, lutar por um mundo melhor e corrigir todas as injustiças do mundo”. Pouco importa a esta altura do campeonato que seja a 2ª edição onde não há indicados negros para quaisquer das premiações (que também não conferem dinheiro aos seus vencedores – mas, neste caso, não precisa: a simples indicação já eleva o passe do jogador aqui, é ou não é?). Eu particularmente não chego ao ponto de ver todo o tipo de competição como uma verdadeira celebração da meritocracia, como algo que rouba a essência da fruição estética, quer seja a do cinema ou a do futebol. Mas então porque tudo isso incomoda a mim e a pessoas com o mesmo perfil ideológico que o meu: gente meio cascuda, que já não se ilude mais facilmente com nada e que abandonou a fé em qualquer tipo de instituição que não seja a do amor livre entre as pessoas e do sonho, e este sim possível, da comunhão, do ideário semi-utópico do aperfeiçoamento de nosso senso natural de comunidade?

 

leoEu já vibrei com cada prêmio da Meryl Streep e do Jack Nicholson, dos ótimos roteiros da indústria americana, da disputa acirrada entre performers de cada setor de produção de um filme (por sinal, foi assim que comecei a aprender que meu ator predileto ou aquele diretor que todos amam não seria nada sem um intenso e super tecnológico trabalho de equipe). Eu também acho que o Leo DiCaprio merece ganhar esse falo dourado tão cobiçado pelo mais machista e materialista dos países do globo. Eu continuo me divertindo à beça com Mad Max, Vingadores, cheguei até a ficar curioso e a ponto de vencer minha preguiça pra conferir o reinício da franquia de Star Wars, tudo porque os caras dominam como ninguém essa parada quase paleolítica da jornada do herói: a essência é essa, não? Homens das cavernas em volta do fogo ouvindo histórias de mais uma grande caçada. Ou no coliseu romano ou na ágora grega, sempre sedentos pelo trinfo do bem contra o mal. Mas quando é que passamos a nos contentar com tão pouco? Quando é que vamos parar de almejar algo que não é para nós. Esta é uma festa para ricos. Como aquelas promovidas por fundações milionárias bancadas por grandes corporações para comprarem um pouco de paz de espírito por tanta exploração e apego material. Quando poderemos nos regozijar novamente, apenas pela beleza em si, com o gol de Wendel Lira, com Paulo César Pereio mandando palavrões tão bem quanto empresta canalhice para qualquer personagem de um modo que nem Marlon Brando conseguiria? Eu particularmente acho a Andrea Horta muito mais sexy e deslumbrante do que a super-mais-sexy-de-todos-os-tempos-do-planeta Scarlett Johansson.

BhxWutnCEAAtEQ6Não se trata de desvalorizar o que há lá fora, fechando-se num nacionalismo míope perigosamente patriótico até. Mesmo porque, não há como: há tanta grana investida que acaba sendo impossível não reconhecer qualidade, mesmo que seja em aspectos meramente técnicos (e mesmo artísticos também, já que há também inúmeros artistas genuinamente talentosos em todos os campos do cinema e da arte em geral entre os compatriotas de Kevin Space e Robin Wright de House of Cards), em praticamente qualquer filme norte-americano.

Trata-se, na verdade, de apreciar as coisas em seu real tamanho. Trata-se de buscar respostas. De recuperar a capacidade de sonhar, buscando novos vislumbres. De romper paradigmas e ousar produzir tão bem ou melhor que os detentores do poder econômico, não porque podemos ser melhores (eu até acredito que podemos, mas não se trata aqui de iniciar novamente outra competição). Mas porque merecemos ter mais à mão nossa melhor representação de nós mesmos. E sobretudo porque não merecemos que nos roubem isso.

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Sobre o Autor

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Peterson Queiroz

Peterson Queiroz é cineasta, ator e dramaturgo. Estudante de filososia e amante de literatura beat.

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