Os outros evangelhos

Alguns evangelhos acrescentam informações importantes sobre o filho de Deus

Postado dia 19/02/2016 às 03:00 por Tiago Cordeiro

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Foto: Divulgação/Internet

Acima de tudo, a Bíblia é edição. Especialmente a versão cristã do livro. Os relatos do povo hebreu foram transformados em um Antigo Testamento, na comparação com o Novo Testamento trazido por Jesus. O Antigo termina com o livro de Malaquias e os versículos: “Mas, antes que chegue aquele grande e terrível dia, eu, o Deus Eterno, lhes enviarei o profeta Elias. Ele fará que pais e filhos façam as pazes para que eu não venha castigar o país e destruí-lo completamente”. O Novo começa com o Evangelho de Mateus, que situa Cristo como este profeta prometido. “Esta é a lista dos antepassados de Jesus Cristo, descendente de Davi, que era descendente de Abraão”, começa o livro, explicando que o personagem central da história está diretamente vinculado aos herois dos livros anteriores. É por ser descendente direto da tradição judaica que ele tem o direito de reformá-la.

Mas o formato final do Novo Testamento não surgiu imediatamente. Foi resultado de séculos de debates e de uma triagem violenta: de mais de 50 livros sobre a vida de Jesus, escritos ao longo dos primeiros 400 anos da era cristã, só quatro foram selecionados. São os evangelhos conhecidos como apostólicos.

O primeiro a defender que Marcos, Mateus, Lucas e João representam o que havia de mais completo e confiável a respeito de Jesus foi o bispo Irineu, de Lyon. Sua tese foi reforçada pelos concílios que se seguiram, até que, no século 5, o papa Inocêncio I consolidou a lista oficial e condenou severamente os demais evangelhos, conhecidos como apócrifos. Por quê?

O que aconteceu é que gerações sucessivas de fieis já usavam este conjunto de quatro obras, coerentes entre si, complementares e focadas em detalhar os ensinamentos do mestre. E, é claro, os textos condiziam com tudo o que um grupo de teólogos acreditava a respeito de questões cruciais como a Santíssima Trindade, a divindade de Cristo e os pré-requisitos necessários para a salvação da alma.

Outros grupos tinham outras versões: alguns negavam que Cristo tivesse sido um homem de carne e osso, e por isso não poderia ter morrido em uma cruz. Outros diziam que ele nasceu uma pessoa comum e só foi adotado por Deus depois de batizado. Os gnósticos afirmavam que Cristo era simultaneamente masculino e feminino. Mas os grupos que defendiam essas ideias eram minoritários, ou se mostraram incapazes de vencer os acirrados debates daqueles tempos de formação do cristianismo.

Isso não significa que os evangelhos apócrifos não tenham seu valor. São livros contam casos, lições e lendas interessantíssimos a respeito de Cristo. Começando por sua infância. Jesus menino teria andado sobre um raio de luz, desafiado os pais, destratado os professores e até mesmo matado um colega! Depois de tomar um soco do garoto, Jesus teria amaldiçoado o menino. Os pais foram tirar satisfação com José e Maria, e Jesus cegou os dois.

Os apócrifos continuam provocando debates. Recentemente, dois textos trouxeram novas polêmicas gigantescas. O primeiro, um pedaço de papel menor do que um cartão de visitas, batizado de Evangelho da Esposa comprovaria que o Filho do Homem foi casado. O texto, extremamente fragmentado, diz o seguinte:

“… não [para] mim. Minha mãe me deu a vi[da]…”

“Os discípulos disseram a Jesus…”

“… nega. Maria [não?] é digna disso…”

“… Jesus lhes disse: ‘Minha esposa…’”

“… ela está apta para ser minha discípula…”

“… Que as pessoas más cresçam em número…”

“… Quanto a mim, eu moro com ela para…”

“… uma imagem…”

Por mais difícil que seja a interpretação, o trecho “Minha esposa” não deixa margem para dúvidas. Além disso, outros textos apócrifos dão grande importância para Madalena, que entenderia Cristo melhor do que os outros seguidores e tinha discussões homéricas com Pedro, o primeiro papa. O Evangelho de Filipe, do século 3, menciona beijos constantes entre Jesus e Madalena.

A outra polêmica é mais vazia: o Evangelho de Judas é muito diferente do que parecia quando o texto foi divulgado, em 2006. Em primeiro lugar, não é um texto creditado a Judas, mas um diálogo fictício entre Jesus e seu discípulo. Mas, principalmente, o evangelho não isenta Judas. Um erro de tradução, provocado pela pressa em divulgar o relato, fez Cristo dizer que Judas fora “separado para uma santa geração”. Quando o texto oficinal diz, na verdade, que Judas fora “separado de uma santa geração”. Aqui, fez-se muito barulho por nada.

O norte da África e o Oriente Médio mantêm um mercado negro de papiros e peças de riqueza inimaginável. Outros evangelhos apócrifos serão revelados, outras polêmicas vão se desenrolar. E assim a figura de Jesus continua fascinando o Ocidente.

 

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Sobre o Autor

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Tiago Cordeiro

Pós graduado em Literatura Brasileira. Trabalhou pelas revistas Veja, Época, Galileu, apaixonado pela área de tecnologia e religião.

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