Os leões e a jararaca

A semana em curso é decisiva; ameaça de violência é uma estratégia reptiliana para afastar o povo das ruas

Postado dia 07/03/2016 às 10:26 por Janaína Leite

Foto: Divulgação/Internet

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Em 2004, um ano depois que Luis Inácio Lula da Silva ganhou um gabinete no Planalto pela primeira vez, jornais e revistas estampavam em suas capas matérias de tom elogioso à Polícia Federal. Sob o comando e a influência direta do então ministro da Justiça, Marcio Thomaz Bastos, a instituição começava uma escalada que aumentaria vertiginosamente o número das operações, atingindo ricos e famosos. Naqueles anos, grampos telefônicos, pedidos de prisão preventiva e a exposição midiática de investigados algemados tornaram-se arroz com feijão. Eram festejados pela esquerda: colocar gente com dinheiro na cadeia era a prova de que o país, sob o comando do PT, finalmente progredira.

A verdade, porém, era um pouco mais complicada. A maioria dessas operações espetaculosas servia para destruir a imagem pública de concorrentes dos empresários apadrinhados do PT, favorecendo estes últimos em situações de disputa comercial. Envenenamento puro. Servia ainda para obrigar esses acusados a contratar a peso de ouro advogados indicados por baixo dos panos pelo próprio ministro da Justiça.

Quando jornalistas deram-se conta do que estava acontecendo e passaram a escrever sobre o assunto, uma banda da polícia foi usada para destruir-lhes a reputação, realizando, inclusive, pedidos de prisão sem embasamento. A Abin, o serviço de inteligência do país, e arapongas particulares foram recrutados para realizar ações ilegais. A produção de dossiês caminhava em paralelo ao enriquecimento pessoal de certos agentes públicos, que não se constrangiam em vir a público dizer que suas iniciativas atendiam a interesses do Planalto.

De novo: os exageros e os desrespeitos à lei e aos direitos individuais eram aplaudidos e comemorados pela militância e adjacências. Prender os ricos espalhava a sensação de que estava sendo feita justiça social — pouco importava que Justiça e justiça social não são sinônimos. Blogs e colunistas “chapa-branca” ofertavam as vísceras dos que incomodavam em bandejas de prata pagas com dinheiro público. E Lula, serpentino, aparecia em horário nobre comemorando as prisões e as algemas de ricos que atrapalhavam os negócios e os amigos.

Óbvio que a motivação sombria e as práticas escusas eram incapazes de sustentar conclusões jurídicas por muito tempo. A despeito de a militância desfraldar o número de operações como uma bandeira inquestionável, sinal da magnanimidade do governo, os inquéritos cheios de falhas e crimes eram derrubados nos tribunais superiores. A realidade ceifava as mentiras sem dó, reduzindo-as ao zero de seu valor de face.

Isto dito e sublinhado, nos dias que correm em 2016 é interessante observar duas coisas. A primeira é como o discurso esquerdista pró-polícia transformou-se em diatribe depois do mensalão e do petrolão. Práticas muito mais brandas do que aquelas elogiadas quando a adoção era contra os inimigos passaram a ser um sinal de que o Brasil vive na iminência de tornar-se uma ditadura. Uma ironia que não escapa aos mais atentos.

A segunda ponderação é o incrível avanço das técnicas de investigação obtido pelos representantes da Justiça não submetidos a desvios. Ao contrário de suas antecessoras tortas, as atuais operações fincam os pés em provas materiais e confissões muito difíceis de serem refutadas. A Lava Jato é o melhor exemplo disso. Da tipificação dos crimes à colaboração internacional, da linha de raciocínio limpa às exigências para a delação, a força-tarefa tem conseguido provar suas conclusões diante de ministros indicados pelo próprio governo que investiga.

Ser herói saltando na jugular dos inimigos de quem ocupa o poder é fácil, investir diretamente contra esse mesmo poder exige coragem e responsabilidade nada desprezíveis.

Não se trata de fazer a apologia de policiais, procuradores e juízes, como costumavam os apoiadores do governo quando as operações alimentavam suas ideologias ou seus bolsos. O endeusamento de um funcionário público que apenas cumpre com suas obrigações é o melhor modo de derrubar esse mesmo funcionário, que passa a ter de lidar não apenas com as suas tarefas, mas também com a expectativa do público. Trata-se, isso sim, de reconhecer que dentro de um Estado corrupto e vilipendiado ainda há pessoas dispostas a fazer cumprir a lei e isso é positivo para a sociedade como um todo.

O mais difícil para esses agentes será manter o equilíbrio com todos os holofotes voltados para si, não sobrevalorizar a atenção leonina que despertaram para o próprio comportamento. As ruas estão em polvorosa; a população enforcada por uma economia em recessão e pela decepção com seus representantes quer cabeças para o sacrifício. Permanecer em um caminho estritamente legal, afastando a sedução midiática e a tentação do viés político é imprescindível para evitar colocar água na fervura de todo o trabalho feito até aqui. Interferir diretamente em quem pode ou não disputar as eleições, por exemplo, é um passo temerário, que precisa ser muito bem avaliado.

No mais, juristas entendem de decisões jurídicas. A turba não tem a menor ideia do que fala. Reproduzirá as afirmações que melhor se coadunarem com suas convicções pessoais. Transformar um depoimento em prisão política (sob um governo do partido que é o mesmo do depoente e diante de uma presidente que usa avião oficial para prestigiar o conduzido) é exemplo dessas falas risíveis que ganham espaço nas cabeças que defendem seus ídolos a qualquer custo.

A semana em curso é decisiva para ver como comportar-se-á a maioria. O “modus operandi” reptiliano do governo ficou claro no discurso levado adiante por Lula na última sexta-feira: o PT ameaça levar às ruas a militância disposta a bater. Em 2013, o aceno com violência, a partir do uso de “black blocs” deu certo. A interrogação é se agora será suficiente mais uma vez para trancar os insatisfeitos em casa.

Leões precisarão agir com cuidado para escaparem da cegueira causada pela peçonha das serpentes.

No meio de tudo, uma presidente que não governa e ouve de orelha baixa os gritos de seu antecessor, uma oposição com medo de cair nas mesmas redes que os governistas e um país paralisado. A solução para desatar esse nó muito provavelmente passa pelo afastamento do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, ou da celeridade do Tribunal Superior Eleitoral. Como? É esperar para ver, torcendo (e atuando para) que a democracia e as instituições saiam dessa consolidadas.

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Sobre o Autor

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Janaína Leite

Jornalista com passagem em algumas das maiores redações do país. Escreve contos e poesias e já brincou de fazer música.

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