Os bancos e os juros

Pratica-se hoje no país a maior taxa de juros do mundo. Isso explica, em parte, a razão dos grandes lucros bancários

Postado dia 15/03/2017 às 08:00 por Luiz Edmundo

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Foto: Reprodução/Internet

Até 1964, no Brasil, emprestar dinheiro somente era permito a taxas menores que 12%. Era a chamada “Lei da Usura”. O controle da taxa de juros foi um procedimento normal na católica cultura brasileira. Além disso, a associação da atividade financeira com o pecado da usura é antiga: na Idade Média, os tribunais da Inquisição perseguiam aqueles que emprestavam dinheiro a juros.

Assim controlado, o sistema financeiro não se expandia a ponto de dar sustentação à produção industrial de automóveis, eletrodomésticos e demais bens que necessitam de uma estrutura capaz de dar suporte a uma parcela significativa da demanda, que não dispõe de recursos para o pagamento à vista.

Para chegar ao nível atual de liberdade na formação dos juros, os bancos passaram por várias fases em seu desenvolvimento. Em sua formação embrionária, o cambista na Idade Média, geralmente judeu, exercia a troca de moeda de nacionalidades diversas, em uma época que a Europa era ainda mais dividida em estados nacionais do que é hoje, com uma grande variedade de moeda de distintas nacionalidades.

Hoje a maior parte dos pagamentos efetuados no comércio é realizada através do sistema financeiro. A interrupção da atividade dos bancos poderia detonar uma crise em todo o sistema econômico, afetando o comércio nacional e mundial, além da renda das famílias. Enfim, seria um caos econômico.

De uma atividade considerada ilegal, emprestar dinheiro a juros torna-se hoje no Brasil a atividade mais bem remunerada do mercado, isso se tomarmos como referência a lucratividade dos bancos em 2015.

Banco Lucro em 2015
Itaú Unibanco R$ 23,35 bilhões
Bradesco R$ 17,19 bilhões
Banco do Brasil R$ 14,4 bilhões
Caixa R$  7,2 bilhões
Santander R$  6,624 bilhões
Banrisul R$  848,8 milhões
Paraná Banco R$  141,9 milhões

http://www.feebpr.org.br/lucroban.htm

Pratica-se hoje no país a maior taxa de juros do mundo. Isso explica, em parte, a razão dos grandes lucros bancários. Porém, outro elemento deve ser considerado: a ausência de competição entre os bancos. Nos Estados Unidos, por exemplo, há mais de 5.200 bancos comerciais competindo entre si pelo consumidor de crédito. No Brasil, há menos de uma centena de empresas bancárias.

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Foto: Reprodução

Desse conjunto, apenas meia dúzia de grandes bancos detém o controle da maior parte do crédito disponível aos consumidores. Nesse caso, a atividade bancária poderia apresentar taxas de juros menores à população, se o controle governamental possibilitasse uma maior competitividade entre os bancos.

Diante de juros tão altos para o público consumidor de crédito, a atividade dos bancos apresenta a seguinte ambiguidade: se, por um lado, existe a possibilidade de endividamento e a eventual ocorrência de insolvência – ou seja, o dinheiro emprestado não poder se ressarcido ao credor. Com isso, então, surgem ocorrências de eventos dramáticos nas vidas das pessoas, como falências, expropriações de bens e despejos – enfim o empobrecimento que, para muitas famílias, leva a verdadeiras tragédias.

Por outro lado, a disponibilidade de crédito viabiliza aqueles projetos de longo prazo que o empreendedor não poderia realizar sem o aporte financeiro, como a construções de prédios, usinas e estradas etc. Permite também a formação de indústrias, como a automobilística, cujos compradores dependem do financiamento bancário.

Essa ambiguidade demonstra que o crédito bancário é como uma droga que, usada corretamente, pode servir como remédio. Mas, com a dosagem errada, pode tornar-se um veneno terrível.

 

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Sobre o Autor

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Luiz Edmundo

Economista e doutor em engenharia da produção, dedicam-se ao ensino superior como professor.

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