Observadores de estrelas

Alguns anos atrás, eu tive o prazer de fazer amizade com um rapaz norte americano que me contou boas histórias e me ensinou um pouco de sua cultura, seu nome é Tony

Postado dia 28/10/2015 às 11:14 por Sociedade Pública

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Tony é norte americano, mas de descendência chinesa, então enquanto ele ficou hospedado comigo, tive a oportunidade de aprende um tanto de coisas interessantes, tanto sobre o estilo de vida dos jovens americanos, como também sobre o estilo de vida chinês, inclusive, sobre algumas experiências que ele viveu pessoalmente.

Ele me contou, entre algumas de suas boas histórias, que ficou dez anos morando no Vietnã, onde ele trabalhava com comércio, empreendendo com brinquedos simples para as crianças locais. Enquanto Tony estava lá, ele presenciou vários casos de crianças passando fome, devido a isso, ele nunca mais conseguiu desperdiçar comida.

Houve uma situação em minha casa, quando estávamos em um grupo de pessoas, aproximadamente sete pessoas, incluindo o Tony, e todos resolveram pedir Yakissoba por telefone (menos eu, nessa época eu ainda não gostava de comida oriental). Bom, nessa noite, eu me lembro de todos comendo, e determinada hora, todos ficaram satisfeitos e saíram da mesa, menos o Tony, ele continuou lá comendo, e inacreditavelmente, começou a comer a sobra dos outros. As pessoas queriam disfarçar que estavam impressionadas, mas não conseguiram, acabaram rindo e demonstrando que achavam tudo aquilo muito estranho. Tony percebeu, e eu estava na mesa fazendo companhia pra ele, e antes que eu perguntasse, ele me disse: “No Vietnã, onde morei um bom tempo, eu vi criança passar fome, chorar de fome, e eu vi a pobreza de perto, a partir dessa experiência, eu acho um crime em países ricos como Brasil e EUA, as pessoas desperdiçarem comida, pois não sabem a falta que isso faz para algumas pessoas ao redor do mundo, eles podem estar achando isso engraçado, mas eu na verdade, sinto vergonha desse tipo de situação. Eu não me sinto ridículo por comer sobra, pois isso é o que as pessoas devem fazer quando tem consciência do valor do alimento”. Fiquei sem palavras, quando as pessoas perguntaram pra mim o que ele tinha dito, eu respondi exatamente o que ele havia me falado… Todos ficaram quietos.

Essa foi uma das coisas que aprendi com Tony e que carrego comigo, e sempre que estou prestes a desperdiçar qualquer tipo de alimento, lembro disso, que é pra doer mesmo… Contei essa pequena história, para nos conscientizarmos. A humildade começa quando somos gratos a Deus por termos o que comer, e que nosso país, com todas as dificuldades, é rico em alimentos.

Mas o nome do texto não é “o Gringo que comia sobras”, e sim, observadores de estrelas, pois eu lembro de um dia, quando o Tony me contou uma história bem legal: estávamos na praia a noite, na cobertura de um prédio, conversando, olhando o céu e o mar… O chinês americano quietou-se por um tempo, ficou olhando fixamente para uma estrela no céu, eu fiquei quieto também, até que ele rompeu o silêncio e me disse:

– Hey Rafael, aquela estrela brilha forte né?

– Qual? – perguntei distraído.

– Aquela _ apontou ele para uma estrela que brilhava realmente forte.

– Estou vendo! Você sabe que estrela é essa?

– Não, não sei… Mas hoje, mas se ela fosse minha estrela, e se eu fosse tomar uma decisão, ela estaria a meu favor!

– Como assim? Sua estrela? Que decisão? – perguntei curioso.

Então ele me contou que na antiga China, quando um imperador tinha que tomar uma decisão importante, geralmente voltada para decisões de guerra, ele consultava uma estrela que desde criança, ele tomava como sua estrela guia. No caso de ter que montar um ataque com sua tropa, ele consultava sua estrela guia, e segundo meu amigo, se a estrela brilhasse forte, como aquela estrela que ele apontou brilhava intensamente, a decisão do imperador era abençoada e geralmente ele obtinha sucesso em seu plano, se a estrela estivesse fraca, ele fracassava.

Essa foi outra história que guardei comigo, e quando olho pro céu, procuro minha estrela, ela está no centro do Cinturão de Órion, e como respeito a natureza, tendo me conectar mais com o universo, o maior sábio que já conheci.

Tony voltou para Mogi das Cruzes ano passado, e ele ainda continua comendo tudo que se coloca no prato, ainda não tolera desperdícios, e costuma viajar pelo mundo, como uma pessoa livre…

E cá estou eu, esperando minha estrela brilhar cada vez mais forte, tomando minhas decisões, entre erros e acertos, esperando sempre realizar meus sonhos, e buscando cada vez mais conhecimento, liberdade e bons amigos pelo meu caminho.

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