O valor do seu sapato

Ainda hoje, a falsa igualdade entre raças se manifesta no direito enganador de comprar sapatos, um bem de consumo incômodo ao qual os escravos não tinham acesso

Postado dia 20/11/2015 às 00:00 por Wilson ADM

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Dia desses, um amigo, meio devagar, meio relaxado com as vestes, e completo falador, me contou sobre um episódio que lhe aconteceu em um curso de altas mensalidades. Uma colega de classe, aproveitando os momentos antes da aula começar, o chamou ao pé do ouvido.

Ela, assim como ele, era uma exceção de regra no ambiente: pele amorenada – o que o IBGE classificaria como parda – cabelo liso artificialmente. Dele, a diferença estava na preocupação com os trajes. Bem vestida.

Serenamente lhe perguntou algo como o quanto calçava. Ele, sem entender, pediu para que repetisse a pergunta.

– Que número você calça?

Automaticamente, ele respondeu. E só então, começou a se questionar qual seria o motivo da pergunta. Meio segundo depois ela, com uma expressão de “não foi desta vez”, explicou que seu marido tinha alguns sapatos e tênis sobrando, mas que eram de número inferior ao seu. “Uma pena”.

Com certa consternação ele agradeceu. E só então, tentando desviar o olhar direto, encontrou em seus pés um par de chinelos. E isso arremeteu ao dia anterior de curso, quando tinha ido com um tênis rasgado, remendado com fitas adesivas.

Ela ainda insistia. Talvez o filho dela tivesse algo sobrando.

Meu amigo meio sem saber o que fazer, dispensou a preocupação, tentando explicar que não precisava ter esse trabalho. E a aula começou.

De volta ao presente fui remetida a um passado mais distante e mais presente: Jean-Baptiste Debret. Ou só Debret para os mais íntimos. Não me refiro ao que está em suas representações do Brasil colônia: as paisagens verdes, o castigo em escravos negros, os métodos de caça dos indígenas, ou os hábitos dos portugueses e seus descendentes. Refiro-me ao que não está lá: os sapatos.

Mais precisamente, os sapatos nos pés de pessoas que possuem a cor de pele de meu amigo e de sua colega.

Algum tempo depois que Debret se foi, contam as fadas, que uma princesa graciosa e bondosa libertou nossos escravos. Esses, quando arrumavam algum dinheiro compravam uma das suas “maiores carências”, os tais sapatos.

O uso dos sapatos pelos escravos alforriados era significado de uma nova condição social. Notório, assim como nas obras de Debret, que essa moda configurava para muitos deles um prestígio e, de certa forma, uma europeirização – mesmo que devido a castigos ou mazelas sofridas, não possuíssem os dois pés para ocupar o utensílio. O importante não era comprar sapatos, mas, ser, assim como os colonizadores, livre para comprar sapatos.

Porém, para tantos outros, isso era um fardo, talvez pelo peso, incomodo, dor física ou a dor da desculturalização. Nesse caso, muitos os carregavam em suas mãos ou ombros. Mas, ainda assim, à mostra para todos que, sim, não pertenciam mais a aos “desalmados ou os com dono”.

Ainda hoje, de forma consciente ou não, nos colocamos a mostrar que somos – ou queremos ser –livres como os brancos. E, livres, somos livres para comprarmos sapatos. Nos igualamos, nos “embranquecemos”, através das roupas, cabelos e, claro, sapatos, pois é dessa forma que devemos nos comportar nos espaços com nossos iguais e livres: calçados.

Essa forma de igualdade é tão confortável quanto um sapato alto de numeração inferior. Incomoda. Não permite andar na velocidade que gostaríamos e nem mesmo saltar por esses conflitos sociais não declarados.

Dessa forma, nos cabe escolher entre caminhar nesse passo desconfortável e tropeçando ou assim como meu amigo meio relaxado, ir meio devagar, mas falando muito para construir uma sociedade em que não nos preocupemos em calçar chinelos, sapatos rasgados, ou até mesmo ficar com os pés descalços.

 

12273171_10207958911559014_1877030718_nAutor: Luciana de Menezes Silva
Profissão: Farmaceutica clínica
Cidade: Poá
Luciana é uma amante da alma e da arte

 

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