O vácuo político e o risco dos gorilas

Há no Brasil um buraco na representação que estimula o confronto e a criação de bodes expiatórios; os Três Poderes estão desconectados da violência que aumenta entre governistas e opositores

Postado dia 30/10/2015 às 09:30 por Janaína Leite

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Francisco de Goya, Detalhe de “Saturno devorando a su hijo”, (1819-1823).

Era um tempo de antes, 1348, quando os normais temiam a Deus e queimavam as feiticeiras. Milagres surgiam de forma insuspeita, assim como as maldições. De modo que os europeus rapidamente viram o sobrenatural quando suas axilas e virilhas enegreceram, inchadas e apodrecidas, sinal de morte certa trazida no bojo da peste. Tamanho horror só poderia ser causado por alguém recoberto de vilania. Os diferentes. Os judeus. Enquanto inocentes eram caçados e imolados, vítimas da dificuldade que os homens comuns às vezes têm de serem dignos da alcunha “sapiens”, os ratos, verdadeiros transmissores da doença, continuaram multiplicando-se.

“Quando a realidade é louca, qualquer explicação serve para tranquilizar”, resume o psiquiatra Boris Cyrulnik, em sua “Autobiografia de Um Espantalho”, ele próprio sobrevivente de outra perseguição, a nazista. Segundo o estudioso, o delírio coletivo tem uma lógica intrínseca que, mesmo não passando de fantasia, devolve coerência ao mundo dos acusadores e faz renascer neles a esperança de superar suas tragédias.

Nos tempos de agora, em frente ao Congresso, representantes do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto), favoráveis ao governo, espevitam-se em danças provocativas, trocam ofensas e agridem fisicamente manifestantes de oposição ligados ao MBL (Movimento Brasil Livre). Na capital mineira, um grupo desrespeita o velório do ex-senador José Eduardo Dutra: berra palavras de ordem e distribui folhetos advogando “morte aos petistas”. Na Avenida Paulista, uma senhorinha de olhos injetados esmurra um rapaz em plena livraria, aos gritos, depois de acossar o secretário municipal de Direitos Humanos de São Paulo, Eduardo Suplicy. “Aqui ‘cês tão na terra de quem trabalha. Aqui é trabalho. Aqui é terra dos ‘coxinha’!”, sentencia ela, transtornada. Como se “coxinha” fosse sinônimo de resistência, se preciso, no muque. Outra mulher, “professora e candidata”, “partido comunista brasileiro”, enrolada em uma echarpe de onça e escondida atrás de enormes óculos escuros, arrebenta os pulmões enquanto persegue jovens tucanos no pátio da Universidade de Brasília. “Vem, coisinha feia! Vem, loirinha de merda! Loirinha de merda! Deve ser vagabunda!”, vocifera a “esquerdista”. Como se alinhar o pensamento à esquerda implicasse tornar-se uma doidivanas que constrange desconhecidos.

Quem é essa gente?!, perguntam, horrorizados, os que ainda trafegam em razoável sanidade.

Brasileiros, ora. Patrícios normais em quase todas as áreas de suas vidas. Em relação à política e ao Estado, no entanto, mostram-se ansiosos, cansados, doídos, com o sangue coalhado de indignação e ignorância. Não se sentem ouvidos, portanto, gritam. Não se sentem respeitados, portanto, desrespeitam. Não se sentem amados, portanto, odeiam. Quem? Os diferentes. São os vilões. Os “judeus”. Pararam de infundir qualquer empatia.

A rejeição a certas práticas cresceu nesses cidadãos como um abscesso. Transformou-se em raiva contra um agrupamento específico de pessoas — uns atribuem os problemas ao PT, outros jogam a responsabilidade no colo da “elite golpista”. A intimidação virou tática e meio de catarse.

É, talvez, um comportamento atávico. “Nós costumeiramente desumanizamos os nossos inimigos, como fazem os chimpanzés. Tratamos [esses outros] como se fossem menos do que os da nossa espécie”, lembra Frans de Waal, especialista em primatas, no livro “Our Inner Ape”.

Os furiosos surgem com a imagem magnificada diante do país, lançando perdigotos, para que seja impossível aos demais manter-se sobre o conforto do muro. Seu recado de urgência, todavia, ainda não foi devidamente compreendido. Muitos creem que os discursos inflamados e as investidas físicas não passam de jogo de cena de meia-dúzia para vitimizar um ou outro lado. A senhora “coxinha”, por exemplo, é filiada ao PSOL, partido da base do PT. Nas redes sociais dizem também que ela trabalhou na campanha de Aécio Neves. Pode ser, ou não; pé e cabeça estão fora de lugar atualmente; impossível obter certezas sem apurar a verdade.

Eis a verdadeira raiz do perigo. Verificar os fatos demora. Em tempos de internet, a percepção chega a ser mais importante que o ocorrido. Até que alhos e bugalhos sejam separados, outros descontentes identificar-se-ão com o modelo violento, tendendo a considerá-lo válido, quando não imitá-lo.

Há no Brasil um vácuo de representação que estimula o confronto e a criação de bodes expiatórios. A baderna e a leniência diante da corrupção nos Três Poderes atingem níveis que desafiam qualquer imaginação. Brasília tornou-se um lugar tão envenenado que os grandes da República, aparentemente, passaram a adorar o cheiro de napalm pela manhã.

Desconectados de qualquer realidade que não a manutenção dos próprios cargos, políticos de todos os partidos parecem indiferentes a uma economia tísica, com um rombo nas contas públicas que pode chegar a R$ 110 bilhões, e taxas de desemprego e inflação anuais quase na casa dos 10%. Esqueceram-se que a confiança pública depende da estabilidade da moeda, de impostos racionais e da oferta de vagas de trabalho.

A cúpula dos Poderes parece apostar que os encolerizados no máximo irão voltar-se uns contra os outros, jamais atacando os que exercem o poder. Como os europeus da Baixa Idade Média, os brasileiros investiriam sobre os seus judeus; os ratos continuariam livres.

Brincam os senhores do Estado com o imponderável.

Psiquiatria e psicologia social alertam: em seres sociáveis, comportamentos “viralizam”. A civilidade acaba onde começa a insegurança excessiva. A justiça com as próprias mãos acontece quando a justiça institucional demora a responder. A desfaçatez continuada provoca os instintos mais primitivos. E o uso da força bruta para conter o desagrado da população costuma dar errado. Basta lembrar que em 1964 a Marcha dos Cem Mil aconteceu depois da morte do estudante Edson Luís e que em 2013 foi a agressão a uma repórter da Folha de S.Paulo que engrossou as manifestações.

O custo de consentir à existência de perversos conjunturais costuma ser alto para seus governantes, mostra a história. A insatisfação do povo precisa ser direcionada o mais rápido para a veia certa — protestos organizados, mantendo a distância física entre governistas e opositores. Antes que seja tarde e o controle das carcaças pacíficas seja tomado pelos gorilas internos. Um país dos macacos é algo que, imagina-se, ninguém deseja.

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Sobre o Autor

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Janaína Leite

Jornalista com passagem em algumas das maiores redações do país. Escreve contos e poesias e já brincou de fazer música.

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