O último dos marcianos

Essa fora a grande luta de Marc. Passara toda a sua vida batalhando pela implantação de um processo de desenvolvimento sustentável

Postado dia 16/12/2015 às 00:00 por Renato Faury

terra

MARC viu o seu mundo ruir por conta de muita conversa e pouca ação para salvá-lo. Ações simples que poderiam ser feitas para a preservação do ambiente não foram incentivadas pelos “vendilhões” (nome dado aos representantes da oligarquia que governava Marte), não foram feitas.

Companheirismo, amizade, amor; civismo eram sentimentos desconhecidos naquele planeta. Seus técnicos preferiam lucrar em tudo, vendendo projetos, enterrando os resíduos em imensos “lixões”, cuja manutenção só justificava o lucro que davam. No entanto, bastaria uma pequena mudança de comportamento da população, no sentido de reduzir as emissões de gases poluentes e substâncias responsáveis pelas mudanças climáticas no planeta; mas essa oportunidade foi perdida. Agora, pensava Marc, era tarde demais.

Essa fora a grande luta de Marc. Passara toda a sua vida batalhando pela implantação de um processo de desenvolvimento sustentável, baseado no princípio da redução do desperdício de água, energia e alimentos; sabia que o planeta não sobreviveria sem isso. Havia dezenas de planos para gerenciar adequadamente os resíduos, reduzi-los, reutilizá-los, reciclá-los. Se esforçara tanto para ensinar a população a não consumir produtos que gerassem impactos socioambientais irrecuperáveis….

No entanto, para sua tristeza e decepção, nem a administração pública quis dar ouvidos às suas propostas. Descuidou da responsabilidade socioambiental nas contratações, nas compras e na prestação dos serviços. Não deu prioridade aos critérios ambientais, mas somente valorizou os econômicos, preferindo os projetos de custo mais baixo, sem se preocupar com as agressões ao meio ambiente. Principalmente nos projetos de engenharia, o descaso com o meio ambiente foi simplesmente criminoso.

E agora a natureza estava cobrando com fúria as agressões sofridas. Nos últimos anos, dezenas de catástrofes naturais ceifaram a vida de milhões de pessoas. Tsunamis, secas prolongadas, chuvas torrenciais, frio e calor desproporcionais estavam transformando todo o ambiente do planeta. A poluição, as doenças consequentes do acúmulo de resíduos nas grandes cidades, a diminuição das florestas, tudo isso fez com que a taxa de imunidade de todas as espécies vivas ? e principalmente dos seres humanos ? contra as pragas e as doenças caísse a um nível insuportável. E assim, as epidemias começaram a dizimar a população.

A poluição provocada pelos veículos causou milhões de mortes nas grandes cidades, em número muito maior até que os mortos em decorrência de acidentes de trânsito. As pessoas mais vulneráveis a contrair doenças relacionadas com a alta concentração de poluição como crianças, gestantes, pessoas com dietas inadequadas e os portadores de doenças crônicas como diabetes, asma, pressão alta, começaram a morrer em grande escala.

Logo o custo com o tratamento de doenças provocadas pela poluição ambiental aumentou tanto que passou a consumir praticamente todas as rendas da economia marciana. Em decorrência disso, toda a sociedade do planeta entrou em colapso.

Marc sempre disse que a agricultura era extremamente vulnerável às mudanças climáticas e na medida em que não eram adotadas práticas agrícolas sustentáveis nas atividades de produção, distribuição e comercialização; ela mesma passava a ser um fator de mudança climática importante.

Pois quando se destruíam florestas inteiras, que hospedavam ecossistemas necessários à manutenção da qualidade ambiental para se plantarem monoculturas cujo único propósito era a obtenção do lucro, o planeta estava praticando o próprio suicídio. Marc cansou de avisar que as formas de produção, planejadas somente para atender demandas de consumo, incentivadas por uma publicidade desatenta às adaptações a um novo ambiente, estavam indicando que os limites de utilização dos recursos naturais estavam no fim.

Então vieram as crises: econômica, política e social. Mas mesmo essas não foram suficientes para provocar a mudança de um sistema que não estava dando certo. Pois o consumo voraz, o desperdício e o egoísmo das pessoas não davam campo para novas atitudes. Na esteira desse desvario veio o aumento do estresse social, a violência, a corrupção, a fome, a sede, a miséria geral e todos os indicadores de qualidade da vida caíram praticamente a zero. Foi o início do fim.

Mas mesmo às portas da morte, os marcianos nunca estiveram dispostos a sacrificar o luxo e substituir suas mercadorias por outras de menor agressividade ao ambiente. Não procuraram racionalizar o uso da água, pensando que ela jamais acabaria; não desenvolveram formas de produção de energia mais barata, a partir de recursos renováveis; consumiram suas florestas nativas sem renová-las; usaram produtos que continham matérias primas tóxicas ou nocivas à saúde; jamais recolheram pilhas, baterias e lâmpadas para reciclagem; achavam que elas se diluiriam no ambiente naturalmente.

As matérias primas foram ficando cada vez mais escassas, e mesmo assim os marcianos não combateram o desperdício; nem desenvolveram um sistema de reciclagem eficiente.

Marc deu milhares de palestras, escreveu centenas de artigos e vários livros pedindo para as pessoas, apagar as luzes quando trocassem de ambiente; tirassem os aparelhos da tomada quando não estivessem sendo usados; utilizassem papel reciclado; usassem pilhas recarregáveis, em vez de unidades descartáveis. Deu centenas de conselhos a esse respeito, mas tudo foi em vão.

A seca que transformou Marte em um deserto poderia ter sido evitada, pensava Marc, se os responsáveis pela administração pública tivessem seguido seus conselhos. Quantas vezes ele não advertiu que a água potável estava acabando, que os lençóis freáticos estavam sendo contaminados, que a poluição ambiental estava comprometendo os ecossistemas, que o regime de chuvas estava diminuindo e que era preciso poupar água e aprender a usá-la de forma responsável.

Mas tudo foi em vão. Agora, Marc, lá da sua cabana na montanha, único lugar do planeta onde a natureza ainda resistia, em seus últimos suspiros de vida, olhava para o céu e via a última onda de calor se aproximando do planeta. Dentro de poucos dias Marte seria uma imensa bola alaranjada, deserta e sem vida, a girar no espaço. Marte logo será um planeta morto.

Mas essa não é a principal preocupação de Marc. Ele sabe que alguns homens desenvolveram tecnologia suficiente para escapar deste planeta. E neste justo momento eles estão voando em suas espaçonaves em direção ao terceiro planeta do sistema solar. Vão plantar lá suas colônias. E fazer lá o mesmo que fizeram com Marte. E depois, talvez, com os demais planetas do sistema solar. O último pensamento de Marc é um pedido a Deus para que Ele faça com que os homens aprendam com suas experiências. E que deixem de ser os vermes de si próprios.

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Sobre o Autor

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Renato Faury

Engenheiro civil pós graduado em Engenharia Ecológica, e Assessor do meio ambiente do LIONS Internacional Governadoria LC-5

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