O tributo progressivo de Steven Wilson

Com The Raven That Refused to Sing (And Other Stories) músico inglês prestava grande homenagem a seus ídolos

Postado dia 30/03/2016 às 08:00 por Guillermo Gumucio

Foto: Reprodução/Internet

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Há três anos, ficava realmente latente a impressão de que Steven Wilson resolvera tirar férias prolongadas do Porcupine Tree e investir pesado na carreira solo. Segundo disco sob a própria assinatura em dois anos, The Raven That Refused to Sing (And Other Stories) (Kscope, 2013) é um compêndio de contos musicais que resgatam o legado de músicos cujas mentes criativas formaram o que se convencionou chamar de “rock progressivo” e “art rock”.

O líder do Porcupine Tree decide abandonar o experimentalismo e render homenagens claras desde a primeira nota de baixo calcado em Geddy Lee que abre o disco até o último segundo melancólico da faixa-título e encerramento. No recheio, frases de piano singelas, a cadência floydana para resolver canções, as levadas do Chapman stick que fizeram a fama de Tony Levin (“The Holy Drinker”), e a tragédia musical do Genesis na sua Broadway em quase tudo.

Nos primeiros versos de “Luminol”, já se encontra mais uma pérola autobiográfica da cultura do fetiche musical de Wilson: “As músicas que você aprende a tocar de LPs riscados…”, sucessora natural de letras como as de “Pure Narcotic” (“Você continua me odiando / Você continua fazendo com que eu ouça o The Bends) e “Time Flies” (“Eu nasci em 1967 / O ano do Sargent Pepper e Are You Experienced?”). “Luminol” foi apresentada em diversas datas da turnê do disco anterior, Grace for Drowning (Kscope, 2011), inclusive em São Paulo, e ficou evidente para todos os presentes que uma espécie da mais forte nostalgia acometera o roqueiro inglês.

Para Steven Wilson, o iluminismo musical se deu com um toque de tons lisérgicos, que agora ganham uma coloração sépia. Como abrir uma fenda do tempo e resgatar um gênero inteiro em um único disco? Os timbres que marcaram época são um primeiro passo, mas talvez o compositor também queira escrever sobre amantes-fantasmas (“Drive Home”) ou uma profissão tão romântica e aberta a tantas interpretações filosóficas quanto o relojoeiro (“The Watchmaker”). Na era do iPhone e cantoras adolescentes de validade trimestral (ou até o próximo American Idol), Steven Wilson encarna o artesão meticuloso que prefere explorar seu território como ninguém.

De certa forma, Steven Wilson parece ir contra a maré até mesmo no modus operandi do artista de rock: nesse cenário, as primeiras gravações, de modo geral, explicitam as influências, para só depois consolidar-se uma personalidade própria (para permanecer no âmbito do Genesis, o primeiro álbum do Marillion, Script for a Jester’s Tear, de 1981, é um ótimo exemplo dessa rota). Insurgentes (Headphone Dust, 2008), primeiro trabalho solo de Wilson, é o mais experimental, enquanto que seu sucessor, Grace for Drowning, alivia nesse aspecto, mas ainda conta com momentos extremamente originais, como “Index”, a mais autêntica prova do aficionado musical que Steven Wilson é, uma descrição clínica do colecionismo (“Eu sou um colecionador e sempre me interpretaram mal / Gosto das coisas os outros subestimam / Reúno e faço um catálogo no meu livro / Já tenho tanta coisa que esqueço se não tomo nota”). Neste terceiro disco da carreira solo, Wilson decide prestar um grande tributo a vários de seus heróis como nunca antes. O biênio 2012-2013 foi bastante atípico nesse sentido para o cenário do rock progressivo: Steven Wilson, que vinha inovando e experimentando a cada lançamento, traz o trabalho menos surpreendente sob seu próprio nome; já o Marillion, por exemplo, volta à força total com Sounds That Can’t Be Made (Intact, 2012), talvez o melhor disco do grupo inglês desde Marbles (Dead Ringer, 2004), que abre com os dezoito minutos de “Gaza” e um riff de guitarra matador como há muito não se via Steve Rothery fazer, e o Pineapple Thief continua encantando como sempre, com sua mistura de música pop e rock progressivo guitarreiro da melhor qualidade em All The Wars (Kscope, 2012).

Mais uma vez, Steven Wilson demonstra que grava discos como um grande pintor planeja seu afresco, dando passos para trás e vislumbrando como trabalhar com cada cor e cada pincelada. Além de as composições evidenciarem a ilha que seu farol quer mostrar neste The Raven that Refused to Sing, a mão de Alan Parsons coloca tudo nos eixos da escola setentista, onde fez história como engenheiro de som do Pink Floyd e seu próprio projeto, o Alan Parsons Project. Para os navegantes de primeira viagem, a mera presença de Alan Parsons nos créditos deve dar uma noção do nível de respeito que Steven Wilson goza nos corredores do progressivo.

Os solos de guitarra de Guthrie Govan em “Drive Home” e “The Pin Drop” seguem a cartilha de eulogia do disco, mas também carregam uma dose de bom gosto digna de nota. Outro louvor é o resgate do papel fundamental dos sopros no rock progressivo, com Theo Travis responsável por momentos inspiradíssimos na flauta, saxofone e clarinete.

Para aqueles que se identificam com o colecionismo de Wilson, a versão de “Deluxe” conta com duas demos (“The Holy Drinker” e a faixa-título) e um encarte com 128 páginas de textos e fotos. Além desses adicionais, o Blu-ray também traz uma versão lounge de “Drive Home” que poderia tocar em qualquer whisky bar sem problema algum, um chiste de última hora em um registro denso.

A capa não poderia fugir das pretensões e traz a expressão de terror de In The Court of the Crimson King, disco inaugural do rock progressivo e cartão de visitas de Robert Fripp e seu eterno King Crimson, aliada ao desenho de uma lua, referência clara a Dark Side of the Moon, álbum emblemático do gênero e divisor de águas na carreira do produtor Alan Parsons. Impossível não se lembrar do corvo de Edgar Allan Poe com o título. As fileiras e mais fileiras de discos obscuros e antigos parecem ser as figuras que assombram Steven Wilson durante o sono. Talvez os vinis saiam dos encartes, perfilem-se à frente do músico inglês e digam: “Nunca mais”.

 The Raven That Refused to Sing (And Other Stories) pode ser ser adquirido na página official do artista e no iTunes.

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Sobre o Autor

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Guillermo Gumucio

Professor de Jornalismo e Linguagem Audiovisual na Universidade de Mogi das Cruzes (UMC). Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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