O tamanho do estrago

2º álbum da Fábrica de Animais chora amores sempre complicados e discos perdidos (e a vitrola não tem culpa)

Postado dia 28/03/2017 às 10:42 por Guillermo Gumucio

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Foto: Edson Kumasaka

 

“Para ele o reformatório foi mais difícil do que para a maioria, pelo menos no início. Filho único de uma família de classe média alta, sobressaía entre os outros jovens, quase todos párias de todas as raças. Falava com correção na terra do vulgar e do inarticulado. Recebera educação; a maioria dos outros era de iletrados. Em poucos meses, no entanto, adotou as cores do mundo que o circundava, a gíria, o jeito de andar, e os códigos que determinavam o que era virtude e o que não era. Seus sonhos, porém, nasciam no mundo dos livros, para onde ele fugia sempre que possível, para Zane Grey, Jack London, Rudyard Kipling. Troy tinha sofreguidão por influências civilizatórias e era um forasteiro no lugar que a fortuna lhe designara no mundo. Era incapaz de obedecer o 11º Mandamento: Ajustar-vo-eis.”

Edward Bunker, Cão come Cão

“A esperança ainda está à sua frente – mas um dia estará atrás de você. Esse é o verdadeiro papel das crianças, ter alguém em quem depositar a esperança.”

Edward Bunker, Nem os Mais Ferozes

 

Era um lançamento bastante aguardado, principalmente pelos frequentadores dos bares e teatros da região central de São Paulo. Depois da estreia com Fábrica de Animais (Baratos Afins, 2012), o quinteto de rock paulistano Fábrica de Animais volta com… Fábrica de Animais (Baratos Afins, 2016). Não, você não leu errado, ainda que a semelhança entre os registros fique apenas no ato batismal. Coitado do ouvinte incauto que der o play sem se atentar para um eventual volume alto. “De Quando Lamentávamos o Disco Arranhado” abre os trabalhos como um estouro. Liderados pela gaita furiosa de Flávio Vajman, os quatro músicos saem correndo para buscar a interpretação de Fernanda D’Umbra da letra em co-autoria com Beatriz Provasi.

A abertura é explosiva e tem como objetivo claro e proposital provocar a inevitável reação de promessa garantida nos ouvidos pelos próximos trinta minutos. A banda toda já se mostra com pegada e desenvoltura em níveis altíssimos desde o primeiro segundo. A bateria de Cristiano Miranda arranca a mil por hora, é precisa mais uma vez nas semínimas de chimbal como ocorrera na abertura do disco anterior com “Ano Novo em Bagdá”, e Caio Góes completa a cozinha com um baixo recheado e maduro. Sérgio Arara encontra novamente aquele espaço inteligente entre o contemporâneo e o vintage com um trabalho notável nas seis cordas. D’Umbra insiste em inocentar as relíquias do passado por um presente conturbado, alegando que “a vitrola não tem culpa”, também um lembrete anedótico quando nos recordamos de que o disco também pode ser ouvido nos principais serviços de música por streaming.

Na gramática da Fábrica de Animais, depois da tempestade vem a ressaca. Após o grito de liberdade das duas primeiras pauladas retumba “Tudo Errado”, faixa análoga a “Sua Esposa Ligou” do álbum anterior. Uma declaração de amor pela pessoa errada, já que “não posso falar besteira na mesa do bar / nem dar bandeira, pedir pra ficar / pegar na sua mão dentro do táxi não”. Quantas desilusões, quantos erros deliciosamente tragicômicos, e não chegamos nem à metade deste afresco anis que deveria ser pendurado em algum lugar entre a galeria underground da Praça do Patriarca e as vielas que já formaram a Boca do Lixo.

A estratégia malandra de curar a ressaca com uma dose reduzida do mesmo princípio ativo, o mágico e paradoxal “hair of the dog”, é sabida e pode ser uma boa ideia. “Noite Daquelas” cai matando com os cães ladrando para D’Umbra, mas a caravana não para e lá vem mais uma exibição de notas rápidas e agudas por parte de Vajman e solos minimalistas e surrados como um bom jeans velho de Arara. É bom que se aproveite, porque é no miolo de Fábrica de Animais que os brutos também choram, Shane.

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Foto: Guilherme Junqueira (Sugar Produções)

Fábrica de Animais, o motivo de celebração no palco do Sesc Belenzinho numa agradável noite de sexta-feira, 2 de setembro, prova a sua força sob os holofotes, que se fazem trepidantes e intermitentes para a banda chacoalhar e D’Umbra se esgoelar, e também quando se recolhem tímidos e se valorizam mais pelo que escondem do que pelo que mostram. A iluminação apropriada, calcada na fase sentimental que denota cada número, estava nas mãos de Marcelo Montenegro, co-autor de “Jogo de Dardos”. O show prevê uma bela seção em que o descontrole inicial se transforma em reflexão e as semicolcheias podem virar semínimas, agridoces e de tinta borrada. “Puta groove, Caio!”, alguém grita para ser ouvido de um assento mais afastado da plateia. O entusiasmado elogio faz jus ao trabalho do fretless em “Erro”, uma balada em que o baixo de Caio Góes assume a linha de frente com uma bela frase de cinco notas para complementar o canto pesaroso de Fernanda. Góes volta a empunhar o instrumento não tão usual no rock brasileiro em “Tarde Demais”, pontuando um belo refrão incorporado por uma D’Umbra impecável na interpretação de reconhecimento do fim de mais uma história.

E ali, no palco do teatro do Sesc Belenzinho, é onde a vocalista se sente ainda mais em casa. D’Umbra é diretora e atriz e pode ser vista aos fins de semana no Espaço Satyros integrando o elenco das peças Pessoas Perfeitas e Pessoas Sublimes. Nesta, Fernanda empresta a rouquidão da sua voz a Sonata, portadora de Alzheimer e uma entre tantas personagens que não veem saída no fim do túnel, ou não sabem que não veem. Sonata mora com a irmã Melodia, quem vê na disciplina militar a solução para manter a ordem, não passar constrangimentos, nem ver o apartamento voando pelos ares. A Cia. Os Satyros e o diretor Rodolfo García Vázquez trazem luz a uma São Paulo que nem todos querem ver, uma cidade onde a solidão corrói todas as almas e os desejos reprimidos estouram pelos poros. Muito de Pessoas Perfeitas está no ótimo Hipóteses para o amor e a verdade (dir. Rodolfo García Vázquez, 2015), primeira e bem-sucedida incursão do Satyros no cinema, mas em Pessoas Sublimes há muito mais poesia, uma abordagem mais introspectiva, que dá até brecha para que um pouco de D’Umbra entre em Sonata com uma palhinha de “Tarde Demais”, total e propositadamente dissonante na trilha da cena. O espetáculo consegue trabalhar os mesmos temas de Pessoas Perfeitas e não ser mais do mesmo, conta com interpretações tocantes, e com D’Umbra não é diferente. O público se emociona com Sonata, sente pena pela sua condição, e até ri com ela quando assume que não sabe com quem realmente acabou de falar ao telefone.

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Foto: Guilherme Junqueira (Sugar Produções)

Mais de um integrante da Fábrica reconhece que até o primeiro ensaio todos conheciam D’Umbra pela sua trajetória no teatro e não poderiam imaginar o que vinha pela frente. Com a desenvoltura que lhe é peculiar e gana de rock, ela mostrou ao que veio. “Acho que nem ela sabia que ela cantava, mas deu certo”, analisa Arara. Chegaram a tocar como Fernanda D’Umbra e Banda, até que Luiz Calanca, ícone de preservação da discografia brasileira e dono da loja e selo Baratos Afins, conferiu a performance do quinteto. Calanca organizava o Rock na Vitrine, um espaço na Galeria Olido, colado na Galeria do Rock, para lançar novos cartazes. Quando o assunto é rock, Calanca sabe que precisa ver para crer e reconheceu o potencial de imediato: “Foi paixão mesmo e aí quis gravá-los”.

“Som Cafona”, praticamente um sucessor espiritual de “O Que é Que Tem Na Rua?”, trabalha com a divisão de versos entre D’Umbra e Arara, mas encontrando no homem um eco idêntico àquele da mulher. “No primeiro disco, eles ainda estão se conhecendo, e neste segundo já é uma separação. Não foi feita exatamente com esse propósito, mas é definitivamente uma música de separação”, admite Arara em entrevista exclusiva da banda para o Sociedade Pública. E ainda que assim seja, o encerramento, em uníssono, junta essas duas vozes, agora, solitárias. “Som Cafona” é a cereja do bolo do ébrio manual da dor de amores que se desenha no álbum. A voz de Arara também ganha mais audiência neste segundo registro, com uma rápida intervenção em “Noite Daquelas” e o primeiro plano da dobradinha de encerramento.

A vasta maioria das músicas que integram o disco já eram figurinhas carimbadas do repertório ao vivo do conjunto pelos bares, centros culturais e espaços públicos de São Paulo há pelo menos dois anos. Com a banda já entrosada pelas muitas horas de voo em estúdio e no palco, a tarefa na hora de gravar consegue se concentrar em assuntos tão importantes para um registro em disco, mas por vezes relegados, como o próprio tom do som, o ambiente que imprime a alma de um álbum na nossa memória.

Talvez seja essa a maior diferença entre os dois discos da Fábrica de Animais. A estreia é festiva, uma celebração do espírito boêmio nas primeiras horas da noite, com as atividades apenas começando. Quando o ritmo desacelera, temos faixas hilariantes, como “Farra de Cicatriz” e “Sua Esposa Ligou”, uma tiração de sarro mais que saudável e bem-vinda, mas não exatamente sensíveis ou com uma visão parnasiana das coisas. “Honey” seria não a festança em si, mas o que ouvimos naquelas noites em apartamentos do Copan ou casas de vários cômodos esfumaçados na Vila Madalena. Não à toa, é cantada em inglês. Ainda que o disco de 2016 tenha seu momento de alto astral com “Ritalina” e duas músicas que são entoadas praticamente como hinos nos shows da banda, “Noite Daquelas” e “Eu Não Tenho Dinheiro” (esta última, faixa “escondida” no final do disco), ele é dotado de poesia e sensibilidade que simplesmente não tinham como se encaixar entre “me tira da sala / que eu tô pra causar / faltam dez minutos / para o Ano Novo em Bagdá” e “sempre perco o telefone/ chave de casa eu já nem tenho mais / meus amigos são piores do que eu / quando eu saio do bar, ninguém vem atrás”. Enquanto um se encerra oficialmente com as constatações bêbado-motoras de “Torto, Trôpego e Cambaleante”, o outro prefere fechar com o lamento desprendido de “Bossa Nóia” conduzido por uma linha labiríntica e paranoica de contrabaixo. É muito provável que o primeiro álbum tenha pautado o tema da conversa de D’Umbra no Transando com Laerte, programa do Canal Brasil comandado pela cartunista, quando bateram um papo sobre festas. Por essa lógica, se a vocalista voltar ao papel de entrevistada antes de um terceiro disco são grandes as chances de o diálogo transitar por desilusões amorosas e bad trips.

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Foto: Guilherme Junqueira (Sugar Produções)

Quem ouve a Telecaster de Sérgio Arara no show de lançamento no Sesc Belenzinho não imagina as inúmeras idas e voltas com volumes, retornos e equalizações na passagem de som um par de horas antes. O homem sabe tratar da ferramenta de trabalho com o devido esmero e o público presente pôde ouvir seis cordas que soavam na zona pela qual muitos anseiam, mas não são todos que alcançam, por ser tão árdua de conquistar. Aquela região entre o cristalino e o sujo, praticamente um Triângulo das Bermudas em decibéis. “Um momento sempre traumático é a passagem de som”, sumariza Cristiano Miranda.

Cabe a Flavio Vajman tirar uma das novidades da cartola (ou, melhor dizendo, do chapéu de cangaceiro) da fábrica de rock paulistana quando uma sanfona é introduzida com senhora competência em Jogo de Dardos. Se o instrumento em “Erro” segue a cartilha do bolero, a parada em “Jogo de Dardos” é bem mais dura. Sem qualquer aviso, Fernanda ironiza que “você vai querer dizer que conhece o meu repertório” depois de ratificar seu “maldito gosto por coisas antigas” na faixa de abertura. A baqueta no aro de Cristiano Miranda abre a contagem para uma potente diatribe misantropa sobre aparências que enganam e Fernanda solta a voz em um gutural tremulante como nunca. Na sequência, as cordas operam um intrincado riff em uníssono e um Vajman homenageando Luiz Gonzaga na cabeça mais uma vez disfere uma cama com as teclas do robusto instrumento que fez a glória do Rei do Baião. A porrada inaugurada há alguns minutos por “De Quando Lamentávamos…” ainda não cessou e Arara não deixa por menos com um solo raivoso e barulhento cujo caos esconde uma técnica apurada.

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Divulgação

“Sabíamos que queríamos um disco mais sujo”, conta Fernanda sobre a primeira certeza desde o início do processo de confecção do segundo disco. O tamanho do estrago cantado por D’Umbra é imenso: não há dúvidas de que “Jogo de Dardos” é daqueles números que marcarão presença no setlist de todo e cada show feito pela banda, ainda que ela chegue a gravar uma centena de álbuns.

Fábrica de Animais foi gravado entre o Viralata de Raça, de propriedade de Sérgio Arara, e o estúdio da Escola SP de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco. Como a prioridade do estúdio da Escola SP de Teatro é dos aprendizes dos cursos, o conjunto precisou se adaptar à agenda. D’Umbra lembra que foram finais de semana, inclusive domingos, no estúdio para finalmente selar um processo criativo que levou, ao todo, dois anos.

A arte do disco ficou a cargo de Angeli, pai de personagens como Wood & Stock e Rê Bordosa que certamente compartilhariam de várias das preferências dos músicos da Fábrica de Animais. O cartunista conheceu o som e a presença da Fábrica em um show na cerimônia do Prêmio HQ Mix, principal premiação da banda desenhada e cartum do país. Como um Romário dos pincéis, Angeli sabe muito bem o que fazer. Entregou o trabalho após uma única audição do disco em seu estúdio na companhia atenta de Fernanda D’Umbra. Não demorou muito para entregar o projeto finalizado, em uma só versão, essa que estampa a edição da Baratos Afins. Ao não se contentar com o clichê roqueiro do som e da fúria e incorporar o sentimentalismo de quem se importa com algo mais do que a manchete do dia, Angeli acertou o dardo bem no meio do alvo. A escolha do cartunista é consequência direta da mais pura admiração artística. Cristiano Miranda se lembra de comprar a edição de Mad do mês com o pai na banca de outrora, e D’Umbra é leitora ávida de histórias em quadrinhos desde que pegou o primeiro “gibi adulto” em São José do Rio Preto, então compreende perfeitamente o que Montenegro quer dizer quando instrui que “pode levar o Crumb”. O sacrifício só se dá com o que sentimos falta, afinal de contas.

De certa forma, este segundo disco da Fábrica de Animais é mesmo sobre a incongruência entre duas partes que não conseguem mais se entender e, na falta de recurso melhor, decidem vociferar para só depois lamentar. Reconhecem, a duras penas, que sofrem por algo tão manjado quanto o amor, tão cafona para uma geração blasé, que nem mesmo o mais maldito dos autores é uma ilha. Até mesmo “Água Salgada”, um rock mais padrão impossível com a mesma dinâmica que todos pegaram de “Jailhouse Rock”, tem a inevitável função de trazer o gosto de lágrimas à boca. No processo de composição, Caio Góes, baixista com a bagagem e responsabilidade inerente ao cargo na Central Scrutinizer Band, a maior e melhor homenagem a Frank Zappa, avisou: “Vocês sabem quantas milhões de músicas já foram feitas com essa harmonia?”. Ainda assim, como bom soldado que não foge à luta, Góes encara o desafio e entrega uma linha feroz que dá a “Água Salgada” uma pegada frenética.

O sentimento da desilusão amorosa pode ser um tema universal, mas a Fábrica continua batendo cartão em São Paulo e transitando pelas ruas da capital de ônibus, metrô e táxi para discorrer sobre situações que só uma megalópole esquizofrênica pode produzir. São entreatos cortados pela fumaça de um maço de cigarros amassado descritos por um eu-lírico que usa o Bilhete Único para atender a mais um compromisso etílico. Na prosa paulistana da Fábrica de Animais, pisamos na lama pela garoa ininterrupta que às vezes dá lugar à tempestade e cultivamos demônios que podem ser espantados apenas temporariamente com mais um trago.

Foto: Guilherme Junqueira (Sugar Produções)

Foto: Guilherme Junqueira (Sugar Produções)

Ao contrário do que o discurso prevalecente no disco pode aparentar e tomadas as devidas proporções, não se trata de qualquer alegoria pinkfloydiana como em The Wall (Columbia, 1979) para sinalizar uma cizânia ou partida no time. Afinal, quem vê a série de típicas intervenções e provocações entre os integrantes da banda no palco tem a nítida impressão de que estes caras definitivamente se divertem com o que fazem. É de se estranhar que Flávio Vajman tenha se sentido um tanto quanto distante no processo de composição do disco. “Eu não me senti tão presente”, confessa Vajman, para a perplexidade geral dos outros integrantes no camarim, às gargalhadas. Tanto os arranjos quanto a mixagem são bastante favoráveis ao seu virtuosismo e gosto refinado na gaita. Um instrumento que o pegou por acidente, já que os planos eram de estudos de violão erudito na Universidade Livre de Música.

Flávio Vajman é quase sempre alvo dos amigáveis chistes, e não é apenas porque o gaitista, recém-instalado em Fortaleza, não poderá acompanhar o conjunto como antes, mas porque é assim desde os primórdios da “família” que é a Fábrica de Animais, como frisa Vajman. A pose de porra louca do gaitista não dura nem um minuto sequer: “A coisa mais difícil da minha partida de São Paulo foi me desprender da Fábrica de Animais”. Os cabelos desgrenhados e a fala rápida e solta não conseguem ser maiores que a simpatia que cativa seus colegas e o olhar atento. Em uma das cenas do curta-metragem De Carona com a Fábrica de Animais (dir. Edson Kumasaka, 2016), Arara tira o disfarce do colega blueseiro: “Essa marra dele é tudo conversa fiada”. A montagem de trechos de diversos shows diferentes com depoimentos dos entrevistados ao volante traz o relato da gênese da banda, e pelo menos uma imagem curiosa, de Vajman na função de segundo guitarrista, um desperdício do tempo em que a Fábrica era cartaz do falecido Juke Joint com outros trovadores da noite paulistana, como La Carne, Biônica e Saco de Ratos. O primeiro corte do filme foi exibido em duas sessões no 8º Festival Internacional de Documentários Musicais IN-EDIT Brasil e terá imagens da série de shows de lançamento em 2016 em uma segunda versão. Misto de casa de cultura e sede de engajamento de incentivo à adoção de animais, a sala de projeção da Matilha Cultural para o programa “Curta um Som” de que De Carona… parece ter sido escolhida a dedo.

Foto: Guilherme Junqueira (Sugar Produções)

Foto: Guilherme Junqueira (Sugar Produções)

No terceiro show de lançamento do disco, na Escola SP de Teatro no dia 09 de setembro como uma das contrapartidas pela cessão do estúdio de gravação, um momento em especial deixava a relação que Vajman tem com os outros integrantes clara como uma dose de boa vodca. Na seção de solos improvisados de “Erro”, Fernanda D’Umbra, sempre compenetrada, cheirava de joelhos as pétalas de um buquê que alguém jogara há pouco no palco. Os músicos se comunicavam com gestos e expressões faciais para tentar acertar de quem era mesmo a hora de entrar em ação e voar solo sem deixar a peteca cair. Enfaticamente encorajado por Arara, Vajman primeiro sonda o campo com algumas notas breves e tônicas na gaita para poucos instantes soltar o coração, e os pulmões, para emocionar a todos com um solo dos mais inspirados. D’Umbra, ainda de joelhos, é a primeira a reconhecer que via a performance de um grande músico de camarote e não faz questão de esconder. Vajman é aplaudido imediatamente após o término do solo ao ponto de o público sobrepor a volta do coro com a sua homenagem e também ovacionar o gaitista ao fim do número. E se “Erro” é tão mencionada é porque ela é, de fato, um dos maiores destaques do disco. Ironicamente, a faixa entrou de última hora em Fábrica de Animais, quando muito do álbum já havia sido gravado, com um Arara adentrando o estúdio com a música praticamente pronta para apresentar aos colegas.

Com dois álbuns tão consistentes, a estrada é aberta e promissora para o conjunto, com previsão de céu limpo e um tempo que só fecha quando o assunto é destilar a energia no palco. O teatro com assentos marcados talvez não seja o habitat de preferência do público para um show da Fábrica de Animais, contudo, a ocasião protocolar de um lançamento de disco faz com que todos os presentes respeitem fielmente o pedido da vocalista para resistir à tentação de subir ao palco no bis “Eu Não Tenho Dinheiro”. A música, um cântico da geração das incertezas, pelo menos não sofreu nesta ocasião represálias por um verso tão inocente quanto “mas o que me fode nesta porra de vida é que eu não tenho dinheiro”, como já aconteceu em certa casa tradicional de blues de Moema, segundo Vajman. “Não foi nada velado, apenas me disseram que ali não poderíamos falar palavrão”, revelou o gaitista, ao que D’Umbra ponderou que “se fosse em inglês, poderia”.

O público da Fábrica de Animais é o frequentador de teatro e leitor inveterado que consegue dissertar sobre Herman Melville, citar Dickens, tem a coleção de bolso de Bukowski da LP&M sempre à mão ou na cabeceira da cama e aprecia o cinema de John Cassavetes e Eduardo Coutinho com a mesma habilidade. O homem que poderia muito bem estar trajando a camiseta com o escrito “Jack Kerouac ’57”, a mesma com a qual Vajman já subiu tantas vezes ao palco e não poderia faltar no Sesc Belenzinho. Ou a mulher que acompanha os espetáculos da Praça Roosevelt há tantos anos e elenca produções teatrais como Bárbara Heliodora recitava sonetos de Bill Shakespeare. Ou o Mirisola.

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Foto: Guilherme Junqueira (Sugar Produções)

Desde o último 2 de setembro, a missão da Fábrica de Animais é apresentar o seu rock sofisticado e literário, aquele que ora convoca Paulinho da Viola e Luiz Melodia, ora se diverte com Rita Lee e Nick Cave e costuma prestar tributo a Willie Dixon, à maior quantidade de locais possível. Uma meta razoável é concentrar os esforços para tentar shows nas principais capitais do país, como conta Sérgio Arara, já que é opinião unânime da banda que o som da Fábrica é, sem dúvida nenhuma, popular. “A nossa pretensão é ser popular e isso se comprova quando tocamos na rua. Vemos as senhoras, os mendigos, as crianças, os manos e os guardas gostando, cantando e dançando”, explica D’Umbra. Sérgio Arara ainda ilustra: “Eu não quero ser a figura do rockstar. Quero ser o Luiz Gonzaga!”.

Com efeito, é uma identificação de mão dupla, com personagens que habitam e se retroalimentam das músicas que as retratam, a trilha sonora para quem sabe que “roubada não tem idade”, como exemplifica D’Umbra. Cada governo com a trilha sonora que merece, é o que bem sabe Reinaldo Moraes, autor de Porponopéia (Objetiva, 2009) e dos libertários e desvairados Tanto Faz e Abacaxi (reeditados em volume único pela Companhia das Letras em 2011), que teria confidenciado à banda que adora “Sua Esposa Ligou”.

Se há um acordo quanto ao potencial de atração do repertório com uma demografia além do centro velho de São Paulo, mais um motivo para uma medida tão pouco eficiente na era digital quanto dar nomes idênticos a álbuns diferentes ficar definitivamente no passado. A resolver também o papel de gaita no palco, esse lugar de conquista da banda, já que Flávio Vajman não poderá acompanhar sempre em turnê. Como preencher o vazio deixado pela gaita, tão presente na maior parte das faixas, é um mistério que só verá alguma resolução nos próximos capítulos ao vivo.

Com este disco de 2016, não há dúvidas de que temos uma banda que precisa não apenas ser vista, mas ouvida em bons fones de ouvido também. D’Umbra conta que eles “queriam um disco mais sujo que o primeiro, que tivesse uma energia mais próxima da energia do palco, mesmo que isso seja difícil de alcançar, já que a especialidade da casa é o palco”. Pois bem, conseguiram. Mesmo sendo tão consistente na sua paleta predominantemente azul e escura, este Fábrica de Animais de 2016 é um registro sonoro de uma transformação que não se esquece de preservar aquele velho maldito gosto por coisas antigas. A Fábrica de Animais concebeu uma rica, obscura e elegante criança de mesmo nome que conquistará ainda mais mentes que só querem deixar seu coração, pulsante e à deriva, no meio da rua.

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Os discos Fábrica de Animais (2012) e Fábrica de Animais (2016) estão à venda na Baratos Afins (Av. São João, 439 – 2º andar – Lojas 314/318), no iTunes e também estão disponíveis nas plataformas de música por streaming Spotify e Deezer.

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Sobre o Autor

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Guillermo Gumucio

Professor de Jornalismo e Linguagem Audiovisual na Universidade de Mogi das Cruzes (UMC). Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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