O sapo que virou sapo

A história tem mostrado que não volta atrás. Mudanças podem ser represadas até um determinado momento

Postado dia 30/09/2016 às 10:39 por Heródoto Barbeiro

sapo

Foto: Reprodução/Internet

Conta a lenda que um sapo foi colocado em uma panela. Ela foi levada ao fogão e a água começou a esquentar. O sapo não se apercebeu. A água ferveu e o sapo não conseguiu se salvar de ser cozido na panela. Certamente se a panela já estivesse com a água fervendo, de forma alguma o simpático batráquio teria ousado tomar uma sauna em tão inóspito ambiente.

Isto é uma alegoria que esconde a diferença entre as mudanças lineares, gradativas e as exponenciais, geralmente disruptivas. Imagine o seu atual computador em 2030. Se ele existir até lá e não for atropelado por uma quantidade de novos gadgets, custaria mais barato que o atual. Sua capacidade operacional seria de aproximadamente de um bilhão de GB. Se ele tivesse sido concebido trinta anos antes, sua capacidade inicial seria de 1GB. Como pode ter aumentado tanto em tão pouco tempo? É que sua capacidade de memória não cresceu de forma linear, mas exponencial. Geralmente essas mudanças quantitativas provocam mudanças qualitativas. E vice-versa, uma vez que ocorre uma interatividade entre elas.

A Revolução Industrial sofreu pelo menos quatro revoluções, uma dentro da outra. No final do século 18, o uso do vapor e da água como fontes de energia comercial acelerou o processo da mudança do modo de produção de pré-capitalista para capitalista com o advento da mão de obra assalariada concentrada nas cidades e a propriedade privada do modo de produção industrial. Um século depois, 1870, o advento da energia elétrica  proporcionou a produção em massa e as linhas de montagens industriais; assim, aprofundou a divisão do trabalho. O mais belo exemplo é o filme Tempos Modernos, de Charles Chaplin.

Ente uma e outra disrupção na produção de energia houve, obviamente, mudanças lineares como o motor de combustão interna, diesel e gasolina, e o acirramento das disputas dos mercados mundiais pelos países industrializados. Disso resultou no imperialismo que desaguou na primeira catástrofe da Grande Guerra. Na década de 70 do século 20, foi a vez da automação das fábricas, o uso do computador dirigindo grandes máquinas e o desenvolvimento linear que se sucedeu. Gradativamente chegaram os robôs, a digitalização e outros avanços técnicos.

O século 21, com sua nova revolução industrial, trouxe no bojo a destruição criativa. É verdade que esse fenômeno é  tão antigo como a chegada dos bondes nas cidades e o fim dos carroceiros. Os cavalos foram aposentados. Ou abatidos. Contudo, desta vez, a mudança foi turbinada por uma evolução tecnológica exponencial. O reflexo social é o desemprego estrutural, em massa. Parte da força de trabalho se vê ameaçada cada vez que uma notícia sobre avanço tecnológico é divulgada. Até agora não se sabe se os novos empregos, gerados em outras atividades, serão ou não suficientes para receber os órfãos da tecnologia. De um lado, uma paisagem cada vez mais nítida, profunda, instigante. De outro, uma paisagem de desconfiança, descontrole e insegurança.

A história tem mostrado que não volta atrás. Mudanças podem ser represadas até um determinado momento, quando explodem a barragem, e levam tudo de roldão, como a de Mariana, em Minas. Nesse novo quadro de conflito percebe-se que se enfraqueceram os sindicatos de trabalhadores e o Estado. O que vem depois da próxima curva ninguém sabe. Mas não deve ser nada lúdico.

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Sobre o Autor

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Heródoto Barbeiro

Heródoto Barbeiro, escritor e jornalista, âncora do Jornal da Record News e editor do Blog do Barbeiro. Foi âncora do Roda Viva da TV Cultura e do Jornal da CBN. Tem livros nas áreas de jornalismo, história, mundo corporativo e budismo.

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