O Reino Unido saiu da União Europeia porque quer ser democrático

Muito se discutiu esta semana sobre a saída do Reino Unido da União Europeia. Pudemos ver opiniões das mais variadas. e na maioria das vezes tendenciosas

Postado dia 27/06/2016 às 09:00 por Pedro Henrique

 

reino unido

Foto: Reprodução/Internet

A mídia internacional e nacional viu nesta tomada de rumo algo como um evento cataclísmico, um apocalipse econômico e político. Nada tão amorfo e parcial. Gostaria de dar minha opinião baseada não unicamente na economia e em suas consequências, como a maioria se preocupou em fazer. Para mim, o determinante no voto inglês para a saída da UE foi a tradição democrática deste reino, tradição esta que só sobrevive da liberdade individual e da soberania político-econômica.

Para entendermos a saída do Reino Unido da magnânima UE, antes é necessário compreendermos o espírito inglês de democracia. Para a Inglaterra, acostumada ao sistema hierárquico de poder, principalmente a da monarquia parlamentarista, a liberdade é algo muito caro, que foi conquistado a duras penas.

Tais liberdades foram garantidas pela Carta Magna (1215) e pela revolução gloriosa (1688-1689) depois de muitas batalhas e compreensões políticas dos monarcas vigentes — e do Parlamento, no caso de 1688. Além de possuir nomes como John Locke, Edmund Burke (Edmund Burke é irlandês, mas fez sua carreira política e intelectual na Inglaterra) e Gilbert Keith Chesterton como teorizadores de suas correntes políticas.

Nestes fatos históricos vemos algumas características muito peculiares do pensamento político deste reino. Primeiro, o amor incondicional à sua história, e com isto um respeito enorme por sua cultura tradicional e modelos sistêmicos. Não à toa que, até hoje, símbolos, flamulas, títulos, entre outras marcas da herança histórica desta terra, são verdadeiramente guardadas como ouro e bens inestimáveis.

Segundo, há um entendimento popular e tradicional de que não há como fazer política sem que estes atos políticos estejam vinculados à herança histórica de seu povo. Não faz sentido ao povo inglês o descompasso histórico, invenções sociais que rompam com o caule bem posto da tradição do reino. Não há evolução política se não forem levados em conta os costumes históricos de todo o reino. Quem não olha para as tradições não sabe cultivar um futuro: este é um norte político para os ingleses. Diria um dos mais eminentes pensadores políticos do reino, Edmund Burke: “Um povo que não cultiva a memória de seus ancestrais não cuidará de seus descendentes”[1].

E por fim, o terceiro, a visão de reino, de país e nação que os ingleses possuem — e dos povos derivados destes — trata-se de uma visão familiar[2]. Quando um inglês olha para a nação, ele vê uma extensão de sua própria família particular. Isto, obviamente, é uma consequência natural da visão monárquica ainda muito tradicional no país. A característica mais arrogada na obra mais famosa de Edmund Burke, Reflexões sobre a revolução na França, é justamente uma liberdade individual tendo por base as famílias. O autor coloca como principal característica da política inglesa.

Assim sendo, todas as características citadas, principalmente a terceira, advogam para si uma liberdade e uma soberania em que cada indivíduo é possuidor de uma liberdade natural, e cada família tem sua soberania irrigada a partir soberania do reino. Com isso, vemos três fatores irrevogáveis na democracia inglesa: a tradição como parâmetro político, a liberdade individual como bem natural e a soberania política irrevogável do reino (nação).

Disse tudo isto para demonstrar que a liberdade soberana, para os ingleses, é algo muito caro para ser trocado por uma união econômico-estatal. Por mais benefícios que existam, por mais estabilidade econômica que a UE possa oferecer, os ingleses preferem ser um nação própria sem amarras e cabrestos.

Na realidade, a União Europeia rompe com postos sagrados para os ingleses, isto é: a total soberania do país em assuntos econômicos e a não intrusão de opiniões políticas estrangeiras em seus meios. A democracia vista dos campos ingleses tem muito mais a ver com a liberdade e a soberania nacional do que uma confiança econômica num centro de comando qualquer que busque equilíbrios qualitativos entre os países que aceitam os seus termos.

A União Europeia é um sistema intrincado e extremamente confuso em sua política burocrática; poucos sabem como funciona a estrutura basal da EU e de sua política interna. Além de ser um sistema político-econômico que gasta muito, mais muito mesmo. Um verdadeiro centro burguês dos mais caros do globo, um sistema muito eficiente em fazer dos impostos coletados um verdadeiro oásis particular para poucos burocratas.

Da tradição liberal mais antiga de Locke até a filosofia política de Burke do século XVIII, nunca se acreditou numa economia que possuísse, de forma eficaz, um centro de comando. Na realidade, numa visão liberal de mundo, a União Europeia é um centralismo econômico que não possui, por mais que tente, a capacidade de gerir todos os movimentos de mercado. Além disto, segundo a visão do Brexit, ela está atrapalhando e muito a economia nacional dos países do Reino Unido.

As visão catastróficas da Globo News e da Folha de São Paulo forma apenas espectros alarmados de socialistas que viam na União Europeia um bom modelo de um governo geral que eles tanto sonham. Não faz sentido dizer que, se a Inglaterra sair do bloco da UE, suas opções comerciais serão ferrenhamente comprometidas.

Ora, o livre comercio entre países é a única maneira de mercado existente ainda hoje para quaisquer nações minimamente sensatas. Ninguém fechará as fronteiras para o comércio com o Reino Unido, a não ser por boicote, o que eu duvido muito que aconteça. Além do mais, nem todos estão integrados à UE — é bom avisá-los — e estes que não estão, fazem “comércios  exteriores” livremente sem nenhum enrosco. Por que haveria enrosco com o Reino Unido?

Este medo alarmado da expulsão dos imigrantes que trabalham nos países do Reino Unido é uma estupidez de dar sono. Se existem tantos imigrantes trabalhando, e se eles representam um número tão significativo para economia interna, obviamente eles não serão expulsos, pois, se assim fizerem, no outro dia o Reino Unido vai travar economicamente gerando uma crise sem fim. Esta insensatez da mídia beira a burrice sistêmica.

Por fim, antes de econômica, a saída do Reino Unido da UE é uma decisão política. A democracia da liberdade, a democracia liberal que prevê liberdades individuais irrevogáveis, que prevê a soberania dos países como inalienáveis, que propiciou o liberalismo econômico (o livre-comércio), não suporta em nenhum aspecto uma união governamental que tente burlar suas liberdades, ainda que haja benefícios.

A liberdade é muito mais cara que qualquer segurança econômica — se é que ela existe —, ou uma outra especificidade de “bonanças” que uma organização geopolítica tente impor como medida de razoável governança para outras soberanas nações. A grande realidade é que o medo dos conservadores ingleses possuem fundamentações sérias, e que per se justificam a saída do Reino Unido deste bloco.

Toda união governamental em blocos que lese as soberanias e as liberdades de um ou mais países acaba caindo, cedo ou tarde, numa tirania velada. Pode parecer algo muito mirabolante e conspiratório, e eu concordo, mas a ditadura e a tirania de uma União Europeia é algo que eu não pagaria para ver. Até onde eu estudei política, a ditadura começa quando um louco, ou um grupo de loucos, creem estar acima das liberdades individuais, quando tiranos apagam as fronteiras da soberania de um país.

Até o momento, o único antídoto descoberto contra qualquer tirania e ditadura foi a elevação do altar democrático, de onde jorram as liberdades individuais e as soberanias nacionais devidas. E, deste assunto, ninguém sabe melhor do que os ingleses. Eu prefiro seguir no barco de Lock, Burke e Chesterton do que navegar no Titanic UE[3].

Referências:

BURKE, Edmund, Reflexões sobre a revolução na França, 1ª Ed, Edipro: São Paulo, 2014, p. 55

Ver: Ibidem, p. 56
Para assistir o documentário legendado do Brexit com a explicação dos que decidiram por sair do Bloco da União Europeia: https://www.youtube.com/watch?v=QbjYi1QrTWY

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Sobre o Autor

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Pedro Henrique

Pedro Henrique, filósofo, ensaísta, crítico social, estudioso de política e palestrante

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