O que foi que será?

Parecemos mais desconfiados, nos fechando pra balanço, com um tipo de "medo stand-by", que vai da Zika, passando pela Cracolândia e chegando à Síria

Postado dia 25/07/2016 às 08:00 por Rick Ferreira

universo

Foto: Reprodução/Internet

As antigas filosofias orientais defendiam que o Universo, bem como tudo que há nele, obedece a ciclos de ida e vinda. O Cosmos, assim, responderia da mesmíssima maneira que o seu ou meu coração, ou seja, guiado por movimentos de sístole e diástole, de expansão e contração.

Essa visão chegou aos nossos dias e, ao que parece, a história humana recente tem se encarregado de legitimá-la cada vez mais! Estive reforçando minha crença nela nos últimos dias, enquanto acompanhava com tristeza as notícias de mais atentados, tanto na Europa quanto em Bagdá e demais países onde isso já é uma rotina infeliz há muitos e muitos anos (e antiga pauta-padrão da tácita editoria “Nova Normalidade” da imprensa ocidental).

Não bastasse isso, Donald Trump subindo nas pesquisas de opinião, violência contra imigrantes subindo nas fronteiras, vozes da intolerância subindo o tom nas gargantas embargadas pelo sofrimento do medo, da desconfiança, das carências de todo tipo…

Enfim, após o ápice do horror da Segunda Guerra, o pêndulo da história seguia seu trajeto de diástole, relaxando a tensão dos vínculos, procurando curar as feridas e marcas deixadas sobre os afetos após seu traumático testemunho ao ver a humanidade impingindo  – e provando também! – a instrumentalização e a lógica “fordista” nas execuções em massa, fossem nas câmaras de gás ou sob efeito das bombas nucleares detonadas no Japão (uma dor extra somada às grandes perdas já previstas numa guerra).

Pois bem, a impressão que se tem é que, tristemente por fim, o movimento diastólico do pêndulo vem perdendo força e a outra força da natureza, a oposta, deseja voltar a agir.

À primeira vista (e é sempre preciso cuidado nessas olhadelas!), a humanidade, todos nós, você, eu, meu vizinho e o país vizinho do meu vizinho, parecemos mais desconfiados, nos fechando pra balanço, com um tipo de “medo stand-by”, que vai da Zika, passando pela Cracolândia e chegando à Síria.

Certa vez, um grande mestre do budismo tibetano foi perguntado sobre como seria o futuro quanto a qualidade da vida humana na Terra. Ele respondeu: “As maldades vão aumentar, e muito… E as bondades, também!”

E é nisso que ultimamente procuro me apoiar um pouco. Os movimentos pendulares universais, ao meu ver, apontam sim para grandes tendências, assim como o inverno é mais capaz de nos predispor à introspecção do que o ápice do verão. Mas um filho e neto de alcoólatras não será necessariamente um bêbado perdido, certo? Ainda que haja uma boa dose de sensibilidade aos possíveis “gatilhos”.

Vejo sim uma tendência atual para o autocentramento e o isolacionismo. Mas para cada notícia lamentável que leio na internet, procuro, como antídoto à desesperança, acessar páginas de organizações como Médicos Sem FronteirasAnistia Internacional, WWF, Banco de Alimentos, dentre tantas outras no Brasil e no Mundo.

Para cada mancha vermelho-sangue do ocaso, novos fios amarelo-ouro tecem a aurora seguinte, incansavelmente, ainda que à próxima hora rubra caiba tingir o horizonte novamente. E mesmo que possa parecer inútil, assim como na história das estrelas do mar encalhadas na praia há também aqui uma razão mais profunda, em que compaixão aliada à lucidez e fraternidade são mesmo capazes de nos proteger de nós mesmos; digo, daquela parte escura, densa e pouco explorada dentro de nós, tentada por impulsos fratricidas e de auto-aniquilação.

As histórias e suas estórias não devem ser esquecidas. Ponto. Porém, talvez ainda sejamos mais capazes de aprender com elas quando, mais do que rememorarmos personagens, geografias e bandeiras, estivermos alertas para a essência dos comportamentos que sustentam nossas visões de mundo, por vezes,  sim, isolacionistas e intolerantes.

Já as plataformas polícias, leis, bandeiras, hinos, armamentos, estandartes de misantropia… Tudo o mais nasce dos que se agarram à direção do pêndulo.

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Rick Ferreira

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