O que é a pornografia de vingança?

Estamos presenciando esse tipo de acontecimento com frequência. Consiste basicamente na exposição de fotos íntimas de pessoas em redes sociais. As maiores vítimas são mulheres

Postado dia 13/03/2017 às 08:00 por Priscila Andrade

vingança

Foto: Reprodução

Anteriormente escrevi um texto sobre o sexting – exposição de pessoas nuas por fotos ou vídeos, mas com a permissão da mesma. Já a pornografia de vingança consiste na exposição sem consentimento, com o intuito de prejudicar a pessoa. Essa exposição acontece na maioria das vezes por meio das redes sociais, como forma de vingança, geralmente exibida por alguém que se sentiu traído (a) por seu companheiro (a) ou alguém que teve algum envolvimento íntimo.

Pornografia de vingança vem da expressão Revenge Porn, que surgiu nos Estados Unidos, em 2007 essa expressão passou a fazer parte do Urban dictionary. Consiste na divulgação de fotos, vídeos, áudios de cunho sexual de uma pessoa, feita por alguém com quem teve um relacionamento afetivo amoroso ou mesmo um vínculo afetivo. Embora algumas vezes a gravação tenha sido consentida pela vítima, a divulgação não foi permitida, o que configura crime.

Nesse tipo de crime as maiores vítimas são as mulheres, de acordo com uma pesquisa da Safernet Brasil (que monitora as violações de direitos humanos na internet): 77% dos casos são mulheres, o que nos leva a acreditar que esse tipo de crime se configura uma nova forma de violência de gênero.

Embora saibamos que todas as pessoas adultas ou em sua grande maioria, gosta, já fez, faz ou fará sexo na sua vida, fica a pergunta: Por que ainda há tanta condenação quando esse tipo de imagem ou vídeo cai na rede e é compartilhado vertiginosamente? Por que o centro das atenções é a mulher, mesmo que no vídeo haja a participação de um homem? Por que a condenação recai somente sobre a mulher? A resposta é simples: o machismo. Ainda vivemos em uma sociedade patriarcal, no qual a mulher tem que seguir algumas “regras” para vivenciar sua sexualidade.

Sexting. Keyboard

A pornografia de vingança surge como um dispositivo de preservação do patriarcado. Ou seja, é permitido à mulher fazer sexo, desde que esse ato sexual esteja condicionado a dispositivos que o legitime como adequado à sociedade machista. Assim, a mulher que se rebela contra o papel que lhe foi imposto na sociedade sofre. E a punição contemporânea é a divulgação de imagens e vídeos por meio das redes sociais, que surge como mecanismo de domínio. A frase “seja uma puta na cama e uma dama na sociedade “ nunca foi tão atual. Ao ser exposta ela se torna a puta, a mulher que fez sexo, a mulher que se deixou gravar, e frases como “ah, mas a culpa foi dela”, “quem mandou ela se deixar gravar” e “ mulher direita não faz esse tipo de coisa” vão lotar as redes sociais.

Compreendendo que elas não fizeram nada de errado, se deixar fotografar e ser gravada é algo normal no contexto do sexo, faz parte da fantasia sexual do casal, a culpa é somente de quem divulgou essa imagem/filmagem.

No Brasil, esse tipo de crime ainda não tem uma lei específica, mas há projetos de lei para que esse tipo de conduta seja punitiva. Como o projeto de lei nº 5.555/13, que altera alguns itens da lei Maria da Penha. E também o projeto de lei nº 6630/13, do deputado Romário, que torna crime esse tipo de divulgação. Já existe a lei Carolina Dieckmann – lei nº 12.737/12, tornando crime a invasão de dispositivos como celulares e computadores.

A criminalização desse tipo de divulgação se faz necessária, mas não é o suficiente. É necessário que haja um entendimento por parte da sociedade – escola, família, igreja, Estado, etc. – que são os principais agentes da permanência de certas hierarquias, possam se comprometer com mudanças, entender que a sexualidade.

O corpo não deve ser motivo de desaprovação ou julgamento, principalmente com as mulheres. E esse entendimento só virá a partir do momento que exista uma participação maior de educadores sexuais nas escolas e em toda a sociedade, para o combate ao machismo de uma maneira esclarecedora, no qual mostre o quanto ele é nocivo para as mulheres, homens – enfim, para toda a sociedade.

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Sobre o Autor

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Priscila Andrade

Professora e Educadora Sexual. Pedagoga e Mestre em Educação Sexual,

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