O que a psicanálise nos ensina?

Acompanhe um relato que exemplifica o caso de uma psicose.

Postado dia 19/01/2016 às 00:00 por Eliana Figueiredo

paranoia

Foto: Divulgação/Internet

A psicanálise trabalha com o caso a caso, o caso único, se preferirmos chamar assim. Isso de saída nos mostra que não existe uma solução que valha para todo mundo. A escuta é individual e, embora duas pessoas possam passar pela mesma cena, um assalto por exemplo, cada uma vai reagir de um jeito. Algumas demorarão alguns dias para se recuperar, outras alguns meses, outras ainda permanecerão paralisadas por algum tempo, outras estarão traumatizadas e não se recuperarão se não procurarem ajuda.

A paranoia é o estado nascente do sujeito, nos diz Jacques Lacan, o que significa que todos nós somos paranoicos, em maior ou menor intensidade, e sempre nos perguntamos, por exemplo, “o que o Outro quer de mim?”, ou seja, o que meu pai ou minha mãe quer de mim, o que meu chefe quer de mim, o que meu companheiro(a) quer de mim? E o que nos diferencia dos loucos? Talvez uma das respostas seja a forma como cada um se vira com nosso lado paranoico e com o Outro mau.

Abaixo trago um relato que nos exemplifica o caso de uma psicose e sua relação com o Outro social, caracterizada na forma como esse sujeito lida com sua paranoia.

Cidade de São Paulo, um acontecimento, um encontro com o real a cada esquina… Assistimos diariamente a apropriação dos espaços públicos na cidade, por aqueles que gritam, não mais aos nossos ouvidos, mas aos nossos olhos! Uma praça e tudo acontece ali, à luz do dia ou da noite…

Avenida Paulista, coração e símbolo da cidade de São Paulo, e um pedido inusitado! Ouvir um morador de rua, no caso, de praça, pois naquele momento algo não ia bem com ele e ele estava pedindo ajuda.

Fui! Ao chegar à praça, eu me apresento e ele, com um livro nas mãos, me diz: “por favor, venha ao meu escritório”. Eu o sigo até um ponto da praça. Duas caixas de cimento no chão são as nossas poltronas. Há livros de Marx, Maquiavel, Sartre, Hegel, dentre outros. Ele me conta sua vida e mostra sua casa: “Estou aqui há dois anos. Aqui tenho tudo de que preciso: roupas, sapato, cobertores, comida, água, sexo e livros!”.

Decorrido algum tempo ele me conta o seu problema: “O problema, doutora, é que a praça é pública, mas eu não sou público! As pessoas que vem aqui diariamente acham que eu tenho que cumprimentá-las, dizer bom dia, boa tarde e boa noite; que tenho que sorrir para todos. A praça é pública, eu não!” Em seguida, diz do seu outro incômodo: “há câmeras por toda praça. Antes não era assim. Onde está minha privacidade?”

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Sobre o Autor

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Eliana Figueiredo

Psicóloga há mais de 25 anos, supervisora, associada ao CLIN-a, Atende em consultório particular em Mogi das Cruzes e São Paulo.

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