O preço da incoerência

Acordos políticos são vitais à política, mas os partidos no Brasil acostumaram-se a sacrificar pontos essenciais de seus programas; acabam descaracterizados

Postado dia 25/04/2016 às 18:40 por Janaína Leite

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Foto: Reprodução/Internet

O Brasil paga hoje o preço de ter fechado os olhos à incoerência de seus políticos. Desde a redemocratização, acordos feitos a partir de interesses pontuais sangraram partes importantes do conteúdo programático dos partidos e transformaram o alinhamento ideológico de cada legenda em uma mixórdia de ideias soltas e malparadas. O resultado está aí: coalizões bambas, repletas de traições e buracos, e a iminência de um governo de transição resultante do segundo impeachment desde os anos 90.

Para chegar ao poder, o PT teve de convencer os mercados internacionais e a indústria nacional. Fez isso por meio da “Carta aos Brasileiros”, documento assinado em 2002, durante a campanha de Lula à presidência. Ali, os petistas comprometiam-se, em caso de vitória, a manter o combate à inflação e o equilíbrio das contas públicas, além de honrar os contratos e obrigações do país. O texto ressaltava a importância de estimular as exportações, desonerar a produção e levar adiante reformas estruturais nas áreas fiscal, previdenciária e trabalhista.

Até 2006, as promessas contidas na carta foram cumpridas à risca e a economia brasileira continuou a lançar as sementes de prosperidade que seriam colhidas em anos posteriores. A chegada de Guido Mantega ao Ministério da Fazenda, porém, iniciou um processo de afastamento paulatino das juras de campanha e de erosão dos bons fundamentos econômicos.

Ninguém no PT se importou, ao contrário. O partido tinha votado contra a Lei de Responsabilidade Fiscal e jamais gostou de austeridade, vista como uma exigência imperialista. Àquela altura, Lula já tinha firmado ao seu redor um grupo de banqueiros e empresários amigos. Seus índices de popularidade – obtidos por meio da expansão de crédito e de propaganda maciça – eram grandes o bastante para livrar o partido de fazer média.

Os apoiadores fecharam os olhos, no entanto, ao alto preço que lhes era cobrado. Áreas cruciais que o partido sempre defendeu (reforma agrária, direitos das minorias, respeito ao meio ambiente, fortalecimento dos sindicatos etc.) foram sistematicamente relegadas a segundo plano. Muito mais importante para o governo era o anúncio de grandes obras de infraestrutura e de empresas gigantescas, resultantes de fusões – as chamadas campeãs nacionais. Sabe-se hoje, após a Lava Jato e suas congêneres, que os interesses em tais negócios estavam longe de serem apenas republicanos.

A chegada de Dilma Rousseff à presidência em 2010, com a falsa pecha de grande gestora, foi o real momento de comemoração das esquerdas. A presidente não fazia média: acreditava que o governo tinha de gastar para fazer a economia girar. A “Carta aos Brasileiros” não era problema seu e Mantega, com quem sua visão coadunava, agora estava livre para voos mais altos. Deu no que deu.

Quatro anos depois, nova campanha pelo Planalto. A economia brasileira estava aos frangalhos: contas públicas destruídas, inflação em alta, PIB desintegrando, desemprego cada vez maior. Com a ajuda dos marqueteiros e dos militantes, Dilma fez que não viu os próprios erros e apresentou aos eleitores um país muito diferente da realidade. Foi reeleita a partir de mentiras.

O fato de no segundo mandato nomear Joaquim Levy, um ministro da Fazenda que defendia a visão ortodoxa, e entregá-lo às feras zerou a credibilidade de Dilma junto ao capital. Sem dinheiro para distribuir entre os empresários que defendiam o PT, os apoios restantes no setor produtivo foram minados. E as operações policiais secaram os esquemas de pagamentos a parlamentares, destruindo a fidelidade da base no Congresso. Por fim, a verdade sobre a economia não pôde ser mais escondida e a simpatia do povo pela presidente também desapareceu. O impeachment estava posto.

Não foi só o PT, no entanto, que fechou um acordo à custa de sua desfiguração. O PSDB fez o mesmo na década de 90, quando uniu-se ao então PFL (hoje DEM). O pacto permitiu que fossem levadas adiante as privatizações e a modernização da economia, mas fez os tucanos caírem em um silêncio constrangido quando o assunto passava pelos direitos humanos e individuais. Sua atuação na defesa das minorias e no incentivo a um comportamento progressista da sociedade passou a ser feita de modo tímido, envergonhado, quando não inexistente. Mais tarde, livre do poder e sem pretensões eleitorais, Fernando Henrique Cardoso voltou às raízes. Passou a defender publicamente a discussão sobre a descriminalização das drogas. Fez isso, contudo, de uma maneira individual. Os tucanos, para variar, permaneceram em cima do muro.

Até aqui, o PSDB continua a agir de modo covarde em relação aos pontos que lhe garantiriam um lugar na esquerda. Adota cada vez mais um “modus operandi” típico da direita – basta ver a relação entre o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e a polícia militar do Estado.

É aí que, talvez, o PMDB tenha uma certa vantagem. O partido é um amálgama que jamais definiu suas crenças de forma explícita, nem identificou-se com este ou aquele comportamento ou minoria específica. O máximo que se sabe a respeito dos peemedebistas é a sua herança do PMDB da década de 80, quando defendeu as eleições diretas. Pode fechar o acordo que quiser, pois isso não irá arranhar sua imagem, nem decepcionar seus eleitores.

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O PSDB debate-se entre apoiar integralmente o PMDB e apoiar com um pé fora. A primeira hipótese satisfaz os serristas, muito concentrados em São Paulo, terra de Michel Temer; a segunda é defendida pela turma de Aécio. O governador Geraldo Alckmin aparentemente joga nos dois campos, segundo a conveniência.

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Paulo Skaf, presidente da Fiesp, ganhará um ministério ou manterá suas pretensões eleitorais em São Paulo? E Marta Suplicy, recém-chegada ao PMDB, como fica?

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Em meio a feriado, cuspes, torturadores, provocadores e globais, passou sem grande atenção a entrevista que o procurador Deltan Dellagnol, um dos integrantes da linha de frente da Lava Jato, concedeu à rede inglesa BBC. Conforme disse, mude ou não o governo, os investigadores continuarão tendo muitos inimigos no poder. O procurador revelou enxergar três riscos para a operação: a perda de apoio por causa da repetição de críticas; o cerceamento das investigações por novas leis e a atuação do ministro da Justiça, Eugênio Aragão. “A única proteção que nós temos é a sociedade, eu não tenho dúvida que, de modo ostensivo ou de modo sorrateiro, diversas pessoas com poder econômico e político tentarão derrubar a Lava Jato. Somos alvo daqueles que são investigados, e o número de investigados cresce a cada dia”, afirmou.

A preocupação de Dellagnol não é à toa. Nos bastidores do Congresso e mesmo na montagem do novo governo há discussões sobre meios de dificultar as delações premiadas e de restringir as prisões preventivas.

Em contrapartida, pelo que se ouve, as dez medidas contra a corrupção, propostas do Ministério Público Federal para dificultar os malfeitos no governo, só andarão diante de muita pressão popular.

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O Supremo Tribunal Federal pisa em ovos para julgar Eduardo Cunha, Renan Calheiros e a posse de Lula. Acabará avolumando sobre o Judiciário a desconfiança que hoje cerca os outros poderes.

 

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Sobre o Autor

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Janaína Leite

Jornalista com passagem em algumas das maiores redações do país. Escreve contos e poesias e já brincou de fazer música.

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