O preço da festa

A carnavalização sem limites é um modo de não lidar com o desprezo dos governantes; a conta da festa virá nas eleições de outubro

Postado dia 12/02/2016 às 02:22 por Janaína Leite

festa

O Brasil é o país do Carnaval, afirmam desde sempre, mas talvez a frase tenha o prazo de validade vencido. Ela explica uma nação anterior às manifestações de 2013 e à Copa de 2014, quando cinco dias de feriado eram suficientes para a maioria compensar injustiças e mazelas ocorridas no restante do ano.

Não mais. A frustração diante de protestos infrutíferos e da humilhação futebolística, combinada a escândalos de corrupção e à deterioração da economia, parece ter levado os brasileiros a uma bebedeira contínua, na qual a apatia só é abandonada no ato de cerzir uma festa na outra. Assim, engolidos pelas multidões, arrastados por músicas repetitivas e protegidos por fantasias, os cidadãos brincam perigosamente com a insensatez. Sucumbiram ao conceito que a psicologia classifica como “negação”: a tentativa de afastar da consciência o que não é de seu agrado. A menos que desperte e perceba o custo do que está a fazer consigo, o Brasil ameaça tornar-se um Carnaval sem país. E só.

A negação pressupõe fechar os olhos para a crise, seus motivos, sua magnitude e suas consequências. E, o pior de tudo, posterga o mapeamento dos problemas, promovendo seu agravamento e destruindo as condições de encontrar uma possível saída. É de embasbacar, portanto, o fato de o Planalto e a equipe econômica figurarem como os primeiros a cair diante da procrastinação.

O corte das despesas do governo, que deveria ser anunciado agora, ficou para daqui a um mês. Ou seja, administraram mal os recursos do povo, criaram buracos nas contas públicas, adotaram estratagemas para maquiar os resultados, propuseram ressuscitar novos impostos para tentar consertar a própria lambança, mentiram sobre uma possível redução dos gastos com pessoal, apresentaram uma mágica questionável com o FGTS e, agora, não conseguem sinalizar aos investidores nenhuma intenção de tomar juízo. Dificilmente o anúncio dos cortes recuperaria a credibilidade de um governo que estipula metas para nunca serem cumpridas. Perdê-la parece ter sido o único trabalho consistente e inquestionavelmente bem sucedido feito por ele nos últimos cinco anos. Todavia, 200 milhões de pessoas não podem viver indefinidamente em estado de suspensão e desrespeito, com os pés fincados em um terreno de plena erosão. É preciso que seja dado um passo, ao menos um, em direção a uma mínima responsabilidade fiscal.

Enquanto isso, sambando na pista, os brasileiros financiarão seus sonhos no cartão de crédito, sob módicos juros de 411% ao ano. Ou pagarão as rodadas de cerveja com o cheque especial, à bagatela de 248% anuais. Aqueles que conseguirem manter o nome limpo carregando esses percentuais de chumbo poderão bancar o abadá endividando-se no crédito consignado (perto de 30% ao ano) — desde que consigam permanecer no emprego (22% da população ativa já está desempregada). A carnavalização sem limites parece ter sido o modo que o país encontrou para não ter de lidar às claras com o tratamento indecente que o povo recebe de seus governantes. Transformar protesto em festa é um jeito de não ter de encarar que suas reivindicações são recebidas com ouvidos moucos por seus representantes.

Quando tudo é brincadeira, o sistema de autoengano faz com que o desrespeitado também não se leve a sério. Tudo é máscara. A conta dos filhos do Entrudo chegará perto das eleições, eis o motivo da preocupação. A tendência é que a folia infinita seja compensada pela busca por estruturas e personalidades rígidas; uma simpatia à direita histriônica que se apresenta como conservadora, mas não passa de obscurantista. Se assim for, o despreparo latente e antediluviano observado no Congresso ao longo da atual legislatura acabará estendido às câmaras municipais e às prefeituras.

Tudo isso em meio a um processo de impeachment que pode ter esfriado menos do que se imagina. Se as coisas insistirem nesse ritmo, ninguém sabe o que irá desfilar na cabeça dos brasileiros, “daqui não saio, daqui ninguém me tira” ou um “paredão zangado”, “pega a metralhadora, trá trá trá trá trá”.

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Sobre o Autor

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Janaína Leite

Jornalista com passagem em algumas das maiores redações do país. Escreve contos e poesias e já brincou de fazer música.

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