O paradoxo da loucura

Em uma sociedade semidoente, discutir com louco virou normal

Postado dia 08/08/2016 às 08:30 por Tania Zaccharias

loucura

Foto: Reprodução/Internet

Semana passada eu estava em uma pequena gráfica perto de casa quando me sentei no computador ao lado de uma moça para mandar os arquivos para impressão. Ela era meio estranha e cheirava não muito bem, mas até aí tudo bem.

Depois de 5 minutos vem o diálogo:

– Você mora por aqui? (ela)

– Sim – e volto meu olhar para tela.

– E trabalha com o que?

– Desculpe, mas qual a razão da pergunta?

– É que eu tô achando você meio intoxicada…

– Eu? Do que?

– De doença!

Eita! – penso eu.

Tive um momento meio “nossa!” –  afinal eu tinha ido ao médico no dia anterior e ele me encheu de exames por conta de um probleminha de saúde recente…

Ela continua:

– Deve ser por conta dessas droguinhas que você anda usando…

Ah… Ela é maluca – penso eu novamente. Afinal eu não uso droguinhas!

E  ela segue me perguntando:

– Você tem poder para prender alguém?

– Não, não tenho poder para prender ninguém….

– Pois eu tenho! E podia te prender por conta dessas suas droguinhas…

Eu sorri!

Levantei para pegar meu arquivo na impressora e vejo senhor dono da gráfica vindo gentilmente com um papel em que havia escrito: “a moça ao lado não bate bem”.

Agradeci e respondi meio rindo:

– Ah sim, eu percebi…

– Eu fiquei com medo de você discutir com ela…

– Eu?

– É… as pessoas às vezes discutem com gente assim…

– Mas tá claro que ela não bate bem…

– Sim, mas as pessoas discutem!

– Ué, mas aí eu seria mais maluca do ela, não?

Ele me olhou com cara de ponto de interrogação.

Concluí:

– Afinal, quem é doido de verdade? A pessoa que não bate bem ou o doido que discute com ela?!

Ele riu, e disse acenando com a cabeça:

– É…

Sai de lá achando isso engraçado! Quando nos tornamos tão doentes que discutir com maluco virou coisa de gente normal? Claro que esse caso era bem exacerbada a loucura, mas em maior ou menor grau ainda fazemos muito isso – e essa é uma grande loucura!

Gente que está querendo brigar no trânsito, gente que realmente tem algum tipo de desequilíbrio, gente que está querendo alguém em quem descontar sua raiva, etc…

Pessoas de todos os tipos de “loucuras” passam por nosso caminho diariamente, e nós, os “normais”, somos tão mais malucos que entramos em suas histórias só por conta da nossa loucura normal. Qualquer um pode passar por isso. Mas raramente nos damos conta da verdade latente por trás da realidade!

Isso me fez lembrar – e rir também – de uma conversa que tive dias depois com uma amigas, em que lembrávamos das nossas histórias bizarras de situações amorosas do passado – cada uma com um tipo de cara com uma “loucura” diferente: bobo, implicante, bipolar, egoísta, grosso, etc…

Ao final de boas risadas, vinha a pergunta: “nossa, como é mesmo que fiquei tão apaixonada por aquele idiota?! ”

Cheguei à mesma conclusão: “Sendo mais idiota que eles, claro!”

Rimos muito pensando nisso… Quem é mais bobo: o ser bobo ou o outro ser mais bobo ainda que sofre por um bobo?

Bela reflexão…

Comecei a olhar isso ao redor – e perceber que o grau que separa o “maluco” do normal ou o bobo do legal – ou qualquer que seja a polaridade – é uma linha bem tênue e nem sempre estamos do lado que gostaríamos. Fato!

Ri pensando nisso ao longo da semana – e me observando e percebendo mais louca, boba ou idiota do que muitas vezes eu gostaria. Mas a vida é assim mesmo!

E você?

Já parou para pensar em qual é a sua loucura normal?

Compartilhar:

Sobre o Autor

avatar

Tania Zaccharias

Ex-menina, atual mulher "porque". Entusiasta da poesia da vida real, curiosa por tudo e sempre questionadora.

Obs: As postagens do autor são de plena responsabilidade do mesmo, o portal se isenta de qualquer conteúdo que possa ser ofensivo.

Veja mais posts deste autor

Leia também

Assine a nossa newsletter