O pai do monoteísmo

Ninguém foi tão decisivo para o povo de Israel do que o rei Josias. Ao encomendar uma edição do Pentateuco e dar o crédito a Moisés, ele transformou a crença em um único Deus em política de estado

Postado dia 07/09/2016 às 08:00 por Tiago Cordeiro

 

Josias

Foto: Reprodução/Internet

O templo de Deus em Jerusalém passava por reformas. O ano era aproximadamente 630 a.C. e Josias estava à frente do reino de Judá. Enquanto supervisionavam a obra, sacerdotes encontraram um livro – na verdade, um conjunto de pergaminhos formando cinco livros. Era nada mais nada menos do que o Pentateuco inteiro, as obras fundamentais de toda a Bíblia que teriam sido escritas por Moisés e estariam desaparecidas. De repente, a população tinha a seu dispor a história do mundo, as origens grandiosas do povo hebreu e uma vasta lista de normas de conduta. Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio: estava tudo lá, pronto.

Depois de ler as obras, Josias rasgou as roupas, rolou nas cinzas em sinal de contrição e se levantou, às lágrimas, decidido a recolocar o povo no caminho da fé. Ele se mostraria um rei importantíssimo, responsável por perseguir os politeístas e abolir todos os costumes que não estivessem previstos pelos livros sagrados.

Josias existiu mesmo – diferentemente do que a arqueologia afirma a respeito de Abraão, Noé ou Moisés. É certo que ele promoveu uma reforma religiosa profunda. Mas os historiadores em geral concordam que a lenda do aparecimento milagroso do Pentateuco é exatamente isso: uma lenda. Fica bem mais fácil de imaginar que, decidido a instaurar o monoteísmo e a reescrever a história de sua nação, Josias teria encomendado uma edição dos relatos que já estavam na boca do povo fazia muitas décadas.

A compilação final jamais teria impacto se ele apresentasse como obra sua. Daí ele ter dado o crédito a Moisés e ter tratado a obra como um texto há muito perdido no tempo. Prova dessa teoria é o fato de que, veja só, o Pentateuco inclui a profecia de que o grande rei da reforma religiosa e reunificação de todo o povo seria descendente de Davi e se chamaria… Josias.

Os hebreus haviam se dividido entre Israel, ao norte, e Judá, ao sul. Na verdade, durante o reinado de Josias, o reino de Israel já não existia mais, destruído que fora pelos assírios. Havia o temor de que Judá tivesse o mesmo destino. Portanto, era importante reunir os relatos orais que ajudavam a reforçar o vínculo do povo com sua própria história e sua religiosidade mais recente – surgidos como uma tribo do povo da Canaã, os hebreus foram politeístas por muito tempo, e com frequência, ainda sofreriam recaídas em sua relação com os deuses antigos.

O Pentateuco é obviamente uma obra bem posterior aos tempos descritos no livro em si. Abraão, por exemplo, passa por cidades como Hebron e Bersheba, que ainda não existiam na época em que ele teria vivido, por volta de 1850 a.C. Ele teria usado camelos, um animal que só foi domesticado depois. Na época o rei Josias, estes relatos eram conhecidos, mas estavam em baixa. O templo de Salomão tinha virado ruínas e igrejas erguidas para outros deuses prosperavam e atraíam multidões. Ao reunir os hebreus numa nova edição e apresentá-los com toda pompa e circunstância, Josias foi decisivo para judeus e israelitas mergulharem, de fato, no monoteísmo que hoje os define.

Josias nasceu em 640 a.C. e se tornou rei com 8 anos, quando seu pai, o rei Amom, foi assassinado. Governou por 31 anos, até 609 a.C., quando morreu em batalha contra os egípcios. Neste meio tempo, reformou o templo de Javé e mandou colocar abaixo todas as estátuas e os templos dedicados a outros deuses. Perseguiu e prendeu os infiéis mais teimosos. Em uma ocasião, mandou matar 3 mil bois para celebrar a Páscoa.

Num primeiro momento, logo após a morte do rei, a grande reforma deuteronômica foi abandonada. Mas ela já havia deixado marcas profundas no povo. Durante as muitas experiências de derrota militar e exílio, começando pelo fim do reino de Judá em 587 a.C., o povo mergulhou em definitivo no mundo de Javé, o Deus que criou o mundo, governou para todos até se cansar da humanidade e, como resultado de seu profundo desgosto, decidiu apostar todas as fichas num só povo, que nunca foi poderoso e nem mesmo fiel.

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Sobre o Autor

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Tiago Cordeiro

Pós graduado em Literatura Brasileira. Trabalhou pelas revistas Veja, Época, Galileu, apaixonado pela área de tecnologia e religião.

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