O negócio do Brasil: Portugal, os países baixos e o Nordeste

Autor Evaldo Cabral de Mello traz relatos de negociações diplomáticas e o contexto político dos países europeus à época

Postado dia 20/10/2015 às 14:16 por Leila Cabral

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Obra ao estilo clássico, assinada pelo renomado historiador brasileiro, Evaldo Cabral de Mello, ilustrada com documentos e imagens de época, é uma iniciativa inédita em meio às edições de histórias já publicadas em nosso país. O autor acessou uma variedade de fontes iconográficas do tempo, o que foi reforçado pela Capivara Editora, que contrabalançou a rudeza peculiar aos textos de história diplomática, soprou-lhe vida, forma e ainda concedeu-lhe perfil estimulante à compreensão do leitor.

O texto revela as negociações diplomáticas portuguesas no sentido de reaver o Nordeste brasileiro conquistado pelos Países Baixos, estimulando, assim, a importância de se estudar História do Brasil concomitantemente com a História de Portugal, além de expandir nossos conhecimentos em relação ao contexto político dos países europeus. Sabe-se que Portugal, uma vez liberto da Espanha, retomara as negociações para reaver “o Brasil Holandês”.

Portugal lutava contra a Espanha em sua fronteira e buscava aliados europeus para reconhecer sua independência. Assim, Portugal buscava uma aliança política com a França e a Inglaterra a fim de se defender da Espanha. A França tinha interesses em que o conflito hispanoportuguês se perpetuasse e enfraquecesse a Espanha; poderia invadir a Espanha e tomar alguns territórios de seu interesse. Ocorre que, a esse tempo, Cromwell e o Parlamento deram um golpe na Monarquia Inglesa (aliada de Portugal) e a situação de Portugal se complicou, vendo-se forçado a ceder o Nordeste aos Países Baixos, em troca de uma aliança contra a Espanha.

Lembre-se que Cromwell foi um dos iniciadores do capitalismo na era industrial da Inglaterra, tendo sido o primeiro a notar a importância de exportar produtos manufaturados ingleses, ideia amplamente apoiada pelo parlamento. Os súditos portugueses entram em guerra contra os holandeses do Brasil, reconquistam boa parte do “Brasil Holandês”, mas devido a problemas internos fracassa a armada enviada para reconquistar o Nordeste. Surge uma guerra entre Países Baixos, Suécia e Inglaterra pela conquista da navegação no Mar do Norte.

Os Países Baixos entram em dificuldades para sustentar duas frentes de batalha – no norte da Europa e em Portugal. Uma vez enfraquecida a frota marítima portuguesa, Portugal teve de se aliar a uma das duas potências navais da Europa – Países Baixos ou Inglaterra, para se defender contra eventual bloqueio marítimo espanhol. Seria ideal se pudesse fazer aliança com ambos para equilibrar poderes, mas as circunstâncias levaram Portugal a cair em mãos inglesas. Com isso, mais as ações da Companhia das Índias caindo para 3% do seu valor nominal, os Países Baixos se conscientizaram de que era melhor devolver o Nordeste a Portugal e fazer acordo que lhe concedesse vantagens comerciais tal como sua concorrente inglesa.

O Nordeste foi reintegrado ao Brasil, contrariamente a algumas versões antes veiculadas, a exemplo de: a rebelião dos portugueses no Brasil, apesar das mortes, bravura, etc. teve uma influência mínima no resultado final. Ou, então, que Portugal não cedeu à Inglaterra, por infantilidade; ou que essa era a única solução possível para manter a independência territorial portugueses. Que Maurício de Nassau não era mal visto nem pelos batavos, nem pelos brasileiros e que fora convidado a retornar ao governo brasileiro por duas vezes.

Quem conhece Evaldo Cabral de Mello sabe que é recifense, nascido em 1936, e tem por formação o curso de Filosofia da História (leia-se, Londres e Madri). Ingressou no Instituto Rio Branco, trilhou a carreira diplomática, serviu nas embaixadas do Brasil em Washington, Madri, Paris, Lima e Barbados, assim como em missões brasileiras em Nova York, Genebra e consulados gerais do Brasil, em Lisboa e em Marselha. Um dos mais valiosos historiadores brasileiros, Evaldo Cabral de Mello especializou-se em História regional e no período do domínio holandês, em Pernambuco, no século XVII, acerca do qual produziu várias obras: Olinda Restaurada (1975), Rubro Veio (1986), sobre o imaginário da guerra entre Portugal e Holanda, e O Negócio do Brasil (1998), em que analisa as características econômicas e diplomáticas do enfrentamento entre portugueses e holandeses. A Guerra dos Mascates e a rivalidade entre brasileiros e portugueses em Recife originou a obra A Fronda dos Mazombos (1995). É autor de O Norte Agrário e o Império (1984), O nome e o Sangue (1989), A Ferida de Narciso (2001), Nassau: governador do Brasil Holandês (2006), e O Bagaço da Cana (2012).

 

 

 

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Sobre o Autor

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Leila Cabral

Especialista em língua portuguesa, é também doutora em literatura e história pela Universidade de SP.

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