O Mundo Cão nosso de cada dia

Novo longa de Marcos Jorge expõe dilemas com certa leveza e muito swing

Postado dia 05/07/2016 às 09:00 por Guillermo Gumucio

 

mundo cão

Foto: Divulgação

Nada como contar uma história. Por mais surpreendente que isso possa parecer, a ausência de uma história convincente ou um roteiro cheio de furos são problemas comuns a muitas produções da atualidade. Ainda mais escassos são os filmes baseados em bons roteiros originais (como já destacamos nesta nossa resenha de Divertida Mente, por exemplo).

Marcos Jorge, diretor do precioso Estômago (2007), comédia de humor negro que merece todos os louros e lugar de destaque na cinematografia nacional recente, voltou à telona este ano com Mundo Cão. O longa ficou algumas semanas em cartaz em março em São Paulo e já está disponível na Netflix desde 17 de junho, no que representa um grande salto para o cinema brasileiro no serviço.

Além do ineditismo da janela curtíssima entre a exibição nas salas de cinema e a estreia na plataforma de vídeo sob demanda, surpreende de forma extremamente positiva o tipo de produção brasileira que a Netflix está experimentando em seu catálogo, em um movimento que ganhou contornos bastante otimistas com a inclusão do brilhante e originalíssimo Branco Sai, Preto Fica (Adirley Queirós, 2015).

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Em Mundo Cão, Santana (Babu Santana, o inesquecível Bujiú de Estômago) é um agente do Departamento de Controle de Zoonoses cujo destino o coloca no caminho de Nenê (Lázaro Ramos), um agente de outro controle, o da milícia e suas máquinas de caça-níqueis naturalmente ilegais.

Nenê é o mafioso temperamental e impulsivo de Scarface, a Vergonha de uma Nação (dir. Howard Hawks, Richard Rosson, 1932) e da versão atualizada de Brian De Palma, Scarface (1984), imortalizado por Al Pacino, que vê seu melhor companheiro no leito de morte e decide que alguém precisa pagar o preço. Esse alguém, é claro, é Santana, quem embalava o cachorro para encaminhar ao crematório, ou simplesmente estava no lugar errado e na hora errada.

Os antagonismos são uma constante no longa-metragem. Santana é o típico cidadão comum paulistano: trabalhador honesto, mora na periferia com a esposa (Adriana Esteves) e um casal de filhos, o caçula João (Vini Carvalho) e a adolescente Isaura (Thainá Duarte), esta surda-muda, dado imprescindível para o ato final da trama. Nenê vive em casa com ampla piscina em região nobre da cidade e achaca pequenos comerciantes com requintes de crueldade dignos de imperador romano. Nenê perde Nero, seu fiel companheiro canino (“um soldado”, diz a personagem no funeral doméstico), e Santana, que “apenas” cumpria seu ofício no Centro de Zoonoses, vira automaticamente nêmese e raiz de todo o mal na visão de Nenê. “Eu só trabalho aqui” poderia muito bem estar na boca da Santana na cena. Se Santana torce para o Corinthians, Nenê é palmeirense, claro. Quando medidas extremas precisam ser tomadas, Santana conta com um velho revólver 38, enquanto Nenê esbanja uma fálica pistola prateada.

São características que impõem contradições inevitáveis. O trabalho de Santana está enquadrado em um sistema de eficiência discutível e engendrado em políticas públicas igualmente polêmicas e que precisam, ao fim e ao cabo, atender a questões orçamentárias. O funcionário compreende um engenho que, ainda que seja de difícil contestação e reformulação por parte dos esforços de seu pessoal, garante o sustento da família desse empregado, que tem a sua própria cota de preocupações, como dar um bom estudo aos filhos e, principalmente, não ficar desempregado. Uma figura marginalizada na suposta igualdade de oportunidades, mas absolutamente enquadrada na lei, como a maior parte da população. Nenê não. Nenê está à margem dessa lei e não sabe fazer outra coisa que ser, ele mesmo, a própria lei. Com ordens e gritos desenfreados, Nenê não admite que os seus valores sejam contestados sob qualquer circunstância.

Santana é razoável e tolerante, como explicita a sua relação com a esposa e a igreja evangélica, onde parece frequentar apenas para conciliar seu gosto pela bateria e um tempo saudável com a família. Trajetórias aparentemente opostas que se cruzam e transformam ambas as vidas para muito pior.

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Nenê é totalmente passional, em todos os sentidos: frui o momento de ser criminoso a sangue frio, com direito às caricatas gargalhadas dos vilões de filmes B, assim como se deixa levar pelo amor à Sociedade Esportiva Palmeiras. Em uma condução familiar para quem assistiu a Alpha Dog (dir. Nick Cassavetes, 2006), Nenê passa de torturador de donos de boteco a alguém que consegue simpatizar por um menino que tem um pai que não compartilha dos momentos de lazer nem da preferência pela mesma agremiação de futebol.

O futebol, inclusive, é um elemento à parte no filme e atende a algumas finalidades. Em total consonância com a temática, os diálogos citam nominalmente “gambás”, “bambis” e “porcos” para fazer referência às torcidas do Corinthians, São Paulo e Palmeiras, respectivamente. As trajetórias em rota de colisão chegam ao cúmulo de formular uma homenagem ao já célebre plano-sequência de grande pirotecnia de O Segredo dos seus Olhos (dir. Juan José Campanella, 2009), mas em lógica inversa. No filme argentino, os personagens de Ricardo Darín e Guillermo Francella procuram um foragido como uma agulha no palheiro, no meio da torcida do River Plate, e, de fato, o acham. Em Mundo Cão, João, filho do protagonista, acredita que se perdeu de seu sequestrador quando este o havia alertado sobre as consequências brutais em tal hipótese. Para ratificar a característica de oposição das situações, a câmera de Marcos Jorge apresenta a situação para depois sair do estádio por via aérea, o exato oposto do que acontece na cena central do vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2010 que também deu fruto a um remake para o mercado estadunidense, Olhos da Justiça (dir. Billy Ray, 2015).

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O roteiro de Mundo Cão recebeu o prêmio do Concurso de Desenvolvimento de Roteiros do Ministério da Cultura, o que deve ter sido de grande ajuda para viabilizar o filme, e não foi à toa. Um enredo redondo no qual todas as pontas se ligam, ainda que é muito possível que umas quantas explicitações tenham sido feitas para entregar algo que pudesse conquistar o interesse da Globo Filmes e da Paramount.

Seria possível filmar algo extremamente sombrio e tenso com o mesmíssimo roteiro, mas a trilha, a dinâmica e as fusões entre cenas que parecem uma espécie de homenagem aos seriados policiais da década de 1970 simplesmente impedem que esse efeito seja alcançado. Talvez o que incomode em Mundo Cão é o mesmo que incomoda no também recente O Clã (dir. Pablo Trapero, 2015), ou seja, tratar um crime tão hediondo quanto o sequestro com um viés que dá chance a alguma simpatia.

Trapero faz uso intenso e constante da trilha sonora para aliviar o horror do sequestro (que, no caso da personagem da vida real Arquimedes Puccio, interpretado pelo mesmo Guillermo Francella de O Segredo dos seus Olhos, atendia apenas a interesses financeiros, diferente do que os recados de fantasioso cunho nacionalista-militar tentavam forjar), mas a música é diegética, seria artifício do sequestrador para despistar as filhas que supostamente não teriam qualquer conhecimento da atividade criminoso do patriarca da família, e é neste ponto que o filme de Trapero é imperdoável e falha miseravelmente em seu discurso.

Excetuando as cenas em que o protagonista toca bateria, não se pode defender Mundo Cão da mesma forma. A trilha no longa-metragem brasileiro parece atender apenas a fins climáticos que atenuam a intensidade da carga dramática, o que pode causar estranhamento àqueles sensibilizados com o desenrolar dos acontecimentos na trama.

Com o desenvolvimento da estória, as posições se invertem e o título se justifica. Em um mundo de valores invertidos e onde tudo é cinza, o mal não só está sempre à espreita, mas pode lhe tragar e nunca mais soltar. Os crimes ficam evidentes em Mundo Cão, os castigos nem tanto. Santana tem a sua cota significativa de perdas, mas o desfecho não é tão cruel com ele quanto é com Nenê. Atendendo a premissas fundamentais do roteiro padrão de cinema e como Chekhov já dizia, se você mostra uma arma, precisa usá-la, ensinamento que em Mundo Cão não se aplica apenas às pistolas e revólveres, mas à caixa d’água da residência de Santana, evidentemente.

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Mundo Cão é uma ótima estória para todos os públicos, que permite uma leitura mais aprofundada sobre a cidade e as ironias das políticas públicas ao mesmo tempo em que consegue entreter com ótima execução e uma produção que, por exemplo, não deixa a peteca cair nem no que tange o uso dos cachorros de grande porte, tarefa muito mais difícil do que parece. Os alívios cômicos incongruentes com a situação podem realmente irritar alguns, mas a conferida ainda será uma experiência interessante à luz da atual safra do cinema brasileiro.

Curioso notar que nesse âmbito o cineasta não tenha repetido o feito de Estômago, um retrato que pode ser considerado igualmente violento, salvo pela tortura, que não está presente no longa gastronômico protagonizado por João Miguel (Cinema, Aspirinas e Urubus; Xingu). Como contrapeso, traz em plano secundário elementos que discutem o conflito geracional entre mãe e filha e qual é o papel da religião, até onde ela deve interferir em uma família que precisa manter o sustento de alguma forma, mais um dilema no rico cardápio de questionamentos do filme.

E quem se empolgou com a trilha balançante de “Nem Vem Que Não Tem” (célebre na voz da Wilson Simonal, mas não é essa a versão que se ouve no filme) ao longo dos 90 minutos de duração, que confira Eu Sou Carlos Imperial (2014), o necessário documentário de Renato Terra e Ricardo Calil sobre o figuraça (e FDP de marca maior, como o filme deixa bastante claro) da música brasileira.

Além dos chamarizes Lázaro Ramos e Babu Santana, o filme conta com a participação de Paulo Serra, Eduardo Estrela e Milhem Cortaz, que já protagonizou O Lobo Atrás da Porta (dir. Fernando Coimbra, 2013), longa que também aborda a violência no cotidiano e cujo enredo envolve o sequestro de menor, mas sofre com a interpretação pouco convincente de Cortaz, entre outros revezes.


Mundo Cão pode ser assistido na Netflix.

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Sobre o Autor

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Guillermo Gumucio

Professor de Jornalismo e Linguagem Audiovisual na Universidade de Mogi das Cruzes (UMC). Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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