O maneta

A história de um barman espanhol, ilustra que em muitos momentos, a humanidade tomou as decisões erradas.

Postado dia 20/10/2015 às 13:58 por Fernando Maque

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Em maio de 2002, numa das minhas visitas relâmpago a Vigo, na Espanha, parei num café para tomar um… café. Eram quase 14h, o café quase vazio, reparei que o barman, um senhorzinho gordinho e simpático, tinha somente uma mão. Sim, aquele sujeito trabalhando pra burro era maneta! Usando o meu exemplar e irretocável espanhol, de causar vergonha no Universo Interplanetário, puxei conversa com ele. Era o dono.

Papo vem, papo vai, elogiei seu esforço em trabalhar, ainda mais com limitações. Falei que achava bonito, honrado, mas triste ao mesmo tempo. Foi então que ele me disse assim:

– Triste? Você acha triste? Você não sabe nada! Triste foi a maneira como perdi a mão.

Respondi:

– Por que, senhor? O que aconteceu? Caso queira contar, é claro. Se não quiser, eu entendo.

– Eu conto. Sem problemas. Eu perdi a minha mão quando levei um tiro de uma submetralhadora nazista.

Neste momento eu engoli meu café a seco. Respirei profundamente, calmo, tentando manter a sanidade sem demonstrar desespero com o que eu acabara de saber. Queria saber a qualquer custo o que tinha acontecido, ainda que ele me expulsasse do lugar. Retruquei:

– Como assim, meu senhor? O senhor foi capturado? Era fugitivo? O senhor é Judeu? Era da Resistência Espanhola [que, juntamente com a Resistência Francesa, foi responsável por desestabilizar inúmeros avanços de brigada terrestre]?

– Não. Eu tinha de 17 para 18 anos. Morávamos em Montpellier, na França. Fui parado e revistado por um pelotão na rua. Me ordenaram saudar a suástica com o braço direito estendido. Saudei, sentindo-me o pior ser humano do planeta, o mais humilhado, mas não disse o “Heil Hitler!” O soldado me perguntou por que não saudei Hitler. Respondi que havia me esquecido, que não havia feito isso por maldade. Foi então que me jogaram no chão, outros pisaram em mim. O soldado veio, pisou em meu pulso e disparou apenas um tiro, atingindo o meio da minha mão. Foi assim que eu a perdi, em plena luz do dia. E ninguém se aproximou, ninguém veio me ajudar. A tropa seguiu, me deixou ali no chão, sentado e num rio de sangue. Seguiram rápidos, já que aquilo era um crime militar: eu não era judeu, não ofereci resistência alguma. Quando já não estavam por perto, recebi ajuda de alguns que ali estavam e fui para um hospital. Mas não deu tempo de salvar minha mão. Não há um dia em que eu não me lembre do que passei e sempre que posso. Conto essa história para os outros, para que o mundo nunca mais permita que outros percam outras mãos.

Lembro-me dele também me dizendo que demorou muito para que o seu cérebro se “acostumasse” com a falta da mão. Por inúmeras vezes, ainda sentia o membro presente em seu corpo. Sempre que se apoiava sobre um balcão ou coisa parecida, quase caiu inúmeras vezes. Pensei que isso deve ser uma ocorrência comum para estes casos, pois o inconsciente deve ainda demorar para se acostumar com a falta de um membro tão importante e de uso tão recorrente, fundamental em muitas cenas.

Fiquei no café por mais algumas horas, demos boas risadas, conversamos sobre futebol (assunto que domino com a mais absoluta e vergonhosa incompetência), paguei a minha conta, prometi retornar um dia… Mas nunca mais consegui voltar àquele café para revisitar aquele simpático senhor. Nem do seu nome eu me lembro. Saí de lá pensando, cabisbaixo, há 13 anos, que a própria humanidade é uma vergonha para a humanidade. E que este tempo nunca volte.

 

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Sobre o Autor

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Fernando Maque

Filho de uma exímia pianista, Fernando tem a música no DNA, na veia e faz dela sua razão de viver. Um artista ímpar.

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