O lixo e a bolsa de reciclagem

Todos os nossos resíduos devem ser determinados como matéria-prima para que sejam reutilizados ou reciclados, ampliando-se ao máximo o seu ciclo de utilidades.

Postado dia 08/05/2017 às 08:30 por Renato Faury

Foto: Reprodução/Reciclagem

Foto: Reprodução/Reciclagem

Os recursos naturais estão se esgotando rapidamente e podem ocorrer crises de abastecimento de energia, de água, etc. Não precisamos ficar vulneráveis às condições precárias de utilização dos bens da natureza. Somos capazes de tomar medidas adequadas; se não já estaríamos extintos há muito tempo.

As crises têm o efeito de nos despertar para determinada situação (ambiental ou não) e daí podemos equacioná-la e resolvê-la. A reciclagem é uma solução, uma saída necessária para a evolução tecnológica e respeito às leis da natureza.

Todos os nossos resíduos devem ser determinados como matéria-prima para que sejam reutilizados ou reciclados, ampliando-se ao máximo o seu ciclo de utilidades.

As “bolsas de reciclagem” são um pouco de boa vontade para que cada qual disponha adequadamente os seus resíduos ou providenciem interessados para a utilização dos mesmos. Os contatos entre os interessados podem ser feitos através de uma central organizadora, que pode ser composta de sindicatos, associações diversas, Prefeituras Municipais, etc.

Como exemplo, a bolsa de resíduos da FIESP gerencia o emprego dos resíduos das indústrias associadas, mantendo os seus associados informados sobre quais os materiais e as quantidades disponíveis, locais e preços dos mesmos. Essa bolsa (associação) facilita os contatos para a utilização dos resíduos.

RESÍDUOS APROVEITÁVEIS

Na natureza nada se perde e tudo se transforma; os resíduos podem ser reaproveitados ou usados para produzir novos materiais. Por exemplo:

– PET (garrafas plásticas de refrigerantes): São recicladas para uso na construção civil (fabricação de tubulação, madeira artificial misturada com serragem).

– PVC, Poliestireno, Polipropileno: Reciclados para o mesmo uso que tinham na primeira embalagem.

– Sacos plásticos de diversos tipos: são reaproveitados para usos menos nobres, como em sacos de lixo preto, sacos para viveiro de mudas.

– Plásticos diversos misturados, com dificuldade para a separação, podem ser usados na fabricação de tábuas e aglomerados para fôrmas de concreto, tapumes ou outros materiais para uso na construção civil.

– Pneus: Já existem máquinas para moer pneus, possibilitando a sua utilização em placas de cimento/borracha, tubos para escoamento de águas pluviais, pneus intertravados para escoramento de taludes. Moído, o pneu usado pode ser adicionado ao asfalto e à borracha nova.

– Sucatas de ferro: De diversos tipos, separadas pelo teor do aço/ carbono e de outros metais presentes no aço, e enviadas diretamente para as fundições.

– Latas de alumínio: São compactadas e fundidas para fabricar novas peças de alumínio.

– Papéis: Há várias qualidades de papel e papelão que são reciclados como papelão novo, papéis para diferentes usos, como papel de embrulho, etc.

– Isopor: Pode ser reutilizado para a fabricação de blocos de cimento-isopor para paredes, estuques, lajes, isolantes de calor, plásticos.

– Material orgânico: Devido à rápida decomposição com desprendimento de cheiro desagradável e a falta de espaço nas áreas urbanas, é difícil achar uma solução diferente da coleta pública. Caso tenhamos um quintal, já é possível pensar numa pequena composteira, que, bem manuseada, não emite cheiro e permite a produção de pequenas quantidades de adubo para as plantas.

– Restos de madeiras e resíduos de jardins: Já são reaproveitados, em algumas cidades. Parte das madeiras é reutilizada na construção civil, na fabricação de utilidades ou como combustível. As madeiras não-reaproveitáveis ainda podem ser utilizadas depois de moídas e peneiradas para fabricar composto orgânico, para utilizar em parques e jardins. Precisamos estimular a mudança de hábitos em relação ao problema do lixo, promover a separação e o reaproveitamento dos materiais recicláveis na própria fonte geradora e encaminhamento dos mesmos às empresas recicladoras.

– Resíduos de hospitais, salas de curativos, ambulatórios, análises clínicas, etc, devem ser incinerados ou destinados conforme as normas específicas emanadas das autoridades de saúde e ambientais.

– Resíduos de fontes radiativas: devem ter o destino final controlado pelas autoridades e é mais preocupante porque não percebemos as radiações.

Foto: Reprodução/Lixão

Foto: Reprodução/Lixão

Lixões

Os resíduos, quando lançados sem nenhum critério e em locais impróprios, formam os denominados lixões, geralmente na periferia dos centros urbanos. O acúmulo do lixo ocasiona mau cheiro, a contaminação do solo e das águas, proliferação de insetos, roedores e microrganismos patogênicos.

Nos lixões existem diversos problemas ambientais, sendo mais visível a poluição estética do ambiente. A queima de restos de madeira, plásticos e de outros materiais combustíveis mantém sempre a fumaça poluindo o ar e minando ainda mais a já precária saúde dos catadores.

A possibilidade de apanhar materiais que possam ser vendidos atrai catadores que não têm outras possibilidades, a não ser sobreviver do lixo. Sem ter onde morar; os “sobreviventes do lixo” acampam próximo aos lixões com suas famílias, convivendo com o risco de doenças.

 

Aterro sanitário

Não é considerado sanitário nem é um processo de tratamento do lixo. Trata-se apenas de uma disposição no solo, de modo a evitar maiores danos ao ambiente, sem aproveitamento ou reciclagem dos resíduos.

O lixo é disposto no solo em camadas sucessivas de espessura predeterminada, sendo recobertas por uma camada de solo argiloso e compactado, formando células. Parte dos resíduos se decompõe lentamente sem a presença do ar e evitando o acesso de insetos e animais.

Nesses aterros, procura-se impedir a infiltração das águas das chuvas no subsolo, com a implantação de drenagem desses líquidos e do tratamento dos mesmos, para evitar a contaminação do lençol freático.

 

Gerenciamento de resíduos

Para dispor no ambiente de forma adequada a grande quantidade de resíduos gerados pelas atividades humanas, com o menor impacto possível ao meio ambiente, atualmente os antigos lixões e aterros sanitários estão sendo substituídos pelos denominados Centros de Gerenciamento de Resíduos (CGR).

São locais adequados para a recepção e destino final de resíduos sólidos domiciliares e/ou industriais, gerados nos municípios (Poder Público) e pelas empresas privadas (Comércio e Indústria).

Os principais sistemas de proteção do ambiente nos CGR são:

– camada de impermeabilização no fundo;

– sistemas de dreno de líquidos percolados, com aplicação de mantas geotêxtis, britas e tubos;

– sistemas de drenagem de gases;

– sistemas de drenagem de águas pluviais, com construção de canaletas de concreto, gabiões nos dispositivos de vazão;

– sedimentação e dissipação das águas;

– sistemas de tratamento dos líquidos percolados;

– controle de admissão de resíduos sólidos;

– fechamento e segurança das glebas;

– cinturão de área verde para proteção;

– monitoramento do maciço, da vegetação, fauna, dos gases, e das águas superficiais e subterrâneas.

Foto: Reprodução

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Cooperativa de catadores

Catadores embriagados e doentes morando debaixo de viadutos ou dos carrinhos de coleta não deveriam constar do nosso panorama social. Como é difícil a vida para essas pessoas menos favorecidas pela sorte e que contribuem com a reciclagem. No entanto, podemos fazer algo em seu benefício, organizando uma Cooperativa de Catadores, que é uma união informal ou formal que forneça benefícios aos cooperados. Muitas já funcionam em alguns municípios.

Voluntários procuram os catadores e propõem a organização dos mesmos, para reinseri-los na sociedade e providenciar a documentação para seu trabalho. Normas de conduta e de higiene são ensinadas aos catadores, para que sejam bem recebidos nos prédios onde recolhem papel e outros materiais.

Os catadores passam a serem profissionais autônomos; o rendimento é maior com a utilização de uma sede para acumular os materiais recicláveis que são vendidos diretamente às indústrias, eliminando os intermediários.

O próximo passo da cooperativa é providenciar abrigos para os cooperados, em lugares próximos da atividade, evitando que passem as noites na rua. Ajuda social, atendimento médico e dentário são outros passos para a obtenção da cidadania e de uma vida decente. Essa é a nossa responsabilidade, pois os catadores são verdadeiros agentes ambientais e vêm suprindo as indústrias com matéria-prima de baixo preço.

 

Logística reversa

Logística é o nome dado aos trabalhos de transportar e armazenar produtos dentro de uma lógica de eficiência e modernidade, de acordo com a demanda desses produtos e as possibilidades de armazenagem ou não, dentro de um equacionamento de custos. Logística reversa é a volta dos resíduos desses produtos ao ciclo produtivo; é reciclagem, e também é a restituição dos produtos não consumidos, estragados, descartados, obsoletos, das embalagens, etc…

Por exemplo, o retorno das latas de alumínio à cadeia produtiva é de aproximadamente 30 dias. Essa reciclagem, no Brasil, gira em torno de 90%. Os plásticos são reaproveitados em torno de 15%. As baterias voltam aos fabricantes porque o componente chumbo é um produto caro e o material da caixa também é reaproveitado.

Sem remuneração adequada, não ocorre o retorno de produtos e de suas embalagens. Além de legislação pertinente, é necessário haver vantagens econômicas para despertar o interesse na devolução e reintrodução no ciclo produtivo.

Novos produtos surgem no mercado e ocasionam problemas de logística reversa. Por exemplo, para cada computador produzido, outro fica obsoleto. Por enquanto ainda há o reaproveitamento de uma quantidade de computadores usados. Como recuperar os componentes dos computadores descartados para algum outro uso, para que não se tornem problemas ambientais?

Quem colocou um produto no mercado é responsável por tudo que o mesmo ocasiona ao ambiente e à sociedade, além da embalagem, do transporte e do retorno à cadeia produtiva.

 

Lixo hospitalar

O lixo hospitalar é constituído por restos de comida de doentes, luvas e pedaços de gaze sujos, seringas e agulhas e é um risco a saúde publica e ao meio ambiente. Os resíduos hospitalares em São Paulo giram em torno de 100 ton./dia. A probabilidade de uma pessoa contrair doenças transmitidas pelo lixo hospitalar é pequena, mas existe. Esse risco pode ser evitado e depende principalmente do estabelecimento de saúde que o gerou.

Os resíduos mais preocupantes são os infectantes que devem ser colocados em sacos brancos e que antes de ir para o aterro sanitário passam por micro-ondas para eliminar os micróbios. Do portão do estabelecimento de saúde o resíduo deve ir direto para uma estação de tratamento ou para um aterro sanitário dependendo do tipo dos detritos. Em nenhuma hipótese esses resíduos podem aparecer nas ruas ou terrenos.

Hospitais, casas de saúde, clinicas veterinárias, consultórios odontológicos e até lojas de tatuagem produzem lixo hospitalar e devem gerir adequadamente os seus resíduos. Mesmo o hospital que segue todas as normas de saúde pode ter o seu lixo descartado em locais inadequados por funcionários das prestadoras de serviço.

 

Leia mais sobre reciclagem: 

Lixo não existe

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Sobre o Autor

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Renato Faury

Engenheiro civil pós graduado em Engenharia Ecológica, e Assessor do meio ambiente do LIONS Internacional Governadoria LC-5

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