O livro e a fogueira

O mundo tem medo de quem escreve, porque quanto mais escrevemos mais fica claro que as palavras ditas se tornam volumosas demais para carregar a realidade

Postado dia 25/11/2016 às 08:30 por Pedro Henrique

 

livros

Foto: Reprodução

Há pouco tempo estava estudando a história da Rússia, e passando pelos horrores das décadas comunistas que se seguiram à revolução de 1917 pude constatar o medo crescente do governo frente aos intelectuais e seus escritos; em 1920 houveram grandes queimas de livros, tudo porque o partido bolchevique considerou aquelas obras “decadentes” e “contra-revolucionárias”.

Práticas semelhantes aconteceram na biblioteca de Alexandria (330 a.C), na Inquisição espanhola (1499), na Alemanha nazista (1933 em diante), entre outros casos que poderíamos citar. Ainda que cada um desses tenham sido motivados por ideologias ou concepções diferentes, com justificativas e pontos de vistas variados, eles são concomitantes no que se refere à ideia de que um livro possui em si uma alta periculosidade às ideias que se impõem naquele momento.

A realidade é que quem escreve possui em mãos um poder nunca antes nominado; a escrita carrega consigo uma arte pura, uma arma contra qual não há defesas equitativas. A articulação de símbolos, a convergência semântica, os encaixes vocálicos, gramaticais e ortográficos, são apenas alguns átomos que compõem este grandioso saber.

O que nos resta são os questionamentos: o que os bárbaros viram nos livros que o ameaçavam, o que os nazistas entenderam ser o perigo tão latente que estava em papeis tão vulneráveis e frágeis?

A escrita traz consigo um mistério. Como pode uma arma tão grande sublimar-se em um objeto tão fraco, como pode papeis tão debilitáveis tornarem-se trincheiras tão vigorosas em meio a guerras sangrentas, mísseis e bombas atômicas? Talvez seja porque o livro consegue amalgamar ideias colossais em um espaço de apenas 23,2 x 13,4[1]?

Talvez a arte da escrita esteja relacionada à guerra que não finda com um tiro, com uma bomba qualquer? Não sei ao certo, mas sei que arte da escrita vai muito além dos campos de concentração: a escrita descreve em minúcias. A escrita desnuda o imundo em formas simbólicas tão reais e cruentas que chega a ser nojento; necessariamente nojento.

Muitas obras foram elevadas a pira, trincheiras de ideias foram perfuradas e destruídas. Mas nós somos a evolução da guerra, somos os homoscriptum, aqueles que destroem ditaduras pelo poder da crítica, pelo desvelar dos lupanares da devassidão política. Somos aqueles que, depois de uma granada atirada, depois do terrível estalido de um bombardeiro e da carne perfurada, pegam a pena — ou ligam o teclado — para descrever poeticamente a dor que se sente sem poesia.

Quando calam um escritor, mil outros surgem. Se Orwell sofreu e chorou em cima de sua máquina de escrever, foi porque, quando o mundo se emudeceu frente às ideologias, quando tornou-se surdo aos gritos dos gulags, ainda sim poder-se-iam ler os protestos que não conseguiram calar.

O proibido não era fumar maconha, como nos anos 60, o proibido não era fugir com o namorado no meio da noite, o proibido era portar 1984 na União Soviética, era falar da obra Dialogo Sopra I Due Massimi Sistemi Del Mondo de Galileu Galilei na Itália católica, e defender o heliocentrismo como uma ideia plausível.

Foto: Cena do filme "1984", baseado no livro "1984" de George Orwell

Foto: Cena do filme “1984”, baseado no livro “1984” de George Orwell

As artes mais belas, por muitas vezes, foram criadas sob a luz de velas num porão sujo e escuso do mundo; numa realidade vomitada e encardida da existência. Muitos dos versos que hoje lemos comendo cookies foram escritos em jejum numa cela da Sibéria[2].

Quem já se aventurou em Ilíada, quem já passeou pelos campos do condado, quem já quis ajudar Winston e Julia a seguirem em seu romance, quem já ofereceu ajuda a Jean Valjean para carregar Marius pelos esgotos de Paris, quem já passou uma hora para entender uma página da escrita difícil e primorosa de Faulkner, esses bem sabem o que é arte.

O mundo tem medo de quem escreve, porque quanto mais escrevemos mais fica claro que as palavras ditas se tornam volumosas demais, secas demais, insuficientes demais para carregar toda a desconcertante e bela, toda suja e magnífica, toda exuberante e pestilenta realidade do mundo.

A escrita é feita de muitas certezas, certezas que se autoanulam, muitas vezes, é verdade, mas que ainda encantam e fazem seus seguidores. A escrita foi feita para todos, é uma arte que transpassa classes sociais, as ideologias defendidas e as crenças vividas.

A escrita é feita de códigos simbólicos que de alguma maneira antropomórfica — porque Deus também escreve — se avolumam aos sentimentos, à racionalidade e as intempéries tipicamente humanas. E dessa feijoada de inconsistências divinas e humanas surge, entre vírgulas e crases, consolos espirituais, respostas aritméticas e sonhos “indizíveis”.

Para que soubéssemos que a biblioteca de Alexandria foi incendiada foi necessário que um escritor nos contasse; para que a salvação se fizesse real no cristianismo, o Verbo se fez carne.

[1] Citando as dimensões do catálogo das obras, e comentários às obras, de Eric Voegelin pela editora É Realizações.

[2] Referência à obra Recordação da Casa dos Mortos de Dostoievski, que foi escrito quando estava em seu exílio na Sibéria.

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Sobre o Autor

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Pedro Henrique

Pedro Henrique, filósofo, ensaísta, crítico social, estudioso de política e palestrante

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