O julgamento dos partidos

Impossibilitados de condenar os esquemas, enredados nas teias do compadrio, os poderosos de Brasília parecem ter aberto mão de qualquer pudor

Postado dia 23/10/2015 às 11:42 por Janaína Leite

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“Friné em frente ao Areópago”, 1861, Jean-Léon Gérôme.

Chamava-se Frinéia e a sua beleza transbordou o tempo, imiscuiu-se na história e chegou até poetas como Olavo Bilac. Cortesã de muitos encantos. Foi levada a julgamento por incitar os maus costumes entre os mais importantes cidadãos de Atenas. Seu advogado, Hipérides, sentiu que a condenação era certa. Partiu para o tudo ou nada. Arrancou o manto que cobria o corpo perfeito da hetaira, apresentando-a nua diante dos julgadores, todos velhos conhecidos de seu leito. “Tende piedade para com a beleza!”, clamou, enquanto todos os outros calavam-se, extasiados. Quando os homens recobraram a fala, bradaram a sentença: “Absolvida! Absolvida!”

Basta ler as notícias dos últimos dias para concluir o óbvio: a Frinéia brasileira chama-se corrupção. A grande prostituta parece ter seduzido a República a tal ponto que os Três Poderes estão paralisados diante de sua nudez, sabedores que são de seus próprios pecados. Quem terá a coragem e a lisura para condenar aquilo que lhes encanta? Mais fácil que as vozes entrem em uníssono para livrar a corrupção de ser punida.

A personagem que me interessa mais nessa analogia, porém, não é a prostituta de luxo e sim Hipérides. Impossibilitados de condenar os esquemas, enredados nas teias do compadrio, os poderosos de Brasília parecem ter aberto mão de qualquer pudor. Escolheram advogar abertamente em favor da corrupção, desnudando-lhe apenas para que sua opulência cause espanto em quem a vê.

Assim, bilhões e milhões desfilam diante da nação, assumindo a forma de porsches, apartamentos, contas suíças e tudo o mais que serve de adereço ao novo-riquismo burro e fútil que grassa por estas bandas.

Resulta que nós, os de fora da festa, também admirados, sucumbimos junto com os corruptos à paralisia sem que tenhamos as benesses destes últimos. Narcotizado, o povo passa de escândalo em escândalo sem perceber, misturando os fatos a boatos, os bons valores aos malfeitos, as análises ao opinionismo. Brasileiros gostam de novela, dizem, e a Esplanada oferece um bom enredo. Pouco se nos dá que as instituições estejam sendo arrebentadas e a economia apite no fogão, prestes a espalhar fogo em tudo. Podem até nos tirar o pão, desde que exista o circo.

Mas, se não ganhamos nada com isso, se a Babalon tupiquinim está fora do nosso alcance, por que permitimos que essa loucura continue? Por que não vamos às ruas quando o Executivo anuncia que torrou nosso dinheiro e agora ele irá faltar, quando as votações no Congresso parecem uma imitação ruim das peças do Zé Celso, quando o Judiciário usa o legalismo para justificar a protelação de assuntos urgentes? Até que ponto a crise terá de chegar para que as pessoas ditas minimamente esclarecidas deixem de usar a internet como um vomitório de suas frustrações e saiam às ruas para clamar o respeito que lhes é devido?

Falta-nos oposição e liderança, argumentam uns. Sim, é certo, e esse não é um problema exclusivo do Brasil. A cientista política belga Chantal Mouffe, por exemplo, em seu livro “Sobre o Político”, defende que o avanço das ideias liberais, as quais prezam o individualismo e a racionalidade, resultou no enfraquecimento da demarcação entre esquerda e direita, segundo ela necessário para levar adiante o rito político na democracia. Em outras palavras, quanto mais autônomo é o pensamento de uma pessoa, menos ela estará sujeita a transferir seu poder ao Estado e menos desejará identificar-se com um determinado partido.

“Fala-se muito em ‘diálogo’ e ‘deliberação’, mas qual o significado de tais palavras no campo político se não existe nenhuma escolha real ao nosso alcance e se os participantes do debate não são capazes de decidir entre alternativas claramente diferenciadas?”, pergunta Mouffe. Boa questão. O que dá relativamente certo na economia dá certo na política?

Talvez seja precisamente aí que o maior partido de oposição, o PSDB, e seus aliados se perderam, abrindo um vácuo que permitiu uma folga demasiada à base e ao partido do governo, o PT. Se a Rede de Marina Silva não se cuidar, seguirá pelo mesmo caminho.

O resultado foi o descalabro institucional em que nos encontramos. No Brasil, a despeito das guerras eletrônicas tribais, direita e esquerda inexistem. Tudo é um grande bololô em que os interesses individuais e pontuais sobrepõem-se a uma linha ideológica.

Onde estão os oposicionistas? O senador Aécio Neves, com 51 milhões de votos, sumiu do mapa. O senador José Serra também. O governador Geraldo Alckmin reproduziu o PT federal criando uma republiqueta paulista e sopesa cada palavra em relação ao governo. Sobra Fernando Henrique Cardoso, sempre ele, para fazer o contraponto. Não basta. Marina Silva concedeu uma entrevista contundente há alguns dias, mas foi covarde ou errou na estratégia, ao preferir falar para um veículo pequeno e não para a grande mídia. Do jeito que vai é o partido do governo que joga dos dois lados do campo, fazendo uma surreal oposição a si próprio.

Resta aos economistas a ocupação do espaço político. Henrique Meirelles, Armínio Fraga e Gustavo Franco estão afiando as facas, deverão falar em breve publicamente. De novo: não basta. O efeito de imagem que isso causa é o da união da banca financeira versus a patuléia. O espaço de enfrentamento é o Legislativo e não há como a oposição se eximir disso sem pagar o preço do esfacelamento.

Só há um caminho a seguir, o povo nas ruas pressionando seus representantes a desempenharem suas funções a contento. De maneira organizada, as pessoas precisam manifestar suas preferências em relação ao governo. Apoiadores de um lado e oposicionistas do outro, cada qual a cobrar de seus parlamentares uma ação conforme a linha de seu partido.

É bom que isso aconteça antes que as forças que prezam a organização e não lidam bem com o rocambole, como o Exército, considerem que essa bagunça traz risco e sintam-se tentadas a interferir no processo. Ou que a carnavalização da política brasileira chegue ao estágio de louvar publicamente a corrupção. Como os antigos, que à época da morte de Frinéia tomaram seu corpo como molde para erguer uma estátua de ouro em Éfeso, louvando-lhe as virtudes.

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Sobre o Autor

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Janaína Leite

Jornalista com passagem em algumas das maiores redações do país. Escreve contos e poesias e já brincou de fazer música.

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