Homem, o mais divino dos animais

Nenhum outro primata pode chorar com uma poesia. Nunca um macaco poderá sentir o nó na garganta após ouvir um concerto de Bach

Postado dia 07/11/2016 às 09:05 por Pedro Henrique

homem

Foto: Reprodução

O homem sempre foi um objeto de disputa na filosofia. Desde a Paideia até o indivíduo utilitarista Stuart Mill, sempre encontrou muitas definições, funções e aporias na constituição de si próprio. Muitas teorias tentam explicar aquilo que é do homem, suas características principais, suas atribuições mais basais e aquilo que faz em suas atuações mais intrínsecas.

No entanto, no último século, e especialmente a partir de Darwin, iniciou-se um movimento de animalização do homem; tudo baseia-se em aproximar o máximo possível o homem do animal. Não que sua origem não tenha sido o reino animal; Aliás, não que ele não seja de fato um animal, apenas paramos de admitir que ele é um animal esplêndido, totalmente diferente em suas capacidades de interação, intelecção e ética.

Não se trata de discutir se o homem veio de um anfíbio, de uma ave ou de um primata comedor de banana, ou se surgiu do barro africano sendo moldado pelas mãos de um Deus. Creio que, na verdade, Deus tem muitas formas de falar. Em suas muitas formas de didática, dirigidas a Moisés e seus profetas por volta de 1000 anos a.C, ele não apresentou nenhuma aula de biologia genética ou de história das espécies.

Um milagre não deixa de sê-lo se leva um segundo ou um milhão de anos para se concretizar; se o homem veio do barro ou das algas marinhas, não importa neste texto, o que importa é que ele veio com uma capacidade totalmente espetacular e diferenciada de qualquer outra espécie.

Não importa como ele evoluiu, e não me importa agora de qual primata viemos, o que me importa é mostrar-lhes que nenhum outro primata pode chorar com uma poesia, nenhum orangotango pode olhar formas geométricas num papel, formas estas que engendram uma sonoridade em nossas mentes e um calor em nossa alma, levando-nos a desfrutar de um êxtase quase que nupcial entre o espírito e o belo.

Ao findarmos tal experiência, nos deixamos contaminar por uma emoção sem igual, quando Flora morre em seu leito ensolarado, deixando Pedro e Paulo à mercê de suas brigas políticas; quando Jean Valjean, andando com Marius Pontmercy nas costas, atravessa todas as vastas canaletas de esgoto de Paris, com o único e suntuoso intento de ver vivo aquele que outrora o perseguia. Nunca um macaco poderá sentir o nó na garganta após ouvir um concerto de Bach, ou lacrimejar após assistir o pôr-do-sol ao lado de sua amada. O filme Planeta dos Macacos foi feito por uma inteligência humana, acreditem ou não.

O que eu quero salientar aqui é a divindade na racionalidade e na constituição mais profunda do homem; desde a superfície mais mesquinha de nossos egos defeituosos, até os mais cavernosos assentamentos de nossa existência divinizada, existe algo que nos torna mais que meros animais errantes, mais que instintos em busca de metas pré-determinadas.

O fato mais simples que podemos constatar é que os humanos pré-históricos desenhavam cavalos nas paredes das cavernas. Isto significava que eles davam valor aos cavalos. Por mais assustador que possa parecer, cavalos não desenham humanos em seus estábulos, e devemos nos conformar a isto. “A arte é assinatura do homem”[1].

Não que os animais, sendo inferiores a nós enquanto matéria racional, nos autorizem a sermos desumanos com os animais. Todavia, não devemos ter vergonha de reafirmar nossa grandeza humana peculiar, ser mais que mero animal não desumaniza o que já não é humano.

O que eu quero afirmar neste artigo é que devemos nos dar conta que a humanidade é sagrada, e que mesmo por entre tropeços nojentos e atitudes abjetas, nossa razão, que já amontoou corpos com escolhas erradas, é capaz de amontoar belezas com as escolhas certas. A beleza de ser humano jaz na grandeza de sermos livres.

Enquanto os cisnes são livres em suas determinações instintivas, nós somos mais que mero instinto: somos a fusão de vontade e racionalidade, desejo e valores. O cachorro, quando está no cio ele não pode escolher não coabitar; cruzar com a fêmea é uma necessidade e um imperativo cravado em sua condição de ser cachorro. Nós, diante de uma mulher nua, podemos nos recusar ao coito. Isso porque damos sentido aos nossos atos, somos mais que meros instintos sexuais.

O animal não ama, pois somente quem é capaz de escolha também é capaz amar, somente quem pode escolher não trair sua esposa é capaz de amar além do sexo casual. O ser humano, em algum momento estranho da história das espécies, resolveu cruzar aquela pirambeira da existência, em algum momento o homem foi capaz de ousar escolher ser mais que instintos e pré-determinações.

Em algum momento estranho, diante de uma bela mulher nua, o homem resolveu não acasalar, pois decidiu que era o momento de iniciar uma vida casta e regrada. Neste estranho momento, o homem tornou-se mais que um lobo, mais que um cervo. Só os homens escolhem livremente não transar.

As filosofias modernas tentam nos mostrar um homem animalizado, bruto e banal, ao mesmo tempo sensível o suficiente para não comer um bife em favor de uma vaca; homem que tornou-se capaz de falar com samambaias e ignorar mendigos. O homem que, cada vez mais animal, esqueceu-se de pensar no ser humano. Confesso que a humanidade muitas vezes nos enoja. Eu lido com o ser humano diariamente em minhas reflexões e, deveras, muitas vezes da vergonha de ser dessa espécie.

Lembro de Hitler e me dá vontade de desistir da humanidade, mas o que ele fez senão desistir da humanidade e taxar os judeus de animais? Simplesmente não posso desistir da humanidade. Ora, para 2 Hitlers que nasçam, que venham mais 30 Madres Teresas; que para 10 Stalins que surjam, que venham mais mil São Franciscos de Assis.

Se amanhã eu achar que sou apenas mais um animal, talvez apenas esteja preparando desculpas para mais campos de concentração – afinal, o que foram campos de concentração senão matadouros para humanos?

O risco de não sermos superiores aos animais é amanhã nós sacrificarmos nossos filhos que estão com catapora com a mesma desculpa que usamos para matar cachorros com raiva. Talvez, amanhã, alguma ONG naturalista de defesa dos animais proponha trocarmos os camundongos de laboratórios por fetos descartáveis ou órfãos esquecidos. Afinal, não somos mais que meros animais.

[1] CHESTERTON, G. K. O homem eterno, Ecclesiae: Campinas, 2014, p. 38

Compartilhar:

Sobre o Autor

avatar

Pedro Henrique

Pedro Henrique, filósofo, ensaísta, crítico social, estudioso de política e palestrante

Obs: As postagens do autor são de plena responsabilidade do mesmo, o portal se isenta de qualquer conteúdo que possa ser ofensivo.

Veja mais posts deste autor

Leia também

Assine a nossa newsletter