O futuro é uma incógnita

O PMDB sai da sombra; o PT luta para manter cargos e o foro privilegiado; o STF tem julgamentos importantes pela frente

Postado dia 18/04/2016 às 16:45 por Janaína Leite

PT

Foto: Reprodução/Internet

O Brasil está nas mãos do PMDB e do Supremo Tribunal Federal. Entre eles, a sombra de elementos imponderáveis: a atuação coordenada dos movimentos sociais e a ofensiva das operações Lava Jato, Zelotes e Acrônimo. A vitória da oposição na Câmara para levar adiante o processo de impeachment era previsível, mas o que vem por aí parece ser bem menos. É agora, só agora, que o jogo esquentará de verdade.

O PMDB é uma legenda imantada ao poder, uma força imensa e elástica em todos os sentidos. Sua capilaridade é impressionante: o partido fez o maior número de governadores e prefeitos nas últimas eleições. Sua bancada de deputados federais é atualmente a maior da Câmara, ocupando o lugar que o PT tinha antes de várias desfiliações ocorridas desde o ano passado. Também está em primeiro lugar quanto às cadeiras existentes no Senado.

Os peemedebistas foram os que mais arrecadaram dinheiro para a campanha de 2014, quando nem tinham candidato próprio à presidência. Contam hoje com o apoio do agronegócio, setor em alta que tem tudo para substituir as empreiteiras, seriamente atingidas pela crise e pelas denúncias, como grandes contribuintes eleitorais. O PMDB também cultiva a simpatia do empresariado, por meio das entidades representativas da indústria.

Há 30 anos, os peemedebistas fazem parte de todos os governos, valendo-se de uma estratégia simples: seus caciques atuam com relativa liberdade, simulam rachas e colocam um pé em cada canoa das disputas. Quando percebem qual delas não afunda, saltam para junto dos vencedores e deixam os ocupantes da embarcação estropiada debatendo-se sozinhos.

Até aqui, o PMDB atuou como coadjuvante, primeiro do PSDB e depois do PT, porque sua atuação maquiavélica na política não era acompanhada de um nome carismático o suficiente para disputar eleições majoritárias, nem de cabeças técnicas que montassem um plano de governo expressivo, capaz de cooptar o mercado financeiro, como os tucanos fizeram. Também não tinha a habilidade de imiscuir-se entre os movimentos sociais e nas rodas de formadores de opinião, como os petistas.

O cenário mudou. A apresentação do documento intitulado “Uma Ponte para o Futuro”, em outubro do ano passado, foi o início de uma campanha muito bem calculada para a derrubada de Dilma Rousseff e a chegada do vice-presidente, Michel Temer, ao poder. O rompimento entre o PT e o PMDB, aliás, era outro ponto bastante previsível. Se os petistas não estivessem tão perdidos, tentando se proteger dos petardos da Justiça, teriam percebido antes. O mapa das eleições de 2014 deixou claro que o PT só ganhou nos lugares em que fechou uma associação com os peemedebistas — o PMDB não tinha motivos para continuar carregando um peso morto, que ainda por cima lhe dava ordens.

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O sucesso na traição de Dilma levará aos atos finais de uma batalha interna do PMDB. A ala governista do partido, encabeçada pelo presidente do Senado, Renan Calheiros, sofreu na votação do impeachment pela Câmara um revés bem maior do que imaginava. Jader Barbalho entregou ao governo os votos que prometeu, mas o clã de José Sarney trabalhou ativamente pelo impeachment. Romero Jucá é hoje o grande vencedor no Senado, o que torna o espaço de manobra de Renan aparentemente limitado. Entre lutar e adaptar-se, talvez o parlamentar alagoano fique com a segunda opção.

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Os petistas, aliás, não foram os únicos a reagir às pretensões de Michel Temer. A ala do PSDB ligada a Aécio Neves tomou um banho de água gelada. O senador mineiro só perdeu terreno desde 2014, exatamente pela recusa em fechar uma aliança que o afastasse da corrida presidencial. Quem avançou foi o PSDB de São Paulo, em especial José Serra, aliado de primeira hora de Temer. Os ganhos de Geraldo Alckmin ainda não estão claros, mas o governador paulista tem bom trânsito nos mesmos meios que Temer.

O apoio de Michel Temer torna-se a cada dia um fator mais do que importante na definição do candidato tucano à presidência.

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Há uma pedra no caminho de Temer, contudo. O vice assinou a liberação de pedaladas, assim como fez Dilma Rousseff. Um processo de impeachment a ser aberto depois que ele assumir a presidência seria plenamente justificável, por exemplo. E o Tribunal Superior Eleitoral tem o poder de cassar o mandato dele e de Dilma, caso acredite que dinheiro sujo de corrupção envolvendo a Petrobras tenha irrigado a campanha de 2014.

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A atuação dos movimentos sociais também é um obstáculo no caminho de Temer. O PT volta à oposição e isso lhe dará liberdade para atuar no enfrentamento como sempre agiu, inclusive contra si próprio. De modo que o estrangulamento financeiro desses movimentos, por meio de atos do Executivo, e limites ao seu modo de atuação devem vir com força nas discussões do Congresso.

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Michel Temer deveria procurar Pedro Malan, o ministro da Fazenda nos anos FHC. Se há alguém que sabe como é sofrer a resistência implacável do PT, é ele.

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A história dá voltas e eis que dois nomes expressivos no impeachment de 1992 voltaram aos holofotes neste impeachment de 2016 – o do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e do presidente do Senado, Renan Calheiros. Os dois peemedebistas são responsáveis pela condução do processo de afastamento da presidente da República no Legislativo. Os dois ao longo dos anos foram pivôs de vários escândalos de corrupção e atualmente são acusados pela Lava Jato.

Os dois foram aliados do governo do PT. O primeiro virou oposição e o segundo, até aqui, mantém-se na base. Isso explica a diferença de tratamento que Cunha e Renan têm recebido da esquerda. Enquanto o deputado é tratado como o pior dos demônios, símbolo de tudo que há de ruim no Brasil, o senador é malandramente esquecido, tido como um mal necessário para prorrogar a vida política de Dilma Rousseff. Os governistas revoltados com a hipocrisia do Legislativo, por exemplo, em nenhum momento preocuparam-se em chamar Renan de ladrão ontem nos microfones.

Continuará assim, caso Renan afrouxe sua lealdade?

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Poucas vezes na história um político foi obrigado a aguentar sem reagir a tantos insultos quanto Eduardo Cunha ontem, na votação do impeachment. O homem é mesmo frio como uma geleira da Antártida. Mas o mundo está em pleno aquecimento global. Dependendo do que acontecer com seu mandato, em perigo por causa da Lava Jato, e da observação dos rumos de Delcídio do Amaral, o senador petista que delatou meio mundo, Eduardo Cunha pode começar a pensar ele mesmo em fazer um acordo com a Procuradoria.

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A votação do impeachment no plenário da Câmara foi um gigantesco espelho colocado diante dos brasileiros. A profusão de partidos nanicos, os políticos histriônicos e seu português sofrível, a carnavalização do voto, a total falta de um ideário entre os partidos – tudo saltou aos olhos de uma classe média urbana e minimamente intelectualizada, que acostumou-se a discussões na internet restritas a “Fora, Dilma!” ou “Fica, Dilma!”.

Para quem conhece os bastidores de Brasília, no entanto, inexistiu surpresa. O baixo clero sempre foi composto de pessoas com ternos mal ajambrados e cabelos acaju, uma gente vulgar que compensa a falta de esclarecimento e de conhecimento com esperteza. São peões no jogo político do Congresso, mas detêm poder nos grotões do país de onde vem. Conservadores no que diz respeito a direitos individuais, atuam em nome de Deus e da família mesmo na hora de suas piores traições.

Chocou-se apenas quem só conhece pobres de vitrine, aqueles que surgem maquiados em propagandas eleitorais. Esses deputados são a face de um país que vive imerso em um capitalismo de compadrio, com gritantes índices de analfabetismo funcional, onde Wesley Safadão é o primeiro nas paradas, igrejas pentecostais avançam para formar “nações” e a chamada elite acadêmica vive em uma bolha ideológica, insistindo em chamar de golpe um processo ordenado pela Constituição, no qual o Parlamento vota e os ritos têm a chancela do Supremo Tribunal Federal.

Um país sem educação é medíocre. Seus representantes também. A sensação de impunidade e insegurança faz com que os votos sigam para radicais; a fragmentação excessiva dos partidos e o quociente eleitoral arrastam ao plenário figuras que, em um sistema melhor idealizado, jamais estariam ali. Por fim, um Congresso acostumado a votar em troca de mensalões e petrolões não precisa ter o preparo e a dignidade necessárias a um Legislativo que efetivamente discuta propostas. Torna-se, tão somente, um covil.

Isto posto sobre o baixo clero, parece óbvio que a qualidade dos cardeais da política, aqueles que comandam o jogo, também caiu. Esse é o lado ruim que acompanha propostas juvenis como “tem de trocar todo mundo”. O Congresso é uma máquina. Não basta que os ocupantes de suas cadeiras sejam bem intencionados; precisam também ser conhecedores de suas engrenagens, ou ela não anda. Tal conhecimento só é obtido a partir da convivência entre inexperientes e experientes. É daí que pessoas como o Eduardo Cunha tiram a sua força – eles conhecem os meandros que os recém-chegados sequer imaginam.

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O Superior Tribunal Federal tem em suas mãos o destino de Eduardo Cunha, Renan Calheiros, Luís Inácio Lula da Silva e da própria Dilma Rousseff, uma vez que a batalha jurídica em torno do impeachment será grande. Precisa agir o mais rápido possível. A permanência de Cunha é uma mancha nas atividades diárias do Congresso. A de Renan também. (A de Delcídio do Amaral não fica por menos, mas seu acerto com o Judiciário já aconteceu, agora são seus pares quem devem julgá-lo.)

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Se Dilma Rousseff perder o mandato, muita gente perde o foro privilegiado. O PT fará tudo que estiver ao seu alcance para impedir tal coisa.

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Novas eleições? Interessa para Lula, Aécio Neves e Marina Silva. A Rede, aliás, partido desta última, mostrou na votação do impeachment que em política os insultos e os afagos trocam de lugar rapidamente. A decisão de liberar a bancada, na prática, foi benéfica à Dilma Rousseff e ao PT, aqueles que lançaram várias mentiras contra Marina em 2014. Para um partido que dizia-se diferente dos demais, a Rede pareceu tão frouxa quanto os tucanos, tão fisiológica quanto o PMDB e tão sem compromisso com a verdade quanto os petistas.

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A Lei de Responsabilidade Fiscal, uma das mais importantes em termos de administração pública, precisa valer de fato e não só para Dilma Rousseff. Que a votação de ontem abra caminho para os órgãos de fiscalização de Estados e municípios sigam os passos do Tribunal de Contas da União e lutem contra gastos excessivos e a maquiagem das contas públicas. Responsabilidade orçamentária já!

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Sobre o Autor

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Janaína Leite

Jornalista com passagem em algumas das maiores redações do país. Escreve contos e poesias e já brincou de fazer música.

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