O fim de tudo

O livro do Apocalipse ensina que a vitória de Deus não será fácil nem imediata. E que o planeta vai sofrer verdadeiras convulsões antes que os justos sejam glorificados

Postado dia 30/01/2017 às 08:30 por Tiago Cordeiro

apocalipse

Foto: Reprodução – Os quatro cavaleiros do Apocalipse

É difícil pensar numa mitologia religiosa que não inclua batalhas entre o bem e o mal. Gigantes parceiros da humanidade contra monstros que querem nos destruir – geralmente, de povos centenários da América do Sul a civilizações milenares do Sudeste Asiático, os seres que não gostam de nós são retratados como variações de répteis, principalmente cobras ou dragões.

Em muitas religiões, a própria fundação do mundo acontece como resultado de alguma luta épica, no melhor estilo Os Vingadores. Não na Bíblia cristã: os seguidores de Jesus mantiveram o texto sagrado do judaísmo, que tem início com um Deus único e, aparentemente, solitário. Ele cria tudo com o poder de sua palavra. Mas os cristãos tiveram a sacada de garantir um final apoteótico para essa história. Se o início é pacífico, o fim vai ser violentíssimo.

O Apocalipse é creditado ao apóstolo João e descreve, com uma riqueza de detalhes maravilhosa, a luta decisiva entre Deus e o diabo, que vai revirar o planeta do avesso. O autor diz estar na ilha da Patmos e endereça sua carta às “sete igrejas da Ásia”. Nelas, descreve uma série de visões proféticas lindíssimas.

Logo no primeiro dos 22 capítulos, a descrição do ser que mostra as visões a João é de perder o fôlego: “E no meio dos sete castiçais um semelhante ao Filho do homem, vestido até aos pés de uma roupa comprida, e cingido pelos peitos com um cinto de ouro. E a sua cabeça e cabelos eram brancos como lã branca, como a neve, e os seus olhos como chama de fogo; E os seus pés, semelhantes a latão reluzente, como se tivessem sido refinados numa fornalha, e a sua voz como a voz de muitas águas. E ele tinha na sua destra sete estrelas; e da sua boca saía uma aguda espada de dois fios; e o seu rosto era como o sol, quando na sua força resplandece.”

O livro segue explicando como Deus, acompanhado de animais com seis asas e 24 anciãos sentados em 24 tronos, precisará da ajuda do Cordeiro para romper os sete selos que lacram um livro sagrado. Quando ele abre os selos, liberta quatro cavalos, um branco, um amarelo, um preto e um vermelho.

“E, havendo aberto o sexto selo, olhei, e eis que houve um grande tremor de terra; e o sol tornou-se negro como saco de cilício, e a lua tornou-se como sangue; E as estrelas do céu caíram sobre a terra, como quando a figueira lança de si os seus figos verdes, abalada por um vento forte. E o céu retirou-se como um livro que se enrola; e todos os montes e ilhas foram removidos dos seus lugares.”

Enquanto isso, os justos vivos são marcados na testa e os mártires mortos esperam, impacientes, o momento da justiça divina. Sete anjos tocam trombetas que exterminam árvores e animais em quantidades capazes de enlouquecer um ativista do Greenpeace. Na sequência, os pecadores que não foram marcados são torturados por gafanhotos gigantes, do tamanho de cavalos, com rosto de homens, dentes de leão e cabelos de mulheres, ao longo de intermináveis cinco meses. “E naqueles dias os homens buscarão a morte, e não a acharão; e desejarão morrer, e a morte fugirá deles.”

É curioso o quanto a humanidade sofre nas mãos de anjos, e não de demônios. Quem pecou é torturado por anjos que circulam sobre cavalos que cospem fogo e enxofre. O dragão vermelho de sete cabeças e dez chifres, por exemplo, é rapidamente derrotado quando tenta comer o filho da mulher vestida de sol, tendo a lua sob seus pés. Aqui, como na Bíblia em geral, a mensagem é coerente: Deus é todo-poderoso e temível para quem não obedece a seus mandamentos. Seu maior alvo nem mesmo é a besta que representa o demônio, mas as pessoas que insistem em segui-lo, em adorar falsos deuses, em roubar, em fornicar fora do casamento.

O livro é coerente com o momento em que possivelmente foi escrito: o fim do século 1, quando ainda se esperava que Jesus fosse voltar a qualquer momento e os judeus tinham sido massacrados em Jerusalém – e seu templo, destruído mais uma vez, agora para sempre. As visões que ele proporciona encantam os maiores mestres da literatura desde então. E continuam estimulando profetas de todos os estilos, de pastores do século 21 até o Antônio Conselheiro, que em Canudos prometia uma versão curiosa para o fim: o sertão vai virar mar.

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Sobre o Autor

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Tiago Cordeiro

Pós graduado em Literatura Brasileira. Trabalhou pelas revistas Veja, Época, Galileu, apaixonado pela área de tecnologia e religião.

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