O filósofo conservador                 

O filósofo conservador é aquele que não deixa que aglomerações de apaixonados lhe convença de algo

Postado dia 11/11/2016 às 09:00 por Pedro Henrique

 

filósofo

Foto: Reprodução

O bom de ser conservador no Brasil é que você sempre terá que conhecer as mais variadas matrizes opinativas, isto é, prós e contras as suas convicções. Isto é um imperativo para quem se considera conservador — pensando o conservadorismo como uma condição de ser, e não como estereótipo político ou casco partidário. Se és um conservador brasileiro, então é preciso conhecer com certa destreza as posições argumentativas de Leonardo Boff, por exemplo, é preciso conhecer bem Paulo Freire e todo seu catecismo pedagógico, é preciso conhecer o ecumenismo/sincretismo enfadonho de Frei Beto, justamente porque é muito fácil estes indivíduos tornarem-se diretrizes de provas e assunto de jantares de “inteligentinhos”. Agora, pensem comigo, quando que uma prova do ENEM, por exemplo, citará Visconde de Cairu, Joaquim Nabuco, Nelson Rodrigues e João Camilo. Quando que abordaremos, por exemplo, a perspectiva de ideologias políticas nas concepções de Eric Voegelin em nossas escolas; a crítica ao pensamento universitário em Thomas Swell em nossas universidades; poderiam imaginar um tema que abordasse a crítica à teoria de gênero em Camille Paglia em nossa mídia?

Pois é, enquanto nós conhecemos muito bem as teorias de nossos oponentes ideológicos — por interesse, às vezes; por necessidade, quase sempre —, eles mal sabem conceituar o conservadorismo sem ligá-lo burramente ao fascismo e ao nazismo. E, quando fazem tais ligações, ainda saem com peitos estufados achando que conceituaram com maestria aquilo que não conhecem nem por fagulhas. O típico conhecer por reflexo; o típico, e já gasto, conhecimento de superfície.

Quanto mais passa o tempo, mais eu me convenço que ser conservador não é uma escolha política, é uma necessidade contemporânea. Ou sou conservador e mantenho a sanidade do real, ou me perco em meras modinhas momentâneas e costumes efêmeros ditados por megas corporações e mídias compromissadas a montarem seus próprios status quo. O que mais existe, atualmente, são teorias que mais parecem pirotecnias filosóficas feitas para agradar doutores, do que reais reflexões que buscam chegar a uma conclusão sensata sobre um fato observado. Deus não permita que eu faça filosofia para agradar partidos, egos e diretrizes de falsas tolerâncias; Deus permita que eu nunca seja um filósofo de holofotes e de aplausos militantes. O filósofo não nasceu para ser aplaudido, o filósofo nasceu para incomodar com suas reflexões, para mexer nas bases das convicções cegas e, por vezes, mostrar que ser revolucionário em busca de miragens trata-se de uma insanidade adolescente, não de um ato de crítica e mudança de paradigmas.

Quando um filósofo começa a ser ouvido ele ganha seguidores, admiradores e inimigos. Mas nunca um verdadeiro filósofo, comprometido com aquilo que ele conheceu e admitiu como verdade, se deixará conduzir por vontades doutrinadoras, por poderes monetários ou utopias políticas. Um verdadeiro filósofo não vende sua consciência para agradar grupos politizados, um verdadeiro filósofo não deprava suas ideias em troca de sorrisinhos, tapinhas nas costas e lugares de honra em comícios. Feliz do pensador que não se adéqua aos gritos de guerra e nem precisa levantar punhos cerrados para convencer seus seguidores da grandeza de suas ideias.

O filósofo, para mim, é um homem que senta-se diante da realidade crua, nua, fétida, pútrida e com isso ele lida diuturnamente; é com isso que ele vai trabalhar, é isso que ele irá nos descrever e por vezes propor um caminho de sanidade. Sim, ele proporá soluções, mas o conservador será consciente que sua solução não é imaculada e nem a única, é apenas mais uma tentativa — a mais certa de todas, é óbvio —, mas apenas mais uma.

O filósofo é um bom homem sentado numa poltrona, com um bom cachimbo na boca e uma boa caneca de cerveja belga nas mãos, olhando para a realidade numa serenidade desconcertante e, por vezes, numa profunda depressão sem igual. O filósofo conservador é aquele que não deixa que aglomerações de apaixonados lhe convença de algo, é antes papel dele convencer a eles que militar sem conhecer é burrice. O filósofo conservador, por fim, é aquele que conhece ambos os lados do debate, e por conhecer ambos os lados sempre opta pelo lado certo.

Só sabendo o que há além das duas portas poderão dizer qual delas é a melhor escolha. É justamente este o problema do brasileiro, ele engendra todas as suas forças militantes numa marcha convicta rumo à porta larga dos militantes, dos gritos histéricos e dos diretórios políticos; fazem isso jurando conhecer a verdade. Mal sabem que a verdade está além da porta estreita do conhecimento e do ardor pela sabedoria; mal sabem eles que é mais fácil optar pela porta estreita depois que se conhece a militância burra da porta larga, mal sabem eles que a estreiteza da porta do conhecimento é justamente estreita porque não foi feita para militantes e multidões ideologizadas, mas para os obstinados homens de valores e virtudes que, diante de suas consciências solitárias, optam pela prudência e sensatez da realidade sem histeria.

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Sobre o Autor

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Pedro Henrique

Pedro Henrique, filósofo, ensaísta, crítico social, estudioso de política e palestrante

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