O divórcio

O divórcio é infantil. É protagonizado por dois adultos que se tornam crianças brigando por um pirulito

Postado dia 01/06/2016 às 07:30 por Fernando Maque

divorcio

Foto: Reprodução/Internet

Antes de qualquer coisa, quero registrar: se o seu caso em específico não estiver relatado, descrito, ironizado ou lamentado, nada posso fazer. Sei que muitas são as razões para se divorciar, mas não consigo pensar em todas. Porém sei também que muitas são as razões para não fazê-lo.

A minha intenção não é ser preciso. Minha intenção é ser o mais abrangente possível, além de poder revigorar todo o meu lado maldoso e sarcástico falando deste assunto tão infantil. Sim, o divórcio é infantil. É protagonizado por dois adultos que se tornam crianças, brigando, muitas vezes, por aquele pirulito que é mais vermelho do que o outro.

Crianças são amigas, brigam, choram, brigam um pouco mais, ficam com saudade do amigo, esquecem e voltam a serem amigas. Adultos não, adultos se divorciam.

Pode ser infantil, mas o divórcio não é uma coisa simples. Nem de longe. Puxa vida, poucas vezes vi um assunto ser tão profícuo e ter tantas atenuantes. Explica-se agora o fato de termos advogados especializados somente nessa passagem desgraçada da vida de alguns. Como a minha, por exemplo.

Por outro lado, escrever sobre o divórcio, ou mesmo defini-lo, também pode ser simples.

Tenho uma amiga psicóloga, uma pessoa incrivelmente inteligente e de uma sagacidade imensa, também divorciada, que uma vez me disse que o divórcio nos causa um luto. Que a sensação que sentimos é a mesma da perda. Quando alguém morre mesmo.
A dor relatada por ela, através de sua vivência profissional, compara-se àquela separação causada sem querermos de fato. Isso nos causa uma frustração imensa e temos um grande trabalho para lidar com ele – esforço dobrado para superar todas as fases de um divórcio conturbado. Sim, “divórcio conturbado”, porque se não for conturbado não é divórcio, é separação mais que amigável com “pegas remember de transa enlouquecida pro resto da vida”.

Sendo assim, logo pensei no divórcio como um velório. Mas sem o morto morrido. Ele até está presente na “cerimônia”, mas está morto de uma outra maneira. É um defunto que não fede, que respira, que fala, que anda, mas que já não mais consideramos vivos em nossa história futura. Página virada, livro lido e esquecido na biblioteca, filme já assistido.

Farei o seguinte, facilitarei a minha própria vida e da vocês; escreverei sobre o divórcio em tópicos, em suas causas possíveis. Caso falta algum motivo causador ou se eu não relatei abaixo a sua causa, me perdoe. Meu leque de desgraças não é tão grande assim.

O divórcio causado por morte

Isso não é divórcio… é viuvez. Mas se você já desejava livrar-se do infeliz ou da “maldita”, conseguiu, deu sorte, sem muito esforço. De qualquer maneira é um divórcio forçado. A vida os divorciou e deixou assim uma lacuna insubstituível. Não que tenha sido bom, mas que nunca mais se apagará. Divórcio causado por morte é um luto dobrado. Chora-se duas vezes: Uma por que morreu e outra porque não tivemos a oportunidade de nos divorciar dizendo todas os xingamentos e as bobagens que desopilam nosso fígado numa mistura de vingança, alívio e prazer sórdido.

O divórcio causado por uma traição

Ah… o mais comum, e o mais controverso. O traidor ou traidora negará até o último suspiro da sua existência que não o traiu. E pior, se não negar, dirá que foi você mesmo o causador da traição pois dará 491 razões do porque você é o causador da desgraça. No fim, além de ser traído você carregará, na boca do outro, geralmente na boca da manicure mequetrefe da esquina, a sua “culpa”.

A traição é algo curioso realmente. Costumo dizer que trair é que nem matar, dividida em 3 estágios:

A sensação de trairmos pela primeira vez é a de que matamos um homem. Nossa! A culpa é avassaladora. É como se tivéssemos tirado a vida de alguém e tudo o que ela poderá conquistar um dia na vida. É uma sensação pesada, triste, fica-se com a impressão de que todos estão nos olhando, que estamos sendo seguidos.

A sensação de trairmos pela segunda já é bem diferente. É como se tivéssemos matado não um homem mas sim uma galinha. Tadinha. A culpa é menor. Galinha não persegue ninguém e nem se vinga. Fica um pouco mais fácil.

Agora, depois da terceira traição, a sensação é de que matamos um  pernilongo. Matamos e ainda nos sentimos poderosos, mostramos pra todo mundo que somos os “fodões” e que “com a gente é assim mesmo, nóis mata sem dó”.

O divórcio causado por traição talvez seja um dos mais tristes, porque a outra parte ainda amava o traidor. É pega de surpresa e, atônita, tenta inutilmente entender o que aconteceu. E o perdão, apesar de ser um dos mais lindos ensinamentos de Cristo, é algo quase impossível. Como perdoar aquele safado??? Aquela safada que o trocou por outro? Como? Realmente é algo até impensável e que exige um grau de elevação espiritual quase divina.

O divórcio causado por uma traição abre espaço para um sentimento novo, difícil de sentir mas que estará enraizado em seu coração para sempre: a desconfiança. E se o amor é quase todo ele baseado em confiar no outro, isso se desfaz quase que para a eternidade.
Eu iria escrever muito mais sobre o divórcio causado por uma traição, muito mais, mas eu me cansei só de pensar nas muitas situações e por si só este tópico daria uma crônica. Seguimos em frente.

O divórcio causado por desgaste natural

Os dois são pegos de surpresa. Ambos são surpreendidos por uma onda de problemas em que a solução torna-se praticamente invisível de se ver e se aplicar e então tomam o caminho mais fácil, erroneamente pensado como se fosse o mais simples; recomeçar tudo de novo com um outro alguém.

Os arquitetos dizem que é mais barato e mais fácil derrubar uma casa inteirinha, pô-la abaixo literalmente, do que reforma-la. Senhores arquitetos, em verdade lhes digo; só na arquitetura mesmo.

Recomeçar dá um trabalho de vida que só vendo. É complicado achar alguém que seja compatível novamente com você, enfim, trabalho e mais trabalho. E pior, depois de um divórcio o nosso “pacientômetro” diminui consideravelmente, fazendo com que não tenhamos mais “saco” nem tampouco disposição para joguinhos, insinuações e conquistas baratas.

O desgaste natural às vezes é identificado por um dos parceiros mas já não se vê, além dos problemas, uma forma de conversar sobre o assunto, uma maneira de um dos lado ceder sua razão, mesmo que a tenha, em prol do casal.

Mas aí entraremos no âmbito do ego e definitivamente, eu tenho mais o que fazer do que perder o meu tempo escrevendo sobre o ego alheio. Já o meu eu não suporto, que dirá o dos outros.

O divórcio causado pela re-adolescência

Esse é o mais engraçado de todos. Disparado.

Engraçado porque não há coisinha mais ridícula do que aquela senhora, entre os seus 40 e 60 aninhos, já um tanto passada pelos anos vividos para não descrevê-la como um maracujá de gaveta de geladeira, já um tanto assim digamos, murcha, querer se passar por gatinha.

E pior, vê em seu atual marido um velho caquético, acabado, com sua virilidade já nem tanto nas alturas e assim, acha que está muito mais nova, diz que sua libido a está chamando para uma vida de aventuras sexuais, ilude-se achando que ainda tem muita vida pela frente e o que ela quer mesmo é pegar na mão do Zeca Pagodinho e “deixar a vida me levar”. Briga, bate o pé, se divorcia, xinga até a quinta geração do infeliz, fica com mais da metade dos bens do caquético, vai no shopping e compra roupinhas que cairiam como uma luva para a sua neta-sobrinha. Triste. Virou a famosa “perigosa”, piriguete idosa.

E então sai na balada usando seu salto 12 com aqueles dedinhos todos espremidos, já todos repletos de joanetes e calos mal-tratados, tentando rebolar o que um dia já foi uma bunda – e, pior, pendura-se no primeiro gatinho mais novo e sai pagando tudo o que o rebento deseja. E claro, tudo isso com o dinheiro que ela extorquiu do caquético (lembram-se dele?).

Vamos agora falar do homem re-adolescente? Um dia ele se levanta, com aqueles restinhos de cabelo ralinhos. Todo espevitado, vai cambaleando ao banheiro. Olha para o espelho, encolhe a barriga, põe as mãos na cintura e diz: “Vou me divorciar!” Pronto, já se decidiu. O homem que resolve ser adolescente novamente e ser livre pra mudar o mundo à sua maneira decide mais rápido do que escolhe se quer o x-salada com ou sem maionese.

E ele faz isso com uma facilidade que é de dar até inveja. Comunica a esposa, que, sem entender nada, pensa que isso não passa de uma crise existencial mal curada e daqui a pouco cairá em si mediante a sua infantilidade. Comunica a filha com um “tô na pista filha, avisa as suas amiguinhas, rá” e o filho ele nem avisa porque esse aí aprenderá com o pai como é que se faz pra “ser feliz na vida”.

_Vai vendo o papai filhão, é assim ó: Tá viva e com mais de 40 quilos? Dá no coro da mulherada filhão! ”.
_Mas a mãe tá sofrendo, pai.
_Cala a boca moleque! Não fala assim da sua mãe. Ela tá bem.

Mas a coisa complica quando ele aparece com uma novinha qualquer, matematicamente calculada para ter a metade da idade da ex-esposa, e que conheceu numa das baladinhas que foi com os novos amigos – sim, novos, pois todos os outros ainda estão casados e alguns deles invejando-o e pior, incentivando-o a viver mesmo a sua vida e a ex que se lasque, ainda que seja a sua própria irmã. Sim, porque cunhado é impressionante. Ele tem uma habilidade quase que profissional pra ser um filho da puta traidor da família. O cara trai, rouba, mata, esquarteja, larga a irmã na sarjeta da amargura, mas não larga do cunhado.

Se este homem soubesse na verdade o quão ridículo é voltaria com o seu rabo entre as pernas, e pediria desculpas à sua esposa, que inclusive aguentou esse tonto a vida inteira, ainda mais do que sua própria mãe.

O divórcio causado pelos filhos

Dizem que filhos não seguram um casamento. É verdade. Mas também não é de todo errado dizermos que alguns filhos aceleram bastante a desunião de um casal. Isso geralmente acontece quando os filhos decidem tomar partido do pai ou da mãe numa briga, desavença familiar ou por pura e simplesmente polemizar porque criança e adolescente quer mesmo é falar e ser ouvido. Ainda que o que tenha para dizer seja uma imbecilidade sem tamanho.

Muitas vezes os filhos, inadvertidamente, incentivam a razão dos pais dando-lhes coragem para seguirem em frente com suas opiniões, visto que, numa vida em comum, é fundamental que retrocedamos vez ou outra, mesmo que tenhamos razão. Por mais que estejamos certos, às vezes não vale à luta tentar convencer o outro. Vale simplesmente ceder, em prol de ambos, em prol da união. Ou seja, “estou certo por nós dois”.

Mas não é assim que os filhos veem a situação, pois ainda não se casaram, ainda não cresceram, ainda não sabem da vida um quinhão para opinar e nem tampouco escolher um lado da briga.

É fundamental que os pais ensinem seus filhos a enxergarem os seus limites e além. Ensiná-los a calarem suas bocas no tempo certo, pois “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. E não é porque a colher está na cozinha que os filhos podem enfiar onde entenderem que deva.

Filho é filho. Casal é casal. Família é todo juntos.

E por fim, o último e mais triste de todos. Aparentemente sem razão para existir. O mais silencioso. O mais tenebroso, o câncer na vida de um casal.

O divórcio causado pela falta de fé um no outro

Ah, tantas coisas já ouvi sobre divórcios. Tantos amigos. Tantos que nunca pensei que passariam por isso. Tantos que já me surpreenderam pois, eu entendo eu mesmo me divorciar 10 vezes mais jamais acreditaria que “aquele” casal fosse um dia se divorciar.
Mas existe um momento em que, por qualquer razão, perdemos a fé no outro, no que o outro pode nos proporcionar, na sua força de trabalho, na sua cumplicidade, na sua querência em estar em nossa companhia, perdemos a fé de que aquele escolhido não é mais assim, tão herói e nem se parece mais tanto com quem a gente escolheu um dia.

Mas ainda mais triste é quando isso acontece numa via de mão única, quando somente um percebe que não acredita mais no outro. Não acredita pura e simplesmente em suas palavras, não é isso. Quando não acredita que seu par caminhará ao seu lado rumo à tão sonhada felicidade.

Geralmente, quem mais sofre é quem ainda tem fé. Sofre muito quem ainda acredita ser capaz de salvar seu casamento. Sofre dores lacerantes de alma quem ainda fica na casa, com seus restos de “um dia fomos tão felizes aqui”. Sofre uma dor quase incompreensível e insuportável quando uma pessoa amiga, no intuito de ajudar, pergunta o porquê da separação e você não tem essa resposta na ponta da sua língua porquê da sua boca, só o que sai é saudade.

Quem perde a fé vive bem. Vive mal quem ainda tinha fé de que aquele casamento era uma promessa cumprida, era um compromisso com a vida do outro e assim lá estava você fazendo jus à Deus e honrado sua palavra de pessoa de bem. Ou pelo menos tentando ser uma pessoa do bem.

Num divórcio, seja ele da natureza ou causa que for, todos perdem. Ninguém ganha. Nunca ninguém ganha. Quem ganha é o advogado, o juiz, os funcionários do fórum, o escrivão, dono de cartório e outros interessados. No mais, todos perdem.

A família perde. Os filhos perdem. Os pais perdem. Os amigos perdem. Todos perdem.

A ruptura é sempre um trauma. Nunca em tempo algum uma ruptura fez-se sozinha. Ou, se precisou de outro para se formar, não será sozinho que será completo, inteiro, pleno, um todo.

 

Eu perdi a fé no casar. Não em mim, e muito menos na minha capacidade de fazer alguém feliz ao meu lado. Essa capacidade eu sei que tenho; ela pode não ser a mais feliz ao meu lado, mas com certeza será a que mais rirá com meu característico e muitas vezes inconveniente bom-humor.

Eu perdi a fé no casamento. Mas não porque é uma instituição familiar incompatível com a atualidade, com a modernidade e outros argumentos, e sim porque eu me casei para estar casado uma única vez na vida. Eu só me casei uma única vez. Nunca mais me casarei diante de Deus pois não saberia fazer a mesma promessa duas vezes e não ser capaz de cumpri-la. Essa frustração de uma promessa não cumprida a Deus eu já carrego comigo há anos. Eu não saberia fazê-la novamente.

Quando eu estava ajoelhado, no altar, recebendo as bênçãos de meus convidados, padrinhos, pais, sogros, padre e acima de tudo, de Deus, eu prometi à mim mesmo; “Eu farei de todo o meu impossível para que esta união dê certo meu Deus. Acredite em minhas palavras e no meu desejo em meu coração.” E assim o fiz.

Mas o que eu não considerei, o que me falhou à atenção foi que para que desse certa essa minha promessa, para que eu pudesse cumpri-la, eu dependia de outra pessoa. Eu me esqueci, não me atentei a este pequeno e crucial detalhe e vivi o mais amargo divórcio que poderia ter vivido. Eu morri e renasci ainda vivo. Eu me tornei minha própria saída. Eu tomei como ar meu próprio último folego. Mas infelizmente, eu perdi a fé, a minha fé.

O Bono me disse que um dia eu a recuperarei da minha falta de fé num casamento. Que eu preciso amar o meu amor próprio e assim, tudo um dia voltará, que a fé voltará.

Nos dias atuais casar-se é ainda muito comum. E eu acho isso maravilhoso.

Eu mesmo presencio muitos casamentos. E mais, sou a voz da trilha sonora de muitos casais, de muitos sonhos, de muitos pombinhos num começo esperançoso de uma vida em comum.

Mas não há uma vez em que não observo os casais enquanto canto, e lá de cima do palco pego-me pensando numa frase que de tanto medo que me causa, penso cada vez mais baixo e cada vez mais olho para os lados, para todos os lados, apavorado, temendo que alguém descubra o que estou pensando naquele exato momento.

E esta frase me perseguirá no meu próprio viver, até o último dia da minha vida.

_ Será?

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Sobre o Autor

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Fernando Maque

Filho de uma exímia pianista, Fernando tem a música no DNA, na veia e faz dela sua razão de viver. Um artista ímpar.

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