O discípulo esperto

Os estóicos suportavam todos os sofrimentos. Em tudo que acontecia, eles procuravam observar o significado em termos de evolução e aperfeiçoamento espiritual

Postado dia 13/06/2016 às 07:30 por João Anatalino

estoico

Foto: Reprodução/Internet

O estoicismo é uma escola de pensamento fundada em Atenas por Zeno, também chamado Zenão de Cítio, no início do século III a.C. Sua filosofia era essencialmente naturalista. Ensinava que todo bem e todo mal são apenas uma consequência da forma como interpretamos os acontecimentos. Os estoicos suportavam todos os sofrimentos. Em tudo o que acontecia, eles procuravam observar o significado em termos de evolução e aperfeiçoamento espiritual. Estudiosos sustentam que o cristianismo, em sua mais original concepção, na sua pureza primitiva, pregada por Jesus, é uma forma de estoicismo.

Uma lenda conta que Zeno costumava ensinar seus discípulos com exemplos vivos de comportamento estoico. Ele usava a chamada estratégia peripatética para transmitir sabedoria. Essa técnica exigia que as aulas fossem dadas em movimento. Assim, Zeno e os discípulos saíam a caminhar pelos campos, muitos quilômetros por dia, no decorrer dos quais ele ia mostrando como a natureza atua para gerar, desenvolver e manter a vida.

Certa vez ele saiu com seus discípulos para uma dessas caminhadas. Ao iniciá-la, pediu para cada um deles pegar um grande e pesado tronco de madeira para carregar nos ombros durante o percurso todo. Ele mesmo pegou um deles e saiu. Aquele tronco, disse ele, simbolizava o peso da vida, que todos somos obrigados a carregar.

E assim saíram, arrastando seus fardos pelos campos pedregosos, com um sol escaldante a queimá-los. Um dos discípulos, achando insuportável o peso, na primeira parada que fizeram para descansar, se afastou do grupo, e sem que ninguém o visse, cortou com sua espada um pedaço do tronco, tornando-o mais leve. Na segunda parada, e na terceira, cortou mais dois pedaços, fazendo com que ele ficasse bem pequeno e leve. Orgulhoso da sua esperteza misturou-se aos demais discípulos, zombando intimamente deles, ao ver suas costas dilaceradas. “Bando de tolos”, disse para si mesmo. .

Era quase noite quando chegaram á margem de um rio. Logo avistaram, do outro lado, um magnífico jardim, que aos olhos de todos pareceu o lugar mais lindo da terra. Ali reinava a mais perfeita paz e a mais sublime felicidade.

“Do outro lado deste rio” disse Zenão, “estão os Campos Elísios (o paraíso grego). “ É para lá que eu os estou conduzindo. O paraíso é o prêmio dado a todos aqueles que aprenderam a carregar o fardo da vida com sabedoria. Todos vocês podem passar para o outro lado e ganhar o prêmio que conquistaram. Mas cada um só pode atravessar o rio usando como ponte o seu próprio tronco.”

Todos conseguiram atravessar, menos o discípulo esperto, porque seu tronco não deu para cobrir o vão até a outra margem do rio.

 

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Sobre o Autor

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João Anatalino

João Anatalino Rodrigues é bacharel em Direito e Economia e Mestre em Direito Tributário e escritor com 10 publicações autorais.

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