O dever do orgasmo

Atualmente observamos discursos que falam que temos mais liberdade sexual, mas será mesmo que temos?

Postado dia 07/12/2016 às 09:00 por Priscila Andrade

orgasmo

Foto: Reprodução

Esses dias, deparei-me em com uma foto em uma rede social com os seguintes dizeres:

“Não finja orgasmo, deixa o homem saber que transa mal”.

Fiquei refletindo sobre essa postagem e lendo os comentários, as mulheres ovacionaram essa publicação, apontaram e falaram os nomes dos homens dos quais provavelmente não obtiveram o orgasmo.

Mas será mesmo que a culpa é apenas do homem? De ambos?  Ou de toda uma situação em que há uma supervalorização do ato sexual, o que implica o orgasmo ser obrigatório?

Não estou com isso protegendo os homens, pelo contrário como educadora sexual sou a favor da igualdade de gênero, seja ela qual for.

Como se sabe, sexo ou melhor, o ato sexual, só é bom se houver entendimento por parte das duas pessoas – em sua maioria – então se não houver diálogo, entrega e conversa com o parceiro a relação sexual não será como se esperava.

A imposição do orgasmo vem de uma situação bem mais complexa. Com a revolução sexual a mulher se viu no direito de sentir prazer, só que esse prazer estava condicionado ao orgasmo. A revolução veio, mas as mulheres não conseguiram se livrar das amarras do machismo, pensamentos como “o que ele vai pensar? ”, ainda povoam as mentes das mulheres. Junte-se a isso a cobrança da mídia, revistas, sites com matérias que dizem “Como conseguir orgasmo mais fácil” ou “10 dicas para ter orgasmo”.

Sendo assim, na cabeça da mulher ela tem a obrigação de ter esse orgasmo, ficando como espectadora da sua vontade, para agradar a todos menos a ela. A cobrança não é só por parte das mulheres, os homens também são cobrados nesse sentido, eles precisam se mostrar viris e não ter uma ejaculação precoce, caso contrário também sofrerão, ou seja, a tal liberdade sexual só funciona com algumas exigências.

Não há uma fórmula mágica para atingir o orgasmo, ninguém é igual a ninguém.  Libertem-se do que a sociedade prega como correto, pensem em vocês, masturbem-se, busquem o que lhes causa prazer, transmitam isso aos seus parceiros, conversem, conduza-os as partes que te excitam, deixem os preconceitos e tabus “fora do quarto”. O corpo é imensamente suscetível ao prazer e esse prazer não está condicionado apenas à genitália.

Essa busca incessante pelo orgasmo só prejudica e faz com ele nunca aconteça, com isso a mulher se frustra e acha que o problema é com ela ou com parceiro. Sexo vai muito além da penetração e do orgasmo, onde há obrigação não há prazer.

E outra coisa, é preciso livrar-se da exigência dos que dizem que toda a mulher precisa ter orgasmo toda vez que transa. Há muito mais no sexo que um mero orgasmo.

Para finalizar deixo uma citação de Roberto Curi Hallal “as vezes pleno, o prazer é inconstante, insone; outras irrigador das partes áridas do corpo de quem descobre de novo pela primeira vez. Às vezes perfume, bebida, praia, jeito de olhar ou lembrança; outras, é sorriso, queixo, ombro, boca ou uma nova forma de gozar”. Com isso entendemos que o prazer não se resume ao orgasmo, e sim a uma possibilidade imensa de situações. Não há regras, há apenas subjetividade, então relaxem e aproveitem o momento.

Obs: Nem sempre quando o homem goza é sinal que ele teve orgasmo, mas isso a gente deixa para outro dia.

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Sobre o Autor

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Priscila Andrade

Professora e Educadora Sexual. Pedagoga e Mestre em Educação Sexual,

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