O desconhecido

Uma crônica bem humorada que aborda o tema da inclusão digital, afinal, se não estou on-line, quer dizer que também não estou em casa, estudando, ou qualquer que seja a ocupação... apenas não mais existo

Postado dia 28/10/2015 às 11:26 por Écio Diniz

Arte e foto por Matias SIerra

Arte e foto por Matias SIerra

Caros amigos, como podem ver ao ler este texto, mostro-me inteiramente vivo com as faculdades mentais em plena obra. Não divagarei aqui acerca de como vai minha vida, pois, ela não mais interessa visto que eu não faço parte de um conglomerado digital que tanto os agrada, percebo não só isso como também não sou mais convidado para o churrasco de sábado por não ter visto e clicado “irá comparecer” numa página de internet.

Lembro-me vagamente quando um amigo me ligou e conversamos 30 minutos sobre como estavam as coisas e para minha surpresa recebo a notícia que ele agora é um cidadão digitalmente incluído, chocado ao ouvir que eu não tinha criado nenhum “perfil” para mim, desligou e nunca mais me ligou. No curso da faculdade as pessoas me olham estranho, na sala o mais corajoso se aproximou de mim e disse: “Ei, dizem que você é aquele que não tem conta no…” – antes de terminar eu já balançava a cabeça negativamente, o rapaz levando a mão à boca com um olhar aterrorizado e incrédulo pôs-se a correr.

Dias depois não só minha sala como toda a faculdade se desviava de mim no corredor, na biblioteca e até mesmo no refeitório. A coisa começou a ficar feia quando fui chamado à reitoria e todo o corpo docente estava reunido juntamente com alguns agentes do governo que me fizeram duas perguntas: -“Qual é seu nome de usuário?”, “Quantos megas tem sua banda larga?”- inconformados com minha resposta julgaram-me louco e por isso vos escrevo, depois de uma série de exames comprovadamente fui absolvido de loucura, porém, já não sou mais bem visto por vocês, afinal não possuo contas na internet e se não estou on-line, quer dizer que também não estou em casa, ou estudando ou qualquer que seja a ocupação… Apenas não mais existo.

Minha história se espalhou e as crianças do meu bairro não se aproximam de mim, ouvi uma mãe dizer ao filho: -“Compartilha logo isso, se não o homem sem facebook vem te pegar e te levar para um mundo onde só existem livros e interação com pessoas de verdade”- o garoto chorou muito e “compartilhou” e “curtiu” muitas coisas. Mas eu não me importo mais, hoje converso com alguns vizinhos mais velhos que também não tem um “perfil” e eles gostam de saber meu nome e convidam-me para jantar às vezes, o engraçado é que depois de jantar lemos um livro ou dividimos o que fazemos no nosso dia a dia e os vizinhos já ligaram para a polícia pensando se tratar de uma seita nova onde pessoas de verdade juntam-se para conversar, o que é uma coisa totalmente incomum.

Bom em todo caso, hoje meu vizinho vai tocar violão e vamos cantar ao redor de uma fogueira no seu jardim, mas estou preocupado pois sei que não vou conseguir “curtir” ou “compartilhar” isso por muito tempo.

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Sobre o Autor

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Écio Diniz

Écio Diniz é jornalista atuante, formado pela Universidade Brás Cubas, gosta de história

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