O delicado som do trovão do Liturgy

Um panorama da transformação promovida em três álbuns.

Postado dia 05/01/2016 às 00:00 por Guillermo Gumucio

liturgy

Não importa o quanto alguém não suporte o que é considerado bossa nova, é necessário que ela confira Chega de Saudade, sua fundação e estreia de João Gilberto em full-length próprio. Não importa o quanto alguém não ature jazz elétrico, seria interessante que se deixasse nocautear pela pancada de Tribute to Jack Johnson de Miles Davis e perceber a revolução causada por Teo Macero em matéria de engenharia de som. O mesmo pode se dizer de discos tão diferentes entre si quanto Jardim Elétrico, Disraeli Gears, Space Ritual ou A Love Supreme, entre muitos outros. Às vezes, há trabalhos que são de tão difícil definição quanto surpreendentes, obras que desafiaram convenções e mostraram que havia um novo caminho a ser percorrido, um novo horizonte a ser almejado.

Em 2009, os trinta e oito minutos de Renihilation mostravam quatro rapazes de Nova Iorque que, sem sombra de dúvida, se encaixavam na cartilha do black metal: vocal gutural, bateria desenfreada, muitas batidas por minuto e temas com os quais o público do gênero já está familiarizado, com músicas como “Pagan Dawn”, “Ecstatic Rite” e “Beyond the Magic Forest” (o título mais ingênuo já usado pela banda, quase uma piada de conto de fadas à luz do rumo que a viria a seguir posteriormente). Os timbres do disco não eram exatamente novos e o furor causado pela coesão da banda ficou essencialmente concentrado na cena nova-iorquina. O bumbo duplo de Renihilation, por exemplo, pesado e brutal como deve ser, mas com um tipo de grave que não seria mais ouvido nos trabalhos subsequentes do conjunto. Considerando o que os ouvidos poderiam capturar, tudo parecia dentro dos conformes, salvo por determinadas introduções que pareciam um tanto quanto deslocadas do âmbito obscuro do gênero.

E então Aesthethica foi lançado em meados de 2011. Não houve quem ouvisse o disco sem ficar com uma fileira extensa de interrogações pairando sobre a cabeça. Como estes caras fizeram isto? Como é possível ser tão cativado por algo tão repetitivo? Como alinhar tão bem todos estes elementos em perfeita simetria em um cenário de apocalipse sonoro? Por mais desatenta que fosse a audição, a analogia era óbvia: se tratava de um disco de metal extremo fundamentado em música minimalista. Behemoth com Philip Glass. Burzum meets Steve Reich. A tese é tão coerente que basta olhar para a capa do disco, principalmente para o uso da tipografia, e aí não restará mais dúvida.

aesthethica

O segundo álbum completo do Liturgy é, em todas as linhas, um verdadeiro manifesto em prol do que mais deveria importar em qualquer cenário: a música. Aesthethica é a anulação de qualquer radicalismo, a negação total e completa de qualquer atitude que extrapole as barreiras sonoras pelo diagnóstico preciso de que, afinal de contas, há muito se trata apenas de demonstrações pré-fabricadas e infantis de figurantes que insistem em incorporar uma personagem para que essa imagem seja vendida ao seu público. De qualquer forma, até quando segue alguns dos vulgos mandamentos do black metal, o Liturgy parece fazê-lo sem querer, satirizando a iconoclastia no gênero, como atesta o nome “Hunter-Hunt Hendrix”, seu líder e fundador. Em entrevista concedida ao Metalsucks.net em 2009, o músico sintetizou: “será que o black metal é tão antirreligoso?” Talvez seja anticristão, às vezes. Não conheço muita coisa de black metal que não seja pagã, panteísta, thelemita, satânico ou qualquer outra coisa do tipo. Ou seja, a cena black metal é essencialmente um culto e eu acho que há certa novidade no cristianismo em particular, em parte por se tratar de um alvo tão fácil”.

Após a vinheta de abertura “High Gold”, que introduz o ouvinte à jornada de descoberta musical de Aesthethica, uma rápida microfonia e os rápidos acordes de “True Will” já mostram um som muito mais coeso do que aquele de Renihilation, e as mudanças na dinâmica já começam a aparecer no segundo segmento deste primeiro turbilhão da música extrema no disco. A volta aos coros introdutórios sinaliza para que a banda desfira mais uma avalanche.

Na primeira faixa instrumental do álbum fica notório o didatismo a respeito de conceitos minimalistas que o Liturgy tenta pregar. “Generation” é toda calcada na repetição da mais simplória das frases em mi que uma música pesada pode ter, o efeito hipnotizante do riff por compassos e mais compassos faz o mais incauto dos ouvintes notar e fruir as ligeiras variações na base da harmonia e vibrar com as mudanças claras no ritmo e dinâmica da bateria.

“Sun of Light” traz mais uma dessas melodias de guitarra nas quais o Liturgy parece ter se especializado, de bom gosto e que de alguma forma estranha encaixam perfeitamente com os burst beats (termo cunhado por Hunt-Hendrix que poderia ser definido entre o tradicional blast bleat do black metal com as variações de dinâmica propostas pela música minimalista) e também com o gutural. A segunda metade de Aesthethica ganha um corpo muito mais denso, talvez por mérito de todo o trabalho desenvolvido na primeira parte do disco, com “Veins of Gold” sendo outro grande destaque do álbum, com diversas camadas sonoras e dinâmicas mais cadenciadas.

Com presença na lista de melhores discos de 2011 em duas das maiores e mais influentes publicações de música do mundo, Spin e Pitchfork, a merecida coroação veio da mais improvável das fontes. No último programa daquele ano, o podcast da editoria de música do The New York Times reuniu vários de seus jornalistas para a praxe de mencionarem seus destaques e no meio da profusão de cantores country, intérpretes de jazz, revelações do rap da costa leste havia esse fenômeno inclassificável chamado Liturgy e seu Aesthethica.

The ArA mudança mais brusca veio com o mais recente The Ark Work, onde foi abandonado o gutural para dar lugar, em última análise, a um canto com uma abordagem muito mais voltada à letargia dos cânticos de cunho doutrinário e religioso. Além disso, uso constante de teclados para acompanhar as cordas estridentes, uma dobradinha que alcança efeitos apoteóticos tanto em “Follow” quanto em “Follow II”.

A melodia principal de “Quetzalcoatl”, single apresentado dois meses antes do lançamento oficial de The Ark Work em meados de março deste ano, é tão assobiável quanto o pop mais radiofônico. “Father Vorizen” deixa a velocidade de lado e desbanca para o doom metal tradicional com um mesmo riff que é repetido ao longo de toda a faixa, com letra que resgata em certa parte a temática do primeiro álbum e, inclusive, cita-o nominalmente.

“Reign Array” traz outro riff marcante cuja repetição ocorre também no canto igualmente minimalista, fazendo perdurar o sentimento letárgico que permeia todo o disco, versando desde a nova ordem tecnológica (“computer chips silicone / webcam no talone / roulette studio / intrude vídeo”) e crianças com déficit de atenção a uma série de cores e sensações (“golden locks framing blue eye”; “I turn your ashes to gold / you repay me with vitriol”; “recirculation of all the things you know / uncovered lingam in the snow”)

“Vitriol” resgata o tipo de cântico que abre o disco de estreia Renihilation e também estampou Aesthethica profundamente, mas não é de se esperar que um empreendimento destes simplesmente se copie. Quando menos espera, o ouvinte tem a nítida impressão de que está ouvindo o mais novo trabalho de alguma promessa da Def Jam Records muito chegada num dub e drum ‘n’ bass. Um arrojo impressionante, ainda mais considerando todas as rupturas já perpetradas pela banda até aquele momento.

Quando quer ser épico, o Liturgy não faz uso de qualquer artifício estético ou visual para meramente provocar o efeito que outros grandes cartazes da cena black metal e semelhantes propõem, mas responde na música per se, como em “Total War”, faixa de encerramento de The Ark Work, que ainda assim não deixa de incorporar elementos de música eletrônica.

Curiosamente, o Liturgy se autodenomina “black metal transcendental”, e Hunt-Hendrix já chegou a palestrar a respeito em uma espécie de simpósio sobre black metal, o que denota alguma mínima preocupação com um rótulo, mas o trabalho desempenhado até então aponta cada vez mais para uma superação desse tipo supérfluo de tentar aderir uma etiqueta a um produto, de categorização de algo que talvez esteja além dessas fronteiras para ser reconhecido por muito mais que seu valor de face. O Liturgy se isenta de dogmas em um grande enunciado de determinação e autoconfiança e deixa à mostra de quem quiser ouvir um trabalho de conceituação e reflexão sobre o metal extremo que não deve ser ignorado.

Renihilation (2009), Aesthethica (2011) e The Ark Work (2015) podem ser ouvidos na íntegra e também adquiridos em cópia digital no Bandcamp oficial do artista: https://liturgy.bandcamp.com/ .

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Sobre o Autor

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Guillermo Gumucio

Professor de Jornalismo e Linguagem Audiovisual na Universidade de Mogi das Cruzes (UMC). Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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