O criminoso é um “mal educado”?

Muitos não trilhariam a senda do mal se afastados fossem das circunstâncias que propiciam ocasião ao crime

Postado dia 11/04/2017 às 11:19 por José Iwabe

criminoso

Foto: Reprodução

Já em diversas postagens tratei da tragédia em que se tornou o nosso quotidiano pela criminalidade imperante em solo pátrio.

Tentarei, desta feita, discorrer sobre as suas possíveis causas e a inércia reinante para evitar a sua progressão.

Alguém escolher entre ser ou bom, ou mau é decorrência do livre arbítrio e desde Caim – que matou seu irmão Abel – o mundo sempre conviveu com a maldade, com a criminalidade.

Ocorre que todas as sociedades organizadas sempre foram ciosas em impor barreiras e dificultar as práticas criminosas, adotando costumes que exaltavam a virtude, princípios e valores morais, bem como estabelecendo regras, normas e leis para balizar o comportamento humano e punir seus infratores.

O processo civilizatório atingiu culminâncias em nações que souberam inculcar a noção de dever como gerador de direitos, através de uma educação, tanto familiar como formal, às suas novas gerações, numa sucessão contínua, privilegiando a prática da virtude, a qual deveria ser vista como a meta de cada cidadão, em prol de uma sociedade harmônica, solidária e mais justa. Essa concepção da existência vivificou a Europa medieval e ainda deixou marcas profundas em muitos países até nos dias de hoje.

O Brasil, a partir da segunda metade do século XX, vem perdendo gradualmente essa perspectiva e as instituições têm seus alicerces deteriorados, boa parte por complacência – por que não dizer cumplicidade – de significativa parcela da sociedade. Desde a promulgação da Constituição de 1988, em extremo dedicada a exaltar os direitos do cidadão, sem destacar a necessária contrapartida dos deveres, foi gerando uma mentalidade egocêntrica e voltada à busca de toda sorte de vantagens materiais, relegando os princípios morais e valores culturais a um segundo plano.

A entrada ao século XXI parece ter coincidido com a degeneração nefanda e presente em todos os níveis da política nacional, criando um ambiente fecundo para a disseminação da criminalidade sem freios em quase todos os setores da sociedade, especialmente aqueles com estreitos vínculos com entes governamentais. Num clima de vale tudo e leniência das leis e da Justiça, os crimes comuns também se tornaram uma epidemia e agridem a sociedade quase que impunemente.

Basta olhar ao redor para constatar o desvario que toma conta de cada aspecto de nossas vidas. Como pudemos chegar a isso?

Porque faz-se de tudo para escantear uma das noções essenciais para haver ordem, limites, parâmetros numa sociedade: a do bem e do mal, do certo e do errado, da verdade e da mentira. O “politicamente correto” não aceita essas limitações e proclama a liberdade irrestrita de escolha, o que enevoa, esfumaça, embaça a correta concepção de vida. Tal é a cegueira que reina sobre o povo brasileiro que, enquanto a grande maioria reage com quase indiferença frente à gravidade do momento que vivemos, uma simples escolha de quem será eliminada num programe em que a baixaria é a protagonista – o BBB da Globo – motiva 107 milhões de ligações de pessoas ávidas em dar pitaco na artificial vida criada por um estúdio de televisão.

Se quisermos consertar o País e tentar repô-lo nos trilhos é preciso restaurar essa noção de bem e mal, fazer de nossa Educação uma prioridades, desde a familiar até a formal, estabelecer o período integral na grade curricular, ou então permitir a volta do instituto da aprendizagem a partir dos 14 anos em qualquer área de atividade econômica, dando ocupação aos adolescentes; criminalizar o consumo de drogas; punir os pais comprovadamente relapsos pelos crimes cometidos pelos seus filhos inimputáveis, ou substituir a regra da maioridade penal e estabelecer que psicólogos habilitados sejam convocados para determinar se o infrator menor tem consciência suficiente do que é certo ou errado, tenha a idade que tiver.

Enfim, muitos não trilhariam a senda do mal se afastados fossem das circunstâncias que propiciam ocasião ao crime. Quando isso não é feito, nesse caso, e só nesse caso pode se afirmar que o criminoso o é porque é “mal educado”.

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José Iwabe

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