O caso do Ken humano

Ken é o namorado da Barbie, certo? Não na vida real

Postado dia 16/02/2016 às 02:25 por Eliana Figueiredo

 

ken human

O Ken humano, americano de 32 anos, submeteu-se a 90 cirurgias plásticas e gastou cerca de 100 mil dólares nos últimos dez anos para ficar “parecido” com o boneco Ken, namorado da Barbie. Ele disse: “Eu adoro me metamorfosear, e quanto mais estranha é a cirurgia, melhor”. Quando foi proposto um encontro com uma Barbie humana, de 21 anos, ele disse: “Honestamente, ela é realmente esquisita, muito formal, e falta personalidade”.

Enquanto o americano parece estar bastante envolvido narcisicamente com sua obsessão de ser parecido, o Ken brasileiro de apenas 20 anos, definitivamente queria ser o boneco Ken.

Num primeiro momento o Ken humano brasileiro parece não ter nada que o diferencie de outros e outras bonecas humanas, que buscam através da medicina estética um ideal de perfeição, a transformação e a fama. Mas no caso dele, será que era só um personagem que ele buscava? Ele queria sair da realidade, do que é imperfeito e ser o perfeito boneco Ken.

Desde menino sonhava em ser famoso: seus traços perfeitos, olhos azuis tais como do pai que nem conheceu direito, chamavam a atenção de todos. Ainda criança, uma amiguinha de escola levou o boneco Ken para mostrar o quanto os dois eram parecidos. Parece ter surgido daí a obsessão do rapaz. Começou a participar de concursos de beleza, fez cursos de manequim e teatro.

Em pouco tempo passou por vários programas de televisão no Brasil e ficou conhecido mundialmente. Além de ser o Ken humano logo teria seu boneco lançado… Uma carreira curta e de sucesso, com muita ajuda da mídia.

Ao destacar este caso do amontoado de casos de bonecos e bonecas humanas, quis isolar sua singularidade. O ser humano desenvolve um sintoma, seu companheiro ao longo da vida, mas quando esse sintoma provoca um mal estar, provoca um tropeço, algo que faz com que cada um não consiga mais lidar sozinho com seu sintoma, eis o momento de buscar ajuda. O Ken brasileiro não teve tempo para isso…

Acompanhamos com Miller[1], que “A causa do desejo para cada um é sempre contingente. É uma propriedade fundamental do ser falante, a causa de seu desejo sempre tem a ver com um encontro (…)”. E esse encontro não é genérico, não é igual para todo mundo.

Podemos então dizer que cada ser humano tem um corpo. Não é um corpo. Ele o tem. E se o tem pode fazer o que quer com ele: negligenciá-lo ou embonecá-lo. Isolando o caso, pensando no caso a caso, pode-se dizer que o Ken buscou no mercado das imagens o império de seu gozo, levado às últimas consequências.

[1] MILLER, J.-A. Perspectivas dos Escritos e Outros Escritos de Lacan. Entre desejo e gozo. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.

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Sobre o Autor

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Eliana Figueiredo

Psicóloga há mais de 25 anos, supervisora, associada ao CLIN-a, Atende em consultório particular em Mogi das Cruzes e São Paulo.

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