O Brasil e o feitiço do tempo

O país está fadado a caminhar em círculos, deparando-se sempre com governos populistas, irresponsáveis e ocos de propostas factíveis?

Postado dia 22/01/2016 às 13:37 por Janaína Leite

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Foto: Prisão de Tiradentes, por Antônio Diogo da Silva Parreiras

 

Deixa entre o fascínio e o terror a aparente incapacidade que o Brasil tem de libertar-se do ciclo político-econômico negativo que, de tempos em tempos, engolfa o país e corrói sua trajetória de crescimento.

O motivo ao que parece é sempre o mesmo: o enamoramento ingênuo do povo diante de facilidades oferecidas por governos populistas, ocos de propostas factíveis e alargados em megalomanias. Autoridades que transformam o Estado em “monarquetas”, onde os apadrinhados estão acima das leis e das boas práticas de gestão. Lenientes (quando não geminados) com malfeitos, esses sujeitos financiam seus delírios administrativos por meio de impostos escorchantes e endividamento progressivo. Tal e qual vermes, eles carcomem a musculatura das instituições. Preenchem o espaço vazio com a palha de suas promessas.

Não fazem isso sozinhos, porém. Contam com a sanha e a cegueira do Legislativo, tão interessado em anabolizar os gastos e acochambrar os números quanto o Executivo, desde que isso lhes garanta alguma sobrevida na manutenção dos respectivos cargos.

Em uma comparação grosseira, é como se o pai de família não trabalhasse e vivesse fazendo dívidas na praça, inventando projetos esdrúxulos que jamais se concretizam. Age assim enquanto troca o próprio guarda-roupa e paga rodadas de bar aos amigos com o dinheiro saqueado da carteira dos filhos. Questionado acerca da investida sobre o salário alheio, esse modelo de preocupação humanística sobe na mesa e discursa. E o que faz a mãe? Diz que o pai tem razão. O mundo vive um momento difícil e é preciso colaborar, honrar o genitor e trabalhar em conjunto para a prosperidade da família.

A situação fiscal do Brasil corre a uma velocidade queniana para o insustentável. Ninguém sabe direito o tamanho do buraco, cada vez maior a despeito da cobrança voraz de taxas e da prestação ridícula de serviços pelo Estado. Os impostos vinculados não chegam ao seu destino. A Lei de Responsabilidade Fiscal, uma das maiores conquistas feitas pelo Brasil em termos de administração pública, foi assassinada pela União e por várias unidades da federação.

Impossível garantir a estabilidade sem tentar arrumar as distorções nas contas públicas. Mais impossível ainda o silêncio quando as bases de gestão responsável são demolidas. Quem quer viver no faz-de-conta deve buscar emprego na escrita de romances. Administração de recursos é coisa para quem preza a realidade e os números, a pesquisa e os fatos, o pragmatismo e a conclusão embasada. Caso contrário, quinhentos e dezesseis anos depois ainda nos subjugarão com espelhinhos.

As condições do meio-ambiente, aliás, são um capítulo à parte. Populações indígenas recebem um tratamento cada vez mais indigno. As tragédias ambientais sucedem-se em todo o país, tiram vidas, destroem quilômetros e dão a impressão de que o berço esplêndido está a se desmantelar bem frente aos olhos de um gigante sedado. Energias alternativas deixam de ser pesquisadas, enquanto madeireiras pelam a terra. Mineradoras calam os políticos sobre suas negligências. Obras de infraestrutura não saem do papel e mesmo assim drenam recursos. O empobrecimento no interior do país acontece de maneira perceptível. Uma crueldade, tendo em vista o período anterior, de melhora.

Há que se perguntar, portanto, se o Brasil está fadado a um feitiço do tempo e será obrigado a caminhar eternamente em círculos, deparando-se de quando em quando com o mesmo problema, só que agravado. Qual o motivo de condenação tão perversa?

A resposta óbvia, mais do que martelada, é a deseducação. O analfabetismo funcional é uma verdadeira praga, espécie de zika vírus metafórico, que igualmente resulta no apequenamento das funções cognitivas.

Em 2012, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estimava que cerca de 38% dos universitários era incapaz de uma simples interpretação de texto. Praticamente quatro entre dez formandos passaram quatro anos, ou mais, enrolando e sendo enrolados.

Na prática, essas pessoas seriam consideradas inaptas em um mercado de trabalho no qual a produtividade fosse devidamente valorizada – até porque na maioria dos casos reais não basta conseguir apreender o sentido de um texto elaborado por terceiros, é preciso também saber o suficiente para concatenar as ideias e escrevê-las de modo inteligível. (Vale lembrar que produtividade não significa trabalhar muito, de modo quase escravo, e sim utilizar ao máximo todos os recursos físicos e intelectuais disponíveis para o cumprimento de uma tarefa.)

Se juntar “lé” e “cré” é uma muralha de tamanho considerável para quem não se desenvolve a contento, torna-se razoável supor que o analfabeto funcional também sofra com entraves para guardar memórias racionais e coerentes de longo termo.

Mas nem só de incapacidade involuntária fala-se aqui. Há quem escolha o analfabetismo funcional temporário, certamente porque ele lhe permite viver sem grandes conflitos ideológicos em algumas áreas. Ou, claro, lhe traz algum tipo de benefício.

Quem defende a tal nova matriz econômica é uma boa forma de ilustrar o que está acima. Os ditos especialistas em economia, principalmente os que ocupam cargos de destaque na equipe econômica, agem de maneira irresponsável diante do avanço da inflação, adotando discursos de ataque ao mercado que oscilam da demagogia à comicidade.

Pouco antes do lançamento do Real, em 1994, as cédulas que circulavam pelo país misturavam gaúchos e baianas com escritores, uma mixórdia informativa que representava bem a bagunça do contexto. Valiam até 500 mil cruzeiros reais – ou seja, 500 mil eram coisa tão sem valor que podiam ser restritos a uma única nota! Com 500 mil não se comprava quase nada. O dinheiro era uma quimera. É a isso que querem voltar?

Inaceitável que ajam no governo como se brincassem no quintal de suas casas. A inflação é a Moby Dick nacional que surge para virar as águas cotidianas em sorvedouro, não um cachorro de bolsa de madame que faz rir com a estridência dos latidos.

Os governantes passam. Os estragos que deixam costumam durar muito mais.

Há que se ampliar os esforços para o fim do analfabetismo funcional e a compreensão dos ciclos históricos, principalmente entre aqueles que ocupam cargos públicos. Ou contentar-se com uma vida bovina, pagando o Quinto à Coroa de cabeça baixa e sustentando o desvario de mandatários insanos, apartados da realidade, que enforcam e salgam os esclarecidos.

 

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Sobre o Autor

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Janaína Leite

Jornalista com passagem em algumas das maiores redações do país. Escreve contos e poesias e já brincou de fazer música.

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