O axioma da caixa

Hum... Fora da caixa?! Tem certeza?

Postado dia 26/02/2016 às 09:00 por Tania Zaccharias

caixa

Foto: Divulgação/Internet

Numa sociedade industrial onde pessoas, coisas, alimentos e pensamentos são feitos para serem reproduzidos em escala, ninguém nos ensina a olhar para nós mesmos. O bom é saber a resposta certa, o premiado é responder o esperado, quem vai bem na prova é quem decora melhor a matéria. Honestidade de alma, autenticidade e olhar inovador não tem lugar. É diferente, é estranho, está errado. No limite, incomoda.

Esse é nosso sistema de educação, que como máquina reproduz pessoinhas para serem adultinhos bem comportados  e adequados ao sisteminha. Isso mesmo, no diminutivo, tipo brincar de Lego.

Aí, o sujeito vai lá, decora tudo na escola e no vestibular, passa de ano, vive todo certinho dentro do padrão que lhe ensinaram, sai de casa todo dia com seu terno e roupas à La “armário da Monica”, e um dia vem um tal de um cara do RH (ou algo do tipo) e fala que é muito importante “pensar fora da caixa”.

Hum… Fora da caixa?! Tem certeza?

Confesso: poucas expressões incomodam tanto quanto essa.

Explico: se as pessoas realmente começarem a pensar fora da caixa, elas vão explodir – ou implodir – o sistema todo, inclusive o cara que deu essa sugestão bizarra a elas.

Sigo explicando.

Olhemos a nossa singela vida de Seres Humanos…

A gente vive e dorme em uma caixa, normalmente empilhada em cima de várias outras caixas, protegidos por pessoas que passam o dia numa caixa na portaria. A gente acorda de manhã e pega uma caixa para descer até a garagem e lá entrar na caixa que irá nos transportar até o trabalho. Chegando lá, pegamos novamente uma – ou mais – caixas, para subir para outra caixa empilhada em um número ainda maior de caixas (por vezes envidraçadas) para passar o dia trabalhando na sua caixa-baia, olhando para um caixa com tela e com caixinhas que quando apertadas compõem frases. Entre uma coisa e outra, alguns de nós ainda para em uma caixa rolante, para como hamster, correr olhando para uma caixa que tem uma pessoa dentro dando notícias (normalmente ruins) ou algo do tipo. Outros, voltam para suas caixas e logo ligam essa caixa-que-fala e em sua frente passam horas até a hora de dormir em suas cama box (vulgo caixa, há!).

A vida moderna é lotada de caixas. Até melancia teve gente que já conseguiu fazer virar um caixa – e um monte de gente achou isso legal! Somos uma grande humanidade tetra pak que pasteurizados vivemos entre uma caixa e outra e a isso chamamos vida. Não se vê sol, não se vê luz, não se vê abertura. Não se vê horizonte, nem respiro, nem beleza, nem novas formas. Não se dorme ao relento, e não se pega vento. Não se tem tudo isso porque das crianças aos adultos, aceitamos sermos condicionados para caber em vidas embaladas.

Fica aqui o convite para essa auto reflexão, para que cada um de nós possa olhar em volta e ver nossas caixas, e aos poucos ir saindo – e implodindo essa vida tetra pak. E para os grande inovadores do pensamento fora da caixa e dessas filosofias vazias de inovação corporativa, fica minha pergunta (de alma, sem provocação): meu amigo, tem mesmo jeito de o sujeito fazer isso, pensar fora da caixa, sem para tal explodir a “p* toda”, inclusive o sistema que a isto lhe propõe?

Penso que não, e aí fica a dica para pensar bem antes de sugerir isso para alguém, pois ele pode aceitar o desafio e explodir tudo, inclusive você!

Compartilhar:

Sobre o Autor

avatar

Tania Zaccharias

Ex-menina, atual mulher "porque". Entusiasta da poesia da vida real, curiosa por tudo e sempre questionadora.

Obs: As postagens do autor são de plena responsabilidade do mesmo, o portal se isenta de qualquer conteúdo que possa ser ofensivo.

Veja mais posts deste autor

Leia também

Assine a nossa newsletter