O amor começou com a mulher

As importantes lições que um texto literário ensina sobre a sexualidade e os instintos dos seres humanos

Postado dia 08/03/2016 às 03:00 por Eliana Figueiredo

amor mulheres

Foto: Divulgação/Internet

“Pastoris, Daphnis e Chloé”, texto literário, provavelmente do grego e retórico Longus (séc. II ou III d.C.) e do qual nada se conhece. É um romance no estilo pastoral que conta a história de Daphnis e Chloé, duas crianças que foram abandonadas e em seguida adotadas por dois casais de pastores. Pelos objetos encontrados ao lado dos bebês, os pais adotivos entenderam que eles vinham de famílias abastadas e, por isso mesmo, eram tratados com cuidados especiais e não como simples pastores.

Entretanto Eros, em sonho, aparece aos pais e ordena que criassem as crianças no bosque. Passaram então a viver no bosque, ela, Chloé, tecendo oferendas às ninfas e ele, Daphnis, homenageando o Deus Pan, tocando lindamente sua flauta, a siringe.

Queria Eros que eles se transformassem num casal, o mais belo e famoso casal de amantes do mundo!

Já crescido, Daphnis caiu numa armadilha de lobos e sujou-se de lama. Chloé o ajudou a se limpar e se banhar, surpreendida e fascinada ficou com o corpo dele, nu, com a suavidade e cor da sua pele que ela naquele momento tocava. Depois disso foi provocada por um desejo insistente de vê-lo e tocá-lo novamente, o que tomava seus dias e a impedia de comer e dormir direito, ou mesmo de cuidar de seu rebanho.

Um tempo depois Dorcon apaixonou-se por ela e lançou a Daphnis um desafio. Quem vencesse ganharia um beijo de Chloé. Daphnis venceu. Ao beijá-la ele também foi surpreendido por um desejo ardente. Logo, em pouco tempo, ele também sentia no corpo o reflexo daquele beijo: não comia e mal dormia… Chegou a pensar que aquele beijo era venenoso!

Ambos estavam embaraçados com aquele desejo e não sabiam o que fazer com isso.

Eis que Eros aparece novamente em cena, desta vez para incumbir Philétas, homem velho, justo e hábil tocador de siringe, a ir ter com Daphnis e Chloé, para lhes falar das coisas do Amor! Philétas vai encontrá-los no Bosque das Ninfas e diz que toda aquela inquietação e tomento que estavam sentindo era a doença do Amor e lhes dá a receita para o alívio: que se abraçassem, que se beijassem e deitassem nus, um ao lado do outro. As duas primeiras partes eles fizeram, mas a terceira não. Daphnis tentava convencer Chloé, mostrando que os animais se acalmavam após deitarem-se lado a lado.

Fizeram. Chloé não entendia direito por que os animais não se despiam, tampouco se deitavam para se amarem. Daphnis então consentiu que tentassem fazer como os animais: vestidos e em pé. Mas para a decepção de ambos, Daphnis não conseguiu e chorou muito.

Pouco tempo depois, Lycénion, moça bela e originária da cidade, ao presenciar os amantes, ficou compadecida com a inexperiência de Daphnis e encantada por ele. Inventou para seu marido uma desculpa e foi procurar Daphnis. Disse-lhe que as ninfas, em sonhos, mandaram-na ensinar-lhe a se desincumbir com Chloé: ele deveria beijá-la e abraçá-la com a mesma intensidade que beijava Chloé.

Lycénion mostrou na prática a Daphnis como se faz Amor. Ele, satisfeito, se apressou em experimentar com Chloé, mas antes Lycénion o advertiu: Chloé sangrará muito, mas não se preocupe; e também orientou que não deixasse que outros a vissem chorando. Antes de partir disse: lembre-se de que fui eu, e não Chloé, quem fez de você um homem!

Algum tempo depois resolveram casar-se, com grande alegria, praticando nus, tal como havia sido ensinado, a plenitude do Amor.

Com este conto podemos apreender que no humano nada converge para a reprodução, para o congresso sexual. No homem nada corresponde ao instinto animal de cruzamento sexual ou de procriação. E é por isso mesmo que a sexualidade se desenvolve: falta no homem esse instinto. O congresso sexual no humano se dá pela transmissão, pelo que se passa de geração para geração.

Lacan nos diz que “… o que se deve fazer, como homem ou como mulher, o ser humano tem sempre que aprender, peça por peça, do Outro. (…) o campo da realização sexual, no final das contas, o inocente não sabe”. Daphnis e Chloé também não sabiam. Algo brotou em seus corpos, algo desconhecido por eles.

Foi Eros que incumbiu o velho Philétas de dizer a eles que o que sentiam era Amor. Mas foi Lycénion, uma mulher, quem o ensinou na prática.

O Amor começou com a mulher, provocadora e sábia! Ao escutá-las em nossos consultórios é esse saber, que cada mulher possui sobre si e suas escolhas, que buscamos, uma a uma, em sua singularidade, sem modelos, nem regras que as aprisionem, para que possam despertar!

 

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Sobre o Autor

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Eliana Figueiredo

Psicóloga há mais de 25 anos, supervisora, associada ao CLIN-a, Atende em consultório particular em Mogi das Cruzes e São Paulo.

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