Nunca desista de seus sonhos: eles podem deixar de sê-los

Fala Sampa, aconteceu na cidade de São Paulo, trazendo propostas inovadoras para a educação

Postado dia 01/09/2015 às 01:12 por Patricia Incola

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Somos feitos da mesma matéria de que são feitos os sonhos,

e a nossa curta vida termina com um sono.

(A Tempestade, Ato IV, Cena I)

 

O Fala Sampa 2015 aconteceu em São Paulo, nos dias 29 e 30 de agosto no parque da Água Branca. Foram dois dias de diálogos, atividades interativas lúdicas, arte, círculos de trocas e rodas de conversas sobre expressões e movimentos que já estão acontecendo e transformando de forma positiva a cidade de São Paulo e, consequentemente, a vida das pessoas.

Na roda de conversa “Ágora Nova Educação”, um grupo de apaixonados pelo tema da aprendizagem participou falando de seus projetos e saberes. Foram relatos de ricas experiências que foram costurando o dia a dia desses educadores brasileiros como uma colcha de retalhos. Para minha surpresa, encontrava-se nessa roda o Prof. José Pacheco.

Há alguns anos, venho conhecendo por meio da literatura, publicações e entrevistas na mídia, o pensamento e obra do educador português José Pacheco, idealizador e criador da reconhecida Escola da Ponte. A cada leitura me transladava a Portugal, despertando em mim um profundo desejo de conhecer as crianças que ali estudam e os professores que dividem a jornada com eles, desejando ouvir suas experiências e depoimentos a respeito de tão inovadora forma de ensinar-aprender (inovadora para nós, pois a Escola da Ponte surgiu em 1976). O lema da escola é “tentar fazer crianças felizes” e seus alicerces são a solidariedade, a autonomia e a responsabilidade. A Escola da Ponte diferencia-se do modelo de escola dita “tradicional” em sua pedagogia e estrutura. Sem currículo pré-estabelecido, sem séries, sem salas de aula e sem prova, a Escola reconhece cada estudante como único e irrepetível, fruto de sua origem e cultura.

O processo de alfabetização é inspirado na pedagogia de Paulo Freire, onde as crianças são motivadas por histórias ou perguntas disparadoras do desejo de ler e pela vontade de decifrar o código das palavras. As decisões são coletivas, em assembleias periódicas com estudantes, pais, funcionários e professores,oportunidade em que discutem as normas e regras. É um espaço onde todos têm voto e expressam-se sem constrangimentos e com liberdade. Eu poderia discorrer a respeito da Escola da Ponte e do Prof. Pacheco, poderia aqui recordar os depoimentos do educador Rubem Alves na ocasião de seu primeiro contato com a Escola da Ponte, mas não vou fazê-lo neste momento. Quero falar de sonhos e realizações. Não existem sonhos mais importantes ou menos importantes, ou melhores. Todo desejo de realização, de vivenciar uma experiência, se transforma num sonho para aquele que sente. São esses sonhos que nos fazem quem somos. É preciso inovar, estar sempre se desconstruindo para logo recomeçar.

Como educadora, guardava o desejo de conhecer pessoalmente o Prof. Pacheco e pensava que talvez algum dia, se meu sonho se realizasse, poderia vê-lo atuando, aprender com ele entre as crianças e colegas.

Hoje, Pacheco faz parte do Conselho Consultivo e apoia a Escola Âncora, em Cotia, interior do Estado de São Paulo. A Escola Âncora se inspira na Escola da Ponte e atende na mesma perspectiva de construção de autonomia de seus educandos, abolindo provas, ciclos e séries. Acredita na “prática educacional acolhedora e participativa que possibilita a todas as pessoas serem felizes e sábias”.

Em algumas tribos xamânicas, quando alguém chegava ao curandeiro se queixando de desânimo ou depressão, ele fazia seis perguntas:

– Quando você parou de dançar?
– Quando você parou de cantar?
– Quando você parou de acreditar?
– Quando você parou de se encantar pelas histórias?
– Quando você parou para silenciar?
– Quando você parou de amar?

Eu acrescentaria:

– Quando você parou de sonhar?

Os versos da epígrafe que Shakespeare atribuiu ao discurso de Próspero não são tão celebrados sem motivo. Diferentes das utopias, sonhos são horizontes que realmente podem ser alcançados, mais semelhantes a um longínquo e admirável planeta que observamos pela luneta todas as noites. Trabalhamos com afinco para que, com a espaçonave adequada, finquemos os pés naquela terra que tanto habitou o nosso imaginário. Muitos deram muitos passos para que as botas de Neil Armstrong deixassem a sua marca em solo lunar, e o projeto de uma nação sintetizado em um axioma sobre passos grandes e pequenos eternizado pela radiodifusão. Dependemos dos nossos sonhos e vivemos por eles, e sempre podemos encontrar semelhantes que compartilhem dos mesmos anseios, sem dúvida nenhuma.

Com o mero intuito de oferecer um pouco das minhas habilidades como professora, indaguei o Prof. Pacheco sobre qual seria o interesse de a Escola Âncora oferecer o ensino de espanhol a seus alunos. Não só tive a oportunidade de conhecer um profissional de referência para mim, que admiro e norteia os meus estudos e ambições, como saí do Fala Sampa com um convite para conhecer pessoalmente a Escola Âncora, sua infraestrutura, pessoal e beneficiados. Uma hipótese de que de Michael Collins, o astronauta “esquecido” da Apollo 11 que só assistiu a Buzz Aldrin e Neil Armstrong saltitarem pelo até então desconhecido, talvez saia da cabine.

 

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Sobre o Autor

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Patricia Incola

Gestora em Comunicação Empresarial, Especialista em Teorias e Técnicas para Cuidados Integrativos pela UNIFESP.

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