Necessidades Especiais nas Escolas

A criança com necessidades especiais já passou por muitos testes em que fracassou e costuma ter seus resultados piorados pela situação de estresse.

Postado dia 23/10/2017 às 08:00 por Kelly Carrijo

Foto: Reprodução

Cerca de  700 mil crianças com algum diagnóstico (Autismo, TDAH, Déficit de Atenção, Transtorno Obsessivo Desafiador, Dislexia, Discalculia, Dislalia etc) estavam matriculadas na educação básica regular e classes comuns em 2014. Conforme o Censo Escolar, a  presença de tais alunos coloca em voga algumas práticas tradicionais da educação, por exemplo, como dar aulas baseadas na lousa para um estudante com deficiência visual? Ou, como um educando diagnosticado como disléxico ou deficiente intelectual, pode acompanhar a leitura de um texto longo e realizar a interpretação do mesmo?

É preciso ter claro que alunos são diferentes e os que têm necessidades especiais têm características que os tornam um desafio para o educador acostumado com quem apresenta ritmo de desenvolvimento dentro do regular. “Para podermos falar realmente em inclusão, não basta matricular essas crianças, temos de garantir que elas estejam aprendendo e se desenvolvendo na escola de maneira efetiva. Para isso, precisamos acompanhar o desenvolvimento do aluno”, é o que afirma a professora da UNESP Anna Augusta Sampaio de Oliveira.

Uma das ações indicadas para o acompanhamento destes alunos é a avaliação assistida que é chamada também de dinâmica ou interativa, tal método, como dizem alguns especialistas, tem o objetivo de avaliar o processo de aprendizagem e não somente o resultado do que foi aprendido. Normalmente, esse tipo de avaliação é realizada em três etapas: primeiro, cria-se uma situação de avaliação para ver o que a criança tem como conhecimento; segundo, o interventor  ajuda o estudante, em um processo parecido com o de ensino, até que ele se torne suficiente para resolver o problema dado; e por último, a criança passa por uma nova avaliação em que deve resolver o problema sozinha. “Essa avaliação mostra a sensibilidade da criança à ajuda, como ela responde, e também indica de que tipo de apoio ela precisa”, explica Sônia Regina Enumo, professora de psicologia da PUC.

Neste entremeio, diferentes formas de auxílio são testadas segundo a necessidade do mesmo e até em alguns casos, faz-se necessário apenas repetir a instrução porém em outros são utilizadas ferramentas diferentes, por exemplo, imagens, objetos ou outro item que a estimule a raciocinar até o momento em que o mediador explica todo o raciocínio para a criança. Assim, a partir da percepção de qual tipo de ajuda surtiu efeito e da compreensão de como esta aprende, psicólogos, psicopedagogos e  professores podem desenvolver estratégias mais adequadas para a aprendizagem daquele aluno.

Esta análise do potencial e das formas de aprendizagem, diferencia a estratégia assistida de testes psicométricos ou de provas convencionais. “Precisamos compreender o ato avaliativo como um instrumento capaz de mediar o ensino e a aprendizagem, em vez de meramente verificar as limitações do aluno e dar o assunto por encerrado”, pondera Mariana Pitanga de Oliveira, doutoranda da UFRJ. “Trata-se de compreender a avaliação como um processo intencional, capaz de demonstrar como a criança aprende, e não só o que ela já aprendeu; o que ela pode fazer sozinha e o que pode fazer com a intervenção do professor.”

Outro benefício apontado é mudar o estigma da avaliação. A criança com necessidades especiais já passou por muitos testes em que fracassou e costuma ter seus resultados piorados pela situação de estresse. “A avaliação em que ela sente que está aprendendo, que tem uma dinâmica de aula, tende a amenizar o estresse e a gerar resultados mais interessantes”, considera Sônia Enumo.

A avaliação assistida pode ser clínica, aplicada por psicólogos, ou pedagógica, feita por profissionais da educação o mais importante é que a melhor saída, na fala de todos os consultados, é o trabalho multidisciplinar em rede que une o acompanhamento psicológico com o atendimento pedagógico personalizado. A avaliação psicológica vai “identificar quais são as maiores dificuldades da criança, o que ela é capaz de fazer, como consegue aprender, quais as facilidades que a criança tem e, depois disso, propor uma intervenção”, explica Monalisa Muniz Nascimento, da Universidade Federal de São Carlos.

A avaliação do desempenho desses alunos se dá de maneira mediada pelos professores e é feita por relatórios detalhados, que não registram apenas se a criança apresentou resultado quantitativo, mas em que tipo de tarefa apresentou mais dificuldade, qual conhecimento dominou e em que precisa de mais atenção (qualitativo). Estes relatórios servem de apoio para um plano individualizado de ensino que define estratégias a serem usadas com essa criança e até, em alguns casos, considerar uma temporalidade diferente dos anos letivos escolares. “Nem toda criança vai aprender aquele conteúdo indicado para o 40 ano em um ano de aulas. Há casos em que ela vai precisar de mais tempo para dominar as habilidades esperadas, e isso não deve ser um problema; deve ser considerado como uma via. O importante é criar um plano de ação para garantir o desenvolvimento dessa criança e fazer com que ganhe autonomia”, argumenta Braun. E não há problema nenhum nisto precisamos é ter bom senso e respeito pelo modo e tempo em que ela aprende e absorve.

A rede municipal de São Paulo atendia, em 2015, 15.951 alunos com necessidades especiais – 7.203 (45%) apresentavam alguma síndrome e 1.696 (10,7%) apresentavam deficiências múltiplas, de acordo com a Secretaria Municipal de Educação. Para melhorar o atendimento dessas crianças com o uso da avaliação mediada, Anna Augusta de Oliveira, da Unesp, desenvolveu um Referencial sobre Avaliação da Aprendizagem na Área da Deficiência Intelectual (RAADI) para orientar professores da sala de recursos multifuncionais e docentes regulares. “Tentamos detalhar a proposta curricular para que o professor passe a perceber que não basta saber se esse aluno lê ou escreve. A oralidade também faz parte do currículo e deve ser considerada como um desenvolvimento do aluno”, exemplifica a consultora. O RAADI especifica detalhadamente quais são as habilidades esperadas de um aluno em cada ciclo de ensino e em cada disciplina estabelecida. O objetivo é dar parâmetros para o professor observar os alunos que não seguem o padrão esperado.

Por fim , fica evidente que, enquanto profissionais da educação, necessitamos refletir sobre quais são os parâmetros utilizados para a aprovação/reprovação dos estudantes e se estes contemplam perspectivas inclusivas ou se ainda estão relacionados à lógica excludente que visa à padronização do ensino. Refletir sobre essa questão é premente para que possamos possibilitar práticas que favoreçam o desenvolvimento de todos os sujeitos, revelando as suas potencialidades e fazendo nosso papel de evidenciar suas potencialidades, muitas vezes, adormecidas.

Avaliação assistida não é apenas questão de certo e errado, e sim de compreender o processo.

A diferença entre o que uma pessoa é capaz de aprender sozinha e o que pode resolver um problema sem ajuda e as variadas possibilidades que ela tem de aprendizado caso receba o auxílio de alguém foi definida pelo psicólogo russo Lev Vigotski como zona de desenvolvimento proximal. A avaliação assistida se baseia na teoria vigotskiana que estabelece relação direta entre o desenvolvimento de uma criança e as interações sociais a que ela está exposta.

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Sobre o Autor

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Kelly Carrijo

Formada em licenciatura, pós-graduada em Gestão de Negócios e MBA em Gerenciamento de Projetos

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