Naufrágios, partidas e desafios

Não há viagem marítima que seja monótona. E não há experiência mais intensa que a convivência humana no espaço exíguo de um barco

Postado dia 13/09/2016 às 08:00 por Valter Mello

viagem

Foto: Reprodução/Internet

 

“O pior naufrágio é aquele de quem não saiu do porto”
Amir Klink

 

Acho essa frase muito triste pela inação implícita, por traduzir em uma sentença tudo o que deixou de ser realizado.

Aliás, é interessante como as metáforas baseadas em oceanos e viagens marítimas, tanto quanto cenas marinhas, costumam ser tristonhas. Talvez porque o mar traga em si uma certa nostalgia e uma ideia de solidão, além, é claro, de nos tornar conscientes de nossa pequenez e fragilidade.

Imagino que tenha sido essa a metáfora desejada por Kate Chopin em seu livro O Despertar, quando disse que “a voz do mar fala à alma”.

Talvez esses contrapontos entre solidão e introspecção, entre o planejado e o desconhecido, entre o destemor do marinheiro e sua fragilidade, entre a visão das ilhas paradisíacas e as tormentas perfeitas, é que tornam tão sedutores os livros que contam coisas do mar, principalmente os relatos de viagens marítimas.

Não há viagem marítima que seja monótona. E não há experiência mais intensa que a convivência humana no espaço exíguo de um barco, que faz com que qualquer reality show seja brincadeira de jardim da infância.

Eu sou um apaixonado pelo mar. Desde antes de navegar e antes de aprender a fazer o meu primeiro nó, já consumia livros e livros quer fossem sobre piratas, sobre descobridores, ou sobre a arte da marinharia.

Aos sete anos de idade ganhei um livro de minha primeira professora, e era justamente sobre um navegador – Fernão de Magalhães, o visionário português que julgou ser possível chegar às Índias através de um caminho diferente. Ele se tornou o primeiro homem, no início do século XVI, a planejar e comandar uma viagem de circunavegação pelo Oeste contornando a América do Sul, contradizendo todos os que diziam que seria impossível.

No primeiro semestre deste ano, tive a honra de ser paraninfo de meus alunos de logística. Queria falar sobre como os sonhos, a persistência e a coragem podem definir uma vida e mudar o mundo. E, para isso, usei as lições apreendidas dessa leitura.

Falei sobre a persistência de Fernão de Magalhães, que correu todas as cortes importantes da Europa do início do século XVI até conseguir financiamento para sua ideia e partir de Sevilha com 5 caravelas e 250 tripulantes.

Falei sobre a coragem e a determinação porque, depois de três anos, apenas 18 tripulantes doentes e famintos, em uma única caravela emblematicamente de nome Victoria, o grupo voltou ao porto inicial, depois de motins, tempestades e batalhas. E já sem Fernão de Magalhães, que morreu em uma dessas batalhas após ter descoberto o estreito que hoje leva o seu nome.

Mas, se o cara morreu no meio da viagem, como é que sabemos como tudo aconteceu? Só porque um de seus tripulantes, Pigafetta, manteve preciosos registros de toda a viagem.

E ele, Pigafetta, me deu o mote para falar do compartilhamento e da dedicação.

Eu creio que o diário mantido por ele contenha uma lição tão importante quanto aquelas sobre a coragem, a persistência e até mesmo sobre os pontos fracos de Magalhães.

Afinal, nenhum de nós será lembrado ou conseguirá o sucesso sozinho. Todos dependemos de ajuda e comprometimento de muita gente, como o astrônomo que definiu a rota, os pilotos, os taifeiros, até os tripulantes mais humildes, que quase nunca passam para a história.

Eu mesmo, ao longo da vida, aprendi que, em grande parte das vezes, o bom trabalho é aquele que não aparece, às vezes sequer é citado nos relatórios, mas que fica cristalizado, servindo de base para tudo o que será acrescentado dali por diante.

O que vale é o comprometimento com que fazemos cada uma de nossas ações e o espírito de equipe.

Pense nisso!

 

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Valter Mello

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