“Não rotule!” Foi o que li na embalagem

Todo mundo agora tem o dever de tirar conclusões sobre tudo e todos, e expô-las (instantânea e precipitadamente) numa praça pública virtual qualquer

Postado dia 01/07/2016 às 07:00 por Wilson ADM

embalagem

Foto: Reprodução/Internet

É curioso como a velocidade da informação e a evolução sem fim dos meios eletrônicos aceleram, igualmente, nossa comunicação e nosso talento para “trumbicar” (à benção, Chacrinha!). E não me refiro aqui aos conteúdos das trocas propriamente ditas, quase sempre superficiais e álibi certo para tantos tecnofóbicos e profetas do “apocalipse internético” (#elestemlasuasrazões).

De fato, ao contrário, quero aqui chamar a atenção para a verborragia irrefletida que se prolifera entre nós – essa primeira turma de formandos do século XXI – tal como um zika vírus da comunicação humana. E a epidemia extrapola o universo web e contamina também os chats 1.0 (o bom e velho papo tête-à-tête).

Claro que bordões e palavras de ordem, sejam quais forem e a matiz política que adquiram, sempre estiveram na (des)ordem do dia.  Ocorre que, com a velocidade e instantaneidade da comunicação 2…3… 4.0, a “máquina da opinião pública” dá sinais de superaquecimento! (E atenção à dica: se o caso for opinar sobre temas relevantes pelo Snapchat, respire fundo dez vezes antes e reflita sobre a coerência – e relevância! – do que for publicar. A dica não cabe à gravação de banalidades para milhares de pessoas; afinal de contas, creio eu, registros do tipo combinam melhor com a natureza ultra instantânea do aplicativo).

Em segredo, interiormente, por vezes damos “like” para nós mesmos depois de emitirmos certas opiniões, na fugaz impressão de um vernizinho intelectual sobre o ego, que, por sua vez, dá seu “like” ao ser lustrado. Ou não? Alguns até enxergam nisso uma missão social, civil… sagrada?… Não sei.

Outro fato que já não é novidade (e o que haveria de ser num mundo que envelhece a cada novo iPhone?) e que você talvez já tenha ouvido falar bastante é sobre alguns formadores de opinião que, ao defenderem o “abaixo aos rótulos”, o fazem de maneira a fortalecer e aprofundar as divisões dentro da sociedade.

Exemplo: “Vou sair de cartaz na mão na passeata a favor da descriminalização da maconha, ok?! E não me venham rotular de vagabundo drogado! Cambada de caretas fascistas!!”… Hã?!

Pontos convergentes raramente dão matéria de capa, é vero! E em se tratando de política, então, cujos bordões, rótulos e frases de efeito já nascem slogans, a verborragia é quase um direito adquirido.

Veja o caso da palavra maldita usada acima, “fascista”, cuja raiz guarda (ou guardava) uma ideia do tipo: visão de mundo em que a nação e a raça sobrepõem os valores individuais, sustentando governos autocráticos e ditadores que “gritam bonito” para povos “surdos”.

Enfim… Acontece que o termo “fascista” atualmente anda tão  “mantriático” (neologismo para “mantra entoado nas mídias sociais”) que daqui a pouco tem criancinha no Jardim da Infância usando a palavra para xingar o coleguinha que lhe tomou o pirulito!

Se digo que sou a favor da revisão da política assistencialista… Fascista! (e de repente aí as conversas se sobrepõem e ninguém mais se ouve). Antes mesmo que eu “molhe o bico” e, numa só expiração, conclua explicando “não-ser-contra-mas-sim-defender-uma-fiscalização-mais-rigorosa-e-uma-diretriz-que-conjugue-melhor-todo-e-qualquer-tipo-de-auxílio-com-um-projeto-de-reforma-educacional-de-longo-prazo…” Fuuuuu… Ufa! Falei…

Mas já pode ser tarde. Iniciar um papo (ou post) assim talvez me torne um “camisa negra” já na sequência das três primeiras palavras fatídicas (revisão de política assistencialista).

Agora, se publico que “opinião foi feita para se debater, e também mudar, se for esse o caso e o norte apontado pela consciência, e que o dono dela deve ser respeitado e protegido em seu direito”, o que eu sou então? Humanista? Liberal? Um democrata?! – alguém arriscaria? Talvez nem tanto, talvez nem sempre… Mas aí o rótulo, se já “grudou na garrafa”, tudo bem! A gente “bebe” isso mesmo!…

E o mesmo vale para as “embalagens” de “esquerdóide”, “coxinha”, “petralha”, “intelectual”, “pai dos pobres”… Rótulos que só prestam ao serviço de fechar nossos olhos para realidades mais complexas, ora condenando gente de bem em questões conjunturais (seja ou não equivocado o juízo por ele ou ela emitido, de acordo com o contexto e forma com que se expressou), ora aliviando a barra daqueles que, no lugar de um rótulo, deveriam sim ter estampados em destaque, em suas biografias, os adjetivos reais (e espúrios) que já encarnaram.

Canalhice, por exemplo, é uma manifestação torpe do carácter, embora não vire “rótulo” de ninguém, já que não favorece a criação de uma “embalagem clean”, com um arquétipo físico e comportamental bem definidos e facilmente identificáveis na camiseta ou discurso, ao contrário de “esquerdóide” ou “coxinha”.

Além disso, o canalha não tem tipo, palavra de ordem, discurso, idade, altura, partido político ou fanpage… e, o que é mais desconfortável, ele está no meio de nós e, por vezes, está a falar dentro de nós, desejando ser ouvido em seu discurso de “minha voz sobre as demais”, seja na vantagem sobre alguém, no jeitinho que se dá para  pagar meia entrada em espetáculos ou em qualquer outra “pedalada” comezinha diária, e aparentemente inocente.

Sim, essa voz já me venceu certas vezes na vida e exatamente em situações de miudeza cotidiana, “inofensivas” à primeira vista, mas que podem gerar em nossa mente, com a prática diligente, uma afeição desmedida pelo modus operandi da via mais fácil (que, quase sempre, como bem sabemos, não é a da ética elevada).

Por isso minha preocupação hoje é estar vigilante para perceber “a tal voz” chegando, egocêntrica, tirânica e mimada como sempre, pois ao notá-la é que tenho a chance de rebatê-la com firmeza e lucidez. Por outro lado, se permanecer distraído “lendo” o que dizem os “rótulos”, meus e dos outros, expostos nas prateleiras das timelines ou na verborragia pseudo idealista em geral, talvez não seja capaz de ouvi-la fazendo birra. E daí a encontrá-la tomando a palavra de ordem no púlpito do teatro de arena que é nossa vida em sociedade, é só um passo… digo, um “rótulo”!

facebookRicardo Ferreira da Silva Vergueiro
Cidade: Mogi das Cruzes
Jornalista, músico e “groupie” de filósofos.
Interessado em: Livros, música, natureza e viagens são meus maiores prazeres.
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