Não existem ateus. Existem homens que querem ser deuses

Se é verdade que uma das características da fé é crer naquilo que não precisa ser provado a base de métodos científicos, então temos fé diariamente nas coisas mais banais

Postado dia 01/08/2016 às 09:00 por Pedro Henrique

 

ateu

Foto: Reprodução/Internet

Todos possuem um Deus — ou um deus. Ninguém é verdadeiramente ateu. Ser crente não se resume apenas em acreditar num ser supremo e transcendente, com atributos igualmente supremos. Ter fé é uma atitude muito mais corriqueira que possamos imaginar.

Todos nutrimos uma fé, por exemplo, quando miramos um fim ideológico impossível, quando divagamos na ideia de uma sociedade terrena e utópica de igualdade absoluta. Temos fé quando entramos num ônibus e, sem bafômetro, confiamos cegamente que o motorista possui aptidão e lucidez para dirigir; confiamos que ele possui condições de nos levar ao destino esperado sem se chocar com os inúmeros postes que hão de aparecer no caminho.

Assim como você, sem provas científicas, acredita com uma fé pontifical que o massagista não te apunhalará pelas costas numa sessão de massagem. Muitos não precisam de um tubo de ensaio com o DNA de Deus para crer nele.

Você pode escolher adorar a hóstia consagrada, sua namorada ou o seu ídolo. Ainda que, de maneira substancial, adorar a sua namorada ou seu ídolo, seja, de muitas maneiras, diferente da adoração teologal. Todavia, de maneira sumária, somente mudará a direção de sua fé e de sua adoração.

O mundo ateu em que vivemos procura dantescamente provas científicas da existência de um ser transcendente. Mas devemos nos questionar: o que fariam eles se as encontrassem? Se prostrariam diante dele ou tentariam se empossar de suas grandezas? Contemplá-lo-iam como um monge, ou, contra ele, conspirariam como demônios?

Se é verdade que uma das características da fé é crer naquilo que não precisa ser provado a base de métodos científicos, então temos fé diariamente nas coisas mais banais, ainda que sejamos ateus. De certo modo, temos fé que o piloto do Boeing não esteja suficientemente depressivo, ou estressado, ao ponto de querer dar um mergulho no Oceano Atlântico com mais 100 pessoas que nada têm a ver com seus exóticos gostos aquáticos. Temos fé que, alhures, um homem muito bem agasalhado, sob um sol de 40º do Rio de Janeiro, seja apenas um ente perdido num modismo exótico de alguma tribo de roqueiros, e não um homem-bomba islâmico que tenha a intenção de adorar Alá com corpos humanos despedaçados.

Ainda que o sofrimento da humanidade seja imputado como prova da inexistência de um Deus, este argumento, ainda que verdadeiramente trágico e carregado de uma revolta compreensível, nada prova. É como tentar provar, pela atitude de um louco, que a sanidade não existe.

Se Deus existe, ele não está muito preocupado em parar o dedo do gatilho, nem manter o chão sob os pés do condenado a forca. Se Deus existe, ele já nos dotou de racionalidade para que, com ela, nós concluíssemos sozinhos que fazer bombas atômicas não é lá muito saudável à humanidade. Ou alguém aqui precisa que Deus desça de seu trono magnânimo e apareça em forma de luz celestial, com a voz do Cid Moreira, para dizer que matar fetos nos útero materno é uma crueldade sangrenta sem igual?

Então, que o homem tenha minimamente a honra de assumir suas falhas e morticínios. Pois o erro de caráter de quem explode uma aldeia é de quem aciona o botão, assim como o erro de quem estupra é unicamente daquele ser que não possui freios morais em seus desejos sexuais. A mão de Deus está em nossa capacidade moral de separamos o aceitável do criminoso, o amável do absurdo, o divino do demoníaco.

Fica difícil assimilar o racionalismo ateu quando a ausência da prova torna-se a prova da ausência de Deus. Ainda que a razão caminhe com a fé, a fé sem a razão é uma águia que voa com uma asa apenas. Por sua vez, a razão sem a fé é uma águia que não voa, pois sem fé não há motivo para isso.

Não existe ateu, existe um homem que não aceita que possa haver algo que o sobreponha. O homem se assusta com a possibilidade de um ser que o conheça inteiramente, ao ponto de poder dar-lhe o fim justo que suas escolhas garimparam. O homem tem medo de um Deus que conheça as porcarias mais íntimas de suas entranhas espirituais e morais; é mais fácil esconder-se num humanismo secularista do que enfrentar seu próprio chiqueiro denominado ego.

O ateísmo busca eternamente a prova empírica de um Deus, ainda que, mesmo que provado, o descrente não o aceitaria como tal. Na realidade, na sociedade moderna, o trono de Deus já está bem ocupado por homens que sequer controlam suas vontades de urinar, quanto menos suas egolatrias.

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Sobre o Autor

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Pedro Henrique

Pedro Henrique, filósofo, ensaísta, crítico social, estudioso de política e palestrante

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