Não é bem assim

O populismo se esparramou por toda a estrutura política brasileira e deu conteúdo para os discursos de vereadores, prefeitos, deputados, governadores e senadores. E presidentes, é claro

Postado dia 25/03/2016 às 03:02 por Heródoto Barbeiro

populismo

Foto: Reprodução/Internet

Os livros didáticos ensinavam nas escolas que a república brasileira se espelhou na república americana. Não é bem assim. A república americana foi fruto de uma guerra da independência que se iniciou quando os colonos ingleses na América tomaram consciência de que não tinham vez no parlamento britânico. Este impunha normas e impostos e os ingleses da América queriam ser ouvidos, ter deputados, afinal se consideravam cidadãos ingleses. Ao saber que o único direito que tinham era pagar impostos, rebelaram-se para uma guerra da independência. Os comandantes eram civis, na maioria proprietários de terras e escravos. Influenciados pelos ideais do liberalismo do final do Século 18 fundaram os Estados Unidos da América. Puseram em prática a teoria de uma república presidencialista, com os poderes divididos em executivo, legislativo e judiciário. O poder preponderante era e é o Congresso. O presidente tem pouco poder e ele é mais fraco se o seu partido tem minoria no Congresso, como Obama. Por isso ele cuida mais de assuntos internacionais do que de questões internas. Enfim, tinha e tem pouca influência porque seu poder está limitado pela constituição.

A república brasileira nasceu de um golpe de estado militar contra o império. Os líderes, Deodoro, Floriano e Rui Barbosa, eram monarquistas. A constituição de 1891 tentou se inspirar na americana com divisão de poderes, supremo tribunal federal, etc. Contudo os constituintes foram fortemente influenciados pelo pensamento do filósofo Augusto Comte. Este recomendava que o poder preponderante deveria ser do presidente, com forças de um verdadeiro ditador. Deodoro e Floriano foram ditadores. A história da República dos Estados Unidos do Brasil era ensinada nas escolas através da sucessão dos presidentes. Isto era coerente com o pressuposto que ele era o mais importante agente político. E era. A constituição punha na mão dele poderes que jamais um presidente americano teve.  E assim foi. Por isso não teve grande resistência quando Vargas implantou uma ditadura de fato em 1930 e deu o golpe que criou o Estado Novo em 1937. Ficou no poder 15 anos. Impensável nos Estados Unidos onde Roosevelt foi eleito por três vezes em plena segunda guerra mundial.

Vargas e seus sucessores recorreram ao populismo para se manter no poder. O populista é o político que promove uma aliança entre classes sociais diferentes e se apresenta como o pai dos pobres, mãe dos necessitados. É o salvador da pátria. É o homem ungido capaz de salvar o país. Isto foi repetido pelo menos por sete décadas nas escolas e na mídia. O líder populista tem como principal característica falar o que o povo quer ouvir. Incentiva o assistencialismo estatal e finge estar ao lado dos pobres, mas convive com os ricos. Vende a imagem de um descamisado, mas tem acesso às mais caras grifes. Fala do transporte precário dos trabalhadores, mas viaja em jatinhos. Enfim, é um fenômeno latino americano. Não se confunde com os ditadores europeus do entre guerras que cavalgavam em ideologias estruturadas. O populismo se esparramou por toda a estrutura política brasileira e deu conteúdo para os discursos de vereadores, prefeitos, deputados, governadores e senadores. E presidentes, é claro.

Compartilhar:

Sobre o Autor

avatar

Heródoto Barbeiro

Heródoto Barbeiro, escritor e jornalista, âncora do Jornal da Record News e editor do Blog do Barbeiro. Foi âncora do Roda Viva da TV Cultura e do Jornal da CBN. Tem livros nas áreas de jornalismo, história, mundo corporativo e budismo.

Obs: As postagens do autor são de plena responsabilidade do mesmo, o portal se isenta de qualquer conteúdo que possa ser ofensivo.

Veja mais posts deste autor

Leia também

Assine a nossa newsletter