Nada como um comunista burguês

O que seria mais vergonhoso do que subir ao poder jurando lutar pelos pobres, ao passo que, atrás das cortinas, usa-se dos suados impostos dos trabalhadores para montar seus lupanares particulares?

Postado dia 26/09/2016 às 10:12 por Pedro Henrique

 

comunista

Foto: Reprodução/nternet

Gosto muito de estudar a história do comunismo. Não é nada raro eu comprar livros e documentários sobre o assunto. Se pudermos elencar características centrais dos regimes comunistas no século passado (e aqueles que sobrevivem no século atual), apontaria especialmente duas.

Primeiramente: as ilusões utópicas em que todos esses regimes estavam mergulhados, a crença de que o comunismo iria dar a parúsia terrena e libertaria o homem das amarras da economia capitalizada das grandes empresas[1]. Segundo: a hipocrisia dos revolucionários chefes, dos ditos libertadores do proletariado. É desta segunda característica que iremos nos ocupar hoje.

Não é preciso ser conservador como eu, liberal, ou qualquer outro tipo de oposição, para perceber que há uma linha tênue que corta quase todos os regimes políticos de esquerda. Esta linha tênue torna-se uma vergonha para os próprios regimes, e um disparate para aqueles que os analisam em termos panorâmicos. Se forem suficientemente emancipados de suas opiniões ideológicas, tenho certeza que vocês hão de convir comigo que, no mínimo, há uma contradição absurda no que eu irei apresentar agora. Isto é, a riqueza desconcertante dos líderes socialistas frente à pobreza acentuada e gritante da população que governam.

Por muito tempo me abstive de usar desta argumentação por considerá-la ad hominem. Todavia, quando tive contato com três obras sobre esses fatos, percebi que talvez esse seja o argumento mais plausível contra o comunismo. Talvez, até mesmo, a prova de seu fracasso institucional.

São elas, em primeiro lugar, Sussurros, de Orlando Figes, que mostra como era a vida das pessoas comuns na URSS, onde a população passava por dificuldades mais básicas, como a falta de saneamento e de alimentos mais simples, como pão e leite.

Outra obra é a do poeta cubano Reinaldo Arenas. No trabalho autobiográfico intitulado Antes que Anoiteça, o autor conta sua história de vida como um homossexual em Cuba. Ele descreve as perseguições que sofreu por esse fato, e descreve a pobreza da população cubana. As pessoas comuns viam barrados seus direitos mais simples, como o de comprar o que quisessem. A “caderneta” governamental proibia a compra de certas quantias de mantimentos.

Por fim, mas não menos importante, a obra do jornalista brasileiro Osvaldo Peralva. Em O Retrato, ele descreve sua entrada e sua estadia no Kominform, o maior serviço de informação — e desinformação — da URSS. Ali, comenta as mentiras gritantes que eles próprios fabricavam para manter a fidelidade dos sindicatos do mundo todo. Também mostra como os chefes da URSS viviam cercados de luxos pagos com dinheiro da população pobre.

Ele próprio, que era um socialista influente na URSS, participou dessas festas em verdadeiros palácios, festas banhadas de vinhos caros, vodkas caras e champanhes mais caros ainda. Tudo cercado de uma riqueza tão discrepante da realidade social da URSS que ele próprio decidiu assumir os riscos de desertar dessa realidade mentirosa do “comunismo para os pobres”. Mentira que jazia entranhada nos discursos soviéticos e ainda jazem nos discursos comunistas de todo o globo.

Vale a pena ressaltar que, apesar de toda mentira vista por ele na URSS, o jornalista morre se considerando um socialista liberal, o que acaba dando mais credibilidade aos seus relatos. Vale a pena a leitura atenta dessas obras.

A revista Forbes, mundialmente reconhecida por suas análises econômicas no que concerne às riquezas particulares de muitos famosos, em 2006, havia calculado como riqueza pessoal de Fidel Castro o montante de 900 milhões de dólares[2]. O que daria hoje, em reais, a quantia de R$ 2.915.790.425,17[3]. Não é segredo ao mundo que Fidel possui resorts somente para ele e os seus íntimos, se é que não podemos afirmar que Cuba seja de fato sua propriedade privada.

E mais: são 900 milhões de dólares em bens declarados, sem falar que o UOL afirma que a revista Forbes ainda não contabilizou as sabidas contas na Suíça que o cubano possui, e que, possivelmente, não declara como suas. Tal quantia de dinheiro ultrapassa os montantes de propriedades da rainha Elizabeth, por exemplo, e de outros monarcas. Fidel Castro é um verdadeiro rei – e um dos mais caros, aliás.

O que me leva a questionar a plausibilidade e a sensatez dessa ideologia. Que prega contra as riquezas extremadas e o capital acumulado, ainda que, quando estão em posição de usufruir dessas bonanças, estes líderes simplesmente contrariam os seus discursos e tornam-se burgueses com o dinheiro do pão do pobre.

Não tenho nada contra quem é rico; todavia, sou rigorosamente contra aqueles que ficam ricos a custo de impostos, de imposições estatais. A população venezuelana está comendo com, e como cachorros[4], não possui sequer papel higiênico. Confiscos e mais confiscos são corriqueiros. Entretanto, pergunte como está Nicolas Maduro…. Muito bem, obrigado. Está em seu palácio governamental sem passar nenhum tipo de dificuldade financeira, tenha certeza disso.

Sabidamente, hoje, temos a consciência de que Lula usou de propinas e desvios de dinheiro público, o que acarretou para ele presentes dos carteis de empreiteiras. Presentes, por exemplo, como um tríplex no Guarujá. Sua propriedade pessoal cresceu 300% em oito anos. Qual é a porcentagem de aumento do salário mínimo mesmo? Aquele homem, que fez história andando nos chãos dos sindicatos, pregando com toda a fúria revolucionária contra o capital estrangeiro, contra o acúmulo de bens e contra a propriedade privada, hoje é um burguês. Hoje senta-se nas poltronas da grande casa para cear com os humanos[5]. Um homem de negócios que anda com seguranças e os mimos dos capitalistas.

A contradição faz parte de nossa condição de homens falhos. Diria até que ela é necessária para o crescimento individual e social. A contradição é um dos aparatos naturais da vida. A contradição, por vezes, é necessária para que nossos erros se transformem em reformulações de caráter ou cicatrizes daquilo que fomos frente àquilo que nos tornamos. Cicatrizes de guerras vencidas. Todavia, a contradição, quando é posta como modelo de vida, quando é institucionalizada como sendo o pilar da existência de um modelo político, gera uma dissonância crônica na ordem do discurso e na ordem social.

Ou seja, a contradição, quando é tomada como essência de um agir individual e social, torna-se hipocrisia. Se a contradição é a marca do erro lógico, a hipocrisia é a marca putrefata do erro de caráter.

O que seria mais cômico e criminoso do que uma instituição beneficente de tratamento contra o câncer usar das verbas públicas e privadas para enriquecer seus diretores? O que seria mais vergonhoso do que subir ao poder jurando lutar pelos pobres, ao passo que, atrás das cortinas da devassidão pública, usa-se dos suados impostos dos trabalhadores para montar seus lupanares particulares, para financiar suas orgias políticas comunitárias?

Enquanto houver discursos como: “diminuímos a miséria e a fome no Brasil”, vindo de salões luxuosos, de tríplexes a beira-mar, de palácios recheados de funcionários e riquezas amontoadas em dunas de libertinagens públicas, enquanto houver isso, não acreditarei no discurso comunista. No moralismo pró pobres, enquanto suas práxis são pró burgueses; o mínimo que se pede é a coerência, o mínimo que esperamos dos notáveis heróis do proletariado é o caráter de fazer da coisa pública o terreno de melhoria ao “soberano”, para usar a nomenclatura de Rousseau.

O problema não é ser rico, o problema é ser rico às custas de meus impostos; o problema não é a mansão do bilionário, o problema é eu não conseguir reformar meu telhado porque o governo acha que sabe gastar meu dinheiro melhor do que eu mesmo. É o governo achar que eu devo pagar a gasolina do jatinho do deputado e do presidente!

No fim, pouca coisa mudou do Império para a República. Antes o monarca era escolhido segundo a hereditariedade, vivia dos impostos dos plebeus e das riquezas saqueada dos terrenos inimigos derrotados em guerras. Na República os reis são eletivos, possuem quatro ou oito anos para serem sustentados por impostos da plebe para saquearem dos fundos públicos aqueles que eles veem como eleitores e conspiradores, como sufragistas e golpistas, como “companheiros” e inimigos. Aliás, contra os quais recentemente declararam guerra[6]; somos todos taxados segundo suas diretrizes que dizem: me apoiam, então é companheiro; se opõe, então é inimigo.

Ave comunismo!

[1] Sobre isso, recomendo meu artigo ao Instituto liberal de Minas Gerais: http://ilmg.org.br/utopia-a-receita-para-o-fracasso-social/.
[2] Ver: http://noticias.uol.com.br/ultnot/afp/2006/05/05/ult34u153848.jhtm.
[3] Usei o site https://conversor-moedas.com para calcular a taxa de câmbio de dólares para reais.
[4] Ver: <http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2016/06/1779773-venezuelanos-disputam-comida-com-caes-no-lixo-de-feira-de-caracas.shtml>
[5] Ver: <http://sociedadepublica.com.br/revolucao-dos-bichos-petistas/>
[6] O presidente da CUT, em ato em defesa de Dilma e Lula, chegou a falar em pegar em armas e montar trincheiras. Ver: <http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2015/08/declaracao-do-presidente-da-cut-provoca-constrangimento.html>
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Sobre o Autor

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Pedro Henrique

Pedro Henrique, filósofo, ensaísta, crítico social, estudioso de política e palestrante

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