Mulher maravilha

Viúva de grande beleza (e capaz de decepar a cabeça do inimigo), Judite é uma das heroínas mais impressionantes na Bíblia

Postado dia 23/09/2016 às 09:22 por Tiago Cordeiro

 

judite

Foto: Reprodução/Internet

Existe entre os autores do Antigo Testamento uma verdadeira obsessão por Nabucodonosor. Diferentes livros situam seus personagens na época em que o grande rei da Babilônia viveu e realizou conquistas militares expressivas – incluindo a destruição de Jerusalém. O profeta Daniel interpreta sonhos de Nabucodonosor. O livro de Jeremias prevê a chegada deste imperador poderoso, capaz de lançar todo o povo para o cativeiro. Outro relato, bastante curioso, não aceito pelo cânone judaico (logo, também recusado pelos protestantes), é o de Judite. Sua história se situa no começo da dominação babilônica. E conta o episódio de uma vitória militar dos judeus. Uma vitória alcançada à base de sedução.

O livro conta que Nabucodonosor convocou seu comandante militar e segundo homem mais importante do império, Holofernes (um estranho nome grego, que dificilmente seria usado na Babilônia), para dominar e arrasar os territórios vizinhos. Ele seguiu com 120 mil soldados e 12 mil cavalos. Ao saber das mortes de jovens e das cidades destruídas e colheitas queimadas nos países vizinhos, os israelitas pediram clemência a Deus.

“Todos os homens de Israel, e as mulheres e crianças que residiam em Jerusalém, prostraram-se diante do templo, cobriram suas cabeças de cinza e desdobraram seus mantos de penitência diante do templo do Senhor”, diz a Bíblia. “Também o altar, cobriram-no com panos de saco e clamaram ao Deus de Israel com unânime veemência.”

Ao mesmo tempo, se prepararam para a guerra, bloquearam os caminhos de acesso para Jerusalém e se recusaram a enviar emissários a Holofernes para pedir clemência. Curioso, o general ouviu a história do povo de Javé. Ao que respondeu: “Quem é deus senão Nabucodonosor, o rei de toda a terra? É este que enviará o seu poder e os riscará da face da terra, sem que seu Deus possa livrá-los.” Ao chegar a Betúlia, seu primeiro alvo e porta de entrada para o corredor que levava a Jerusalém, Holofernes optou por tomar as fontes de água e organizar um cerco.

Depois de 34 dias, o povo começou a desfalecer de sede quando Ozias, o líder dos hebreus, pediu mais 5 dias de paciência. Ao fim desse prazo, se Javé não se manifestasse, ele apresentaria a rendição. Não parecia justo, diz o livro. Desta vez, o povo estava sendo fiel a Javé. E, nestas situações, sempre se saía vitorioso. Era quando abandonava a Deus que vinham as desgraças.

Judite, viúva fazia 3 anos e 4 meses, não aceitou o pedido de Ozias. Para ela, dar prazo para Javé era sinal de falta de fé. Ela procurou os líderes da cidade e pediu para sair em direção ao inimigo, junto a uma serva. Foi liberada em sua missão.

A heroína improvável vivia da herança do marido Manassés, dono de “ouro e prata, servos e servas, rebanhos e campos”, diz o texto. “Era muito bela de aspecto e formosa de rosto, prudente de coração e com bom senso, e muito honrada”. Judite seguiu direto para o acampamento de Holofernes e pediu para falar com o general. Mentiu para ele: disse que sabia quando seu povo iria pecar e garantiu que, assim que o pecado acontecesse e Javé baixasse sua proteção, a vitória seria fácil. Holofernes gostou do que ouviu e manteve a bela estrangeira em seu acampamento.

Uma noite, ela topou participar de um jantar com o general. Todos, menos ela, beberam muito. Todos, menos ela, foram embora da tenda do comandante – que, desde o primeiro dia, tentava dormir com a hebreia bonita, bem vestida e sempre sedutora. “Só Judite foi deixada na tenda, onde Holofernes caíra em seu leito, afogado no vinho”, afirma a Bíblia. Foi quando veio o ataque.

“Aproximando-se da coluna do leito, junto à cabeça de Holofernes, dali retirou a espada.  Depois, chegou perto do leito, agarrou a cabeleira da cabeça dele e disse: ‘Ó Deus de Israel, fortifica-me, Senhor, Deus de Israel, neste dia!’ E golpeou com toda a força, por duas vezes, o pescoço de Holofernes, cortando-lhe a cabeça”. Desesperados pela morte do comandante, os mais de 100 mil soldados teriam fugido correndo. Covardemente, os israelitas os teriam perseguido e massacrado. Judite passou o resto de sua vida em glória. Recusou todos os pretendentes de seu povo e morreu com 105 anos.

O livro não é preciso historicamente. Cita batalhas que nunca ocorreram e parece usar o nome Nabucodonosor como um inimigo genérico, mais do que um rei específico. Trata-se de uma parábola, uma história com uma moral ao final: o povo precisa confiar em Javé sempre, mesmo quando a situação parece irreversível. O caráter de ficção fica mais claro quando se pensa no nome Judite, que significa “judia”, e na pouco conhecida, quase misteriosa, cidade de Betúlia (expressão que, em hebraico, significa “virgem” e que pode indicar o fato de que, neste episódio, o território israelita ficou intocado).

É curioso que o livro, que aparentemente defende a fé do povo hebraico e o poder de Deus, dê tanto o crédito de uma vitória militar a uma mulher que usou as armas da sedução para conquistar a confiança do inimigo e depois trai-lo. A obra aqui parece longe dos tempos em que Javé abria mares para vencer faraós ou fazia trombetas derrubarem muros. Mas Judite permanece uma personagem única: mulher, bonita, forte, inteligente, que não se dobra diante do poder masculino (seja do comandante israelita, seja do chefe dos inimigos). E assim supera um exército inteiro.

 

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Sobre o Autor

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Tiago Cordeiro

Pós graduado em Literatura Brasileira. Trabalhou pelas revistas Veja, Época, Galileu, apaixonado pela área de tecnologia e religião.

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