A fábula da mosca na sopa

Nós nascemos somente para desfrutar o que a vida nos oferece. Uma vez conseguido, por que lutar por mais alguma coisa?

Postado dia 13/04/2016 às 08:30 por João Anatalino

mosca

Foto: Reprodução/Internet

Duas moscas que voavam inadvertidamente numa cozinha, ao passar por cima da mesa, viram lá embaixo uma panela com uma suculenta sopa. O cheiro estava bom e uma delas desceu para prová-la. Ficou logo presa no caldo. Tentou nadar até a borda da panela, mas quanto mais se debatia, mais pesadas as suas asas ficavam. Então pensou: “Não foi para isso que desci até aqui? Então vou aproveitar. E ao invés de continuar tentando escapar, comeu sopa até se fartar. Cansada e pesadona, deitou-se no grosso caldo e ali ficou, a dormir. A outra mosca viu que ela desistira de lutar e se abandonara à própria sorte. Parecia estar satisfeita, mas ela sabia que isso seria a morte da colega. “Hei amiga”, gritou ela.  “Não desista. Continue a nadar. Mexa as asas. Saia daí. Vamos, você consegue.”

Mas a mosca, com seu último suspiro, respondeu: “Deixa para lá, amiga. Eu já comi, já bebi, já tomei meu banho. Não foi isso que nós viemos buscar aqui?”

***
Essa fábula de Esopo pode ser interpretada de muitas maneiras. Um sujeito sem ambição poderia dizer: Bom, é isso mesmo. Nós nascemos somente para desfrutar o que a vida nos oferece. Uma vez conseguido, por que lutar por mais alguma coisa?

Também se poderia interpretar essa história como sendo uma metáfora do perigo que ronda toda pessoa imprevidente, curiosa e gananciosa. Normalmente elas acabam se tornando prisioneiras das coisas que desejam. Depois de conquistadas, não sabem mais como se livrar delas, mesmo que venham a causar sua morte. Acontece muito com os vícios que adquirimos. No começo o cheiro é bom, o paladar é delicioso, o prazer é imenso. Depois…

Essa fábula também pode ser tomada como exemplo de conformismo e abandono à providência, que algumas religiões aconselham como necessárias ao conforto do espírito, quando descobrimos que a morte é inevitável. Então paramos de lutar, porque, se a morte é o fim de tudo, de que adianta labutar tanto?

Enfim, são muitas as interpretações. Quem quiser pode dar a sua. As fábulas de Esopo têm essa característica. Elas são verdadeiras Gestalts, que transmitem profundas mensagens de sabedoria. Por isso o grande La Fontaine, rei das fabulações, o colocava entre os maiores sábios que a humanidade já produziu.  

Eu, por mim, vou lutar até o último suspiro. Quando a morte vier me buscar ela pode ter certeza que vai levar alguém muito inconformado.

 

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Sobre o Autor

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João Anatalino

João Anatalino Rodrigues é bacharel em Direito e Economia e Mestre em Direito Tributário e escritor com 10 publicações autorais.

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